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Jornalista desnuda

23 jul 2004 às 11:00
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... nunca me leram e vão fazê-lo talvez (????) uma só vez na vida.

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Escrever é difícil. Costumo dizer que é a arte de costurar as palavras. Se as costuro bem posso tecer um belo vestido. Em alguém minhas idéias podem entrar. Em outras obviamente, não vão encaixar. Como uma roupa grande ou pequena que nem deitando no chão para fazer o fecho éclair cerrar não vão penetrar a carne. A carne de quem lê é penetrável. Assim como tudo é passível de ser absorvido. Ou não, como diriam Caetano e Fernando Henrique Cardoso.

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Mas até aí tudo bem. Vestida de idéias quero costurar esta semana fria e chuvosa de 2004 em Curitiba. Quero costurar poesia embalada por uma entrevista maravilhosa que fiz com o professor Leopoldo Schernner, mestre em literatura portuguesa e língua portuguesa. Pois bem, estive com ele anteontem e mais uma vez ganhei uma lição da vida.


Aos 85 anos, ex-aluno de Manuel Bandeira e professor de Paulo Leminski, Schernner acredita em poesia. Acredita em letras. As letras traduzem o que somos. Por isso talvez meu medo de escrever. Ele disse: "o poeta se desnuda quando escreve". Meu medo de escrever é de eu própria me desnudar a tal ponto que meus vestidos, meus escafandros espirituais, muitas vezes escondendo meus sentimentos mais humanos se mostrem cruelmente a meus leitores. E eu vire uma amargurada. Mas e se virasse? E daí né? A amargura também serve para alguma coisa.


Vi o longa-metragem Dogville" de Lars von Trier semana passada. Nicole Kidman monumental num papel de quem quer agradar para ser aceita na sociedade. Agrada e vira refém da hiprocisia e do preconceito.
Não quero agradar e nem desagradar. Quero viver livre dessas amarras que possam querer me conduzir para este ou aquele lado. Quero viver infinitamente as emoções do amor universal e não olhar para trás perdendo tempo com o que não tive tempo de corrigir. Com os textos que escrevi e que não foram lidos por ninguém. Quero ler Mario Quintana, conversar com Schernner, espiar os filmes de Von Trier, escutar as loucuras do bêbado que senta ao meu lado num banco de bar e ser sempre livre para vestir-me com as palavras que me aprouverem. Para que mais que isso?

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Se o filósofo Epicuro tivesse saido do seu jardim, teria ele escrito as maravilhas que escreveu em suas delícias de jardim? Talvez não. Por isso não quero mais fugir da sombria Curitiba quando minhas idéias não vierem organizadas à minha mente. "Viajar é mudar de lugar a solidão", escreveu Mário Quintana. Ele nunca vestiu-se de palavras difíceis, mas deixou um legado de poemas simples que fazem a gente perceber que só quem se desnuda vive verdadeiramente a vida.


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