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A QUESTÃO DE DEUS PARA JUNG

17 jul 2011 às 20:36
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"Desistindo de procurar por Deus, a criação e coisas como esta, busques por Ele dentro de ti e aprendas quem é que agrega em si absolutamente todas as coisas dentro de ti, e digas: "Meu deus, minha mente, minha compreensão, minha alma, meu corpo". E aprendas de onde vem a tristeza, a alegria, o amor, o ódio, a vivacidade involuntária, a sonolência involuntária, a raiva involuntária e afeição involuntária; e se tu investigares corretamente estes (pontos), O descobrirás, unidade e pluralidade, em ti mesmo, de acordo com aquela partícula, e saberás que Ele encontra a conexão como sendo tu mesmo "
-Monoimo- segundo Hipólito de Roma

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A QUESTÃO DE DEUS PARA JUNG

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No dia 06 de Junho passado, completou-se 50 anos da morte do médico e psicólogo suíço Carl Gustav Jung que deixou vasta literatura sobre a Psicologia. Muito daquilo que escreveu se encontra ainda quase que intocado pela psique de nossa época, escondido e para, infelizmente, muitos psicólogos, inalcançável devido ao véu da ignorância instalada pela própria cultura, lamentavelmente, ainda enfadonha de nossos tempos.


Talvez, a questão mais polêmica que o Dr. Jung levantou foi sobre a religiosidade. Algo muito simples, mas que ao longo desses 50 anos tem se revelado cada vez mais envolto de sombra devido às projeções daqueles que distorce seus estudos científicos sobre o funcionamento da psique humana buscando legitimar a existência de seu deus.
No entanto, aqueles, mesmo que leigos, lêem seus textos, compreendem imediatamente que o Dr. Jung se preocupou tão somente com a qualidade de sua ciência ao investigar o fenômeno universal da crença nos espíritos e em deuses.


Como atesta Wikipédia, no link
http://pt.wikipedia.org/wiki/Psicologia_anal%C3%ADtica

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"A psicologia analítica foi desenvolvida com base na experiência psiquiátrica de Jung, nos estudos de Freud e no amplo conhecimento que Jung tinha das tradições da alquimia, da mitologia e do estudo comparado da história das religiões, e as quais ele veio a compreender como auto-representações de processos psíquicos inconscientes."

Ao invés de ignorar o anseio religioso, o Dr. Jung, completamente solitário em tal pesquisa, mergulhou empiricamente na questão que resultou em vários de seus conceitos da Psicologia Analítica, bem como na conclusão, hoje óbvia para todos os cientistas, de que a crença em deuses nada mais é do que projeção de conteúdos psíquicos sobre os quais o ego desconhece.


Devido a tal exploração científica que contou com percepções de quando ainda era uma criança e filho de pastor; com as brincadeiras infantis que envolvia a crença em espíritos; com o estudo pormenorizado que lhe rendeu sua tese universitária sobre sua própria tia que dizia falar com os espíritos, o que fez com que a família se sentisse ofendida a ponto de excluí-lo do convívio familiar; e posteriormente, seus estudos já na clínica médica do hospital psiquiátrico junto aos pacientes portadores de psicose. O Dr. Jung concluiu que o arquétipo de deus existe desde que o primeiro ser humano, diante do desconhecido e do medo da morte, anunciou que era necessário agradar aos deuses para se prevenir contra as desgraças naturais.


O arquétipo seja ele de um deus, seja ele de uma bruxa, seja ele de uma determinada profissão, seja ele sobre o complexo materno ou do herói, seja ele sobre a criança abandonada ou sobre o velho sábio ou sobre o trickster ele, o arquétipo, é uma criação humana. Por isso o Dr. Jung cunhou a frase célebre:
"Querendo ou não, Deus está presente". Ou ainda a sua outra frase também célebre: "Eu não acredito em Deus. Eu sei que ele existe". Claro que ele sabia dessa existência, desde criança foi juntando percepções que ao longo de sua carreira foi se confirmando, inclusive organizou várias expedições para verificar junto aos povos primitivos sobre a mesma questão. O Dr. Jung foi o primeiro cientista a confirmar cientificamente que a religiosidade é instintual e que o arquétipo existe por que foi criado e permanece alimentado pelas projeções do ser humano.


De modo que o Dr. Jung não acredita em Deus, ele sabe que o arquétipo existe, por que se deu ao trabalho de pesquisar o fenômeno da crença nos espíritos, coisa que nenhum outro psicólogo teve a coragem de fazer numa época em que falar de deuses e crenças como produto da psique humana poderia significar sua morte ou seu banimento social. Se nem hoje a sociedade é capaz de ouvir a ciência sem sacrificar seu cientista, o que dirá naqueles idos de 1.900!


A Dra. Aniela Jaffé explica, na introdução de Memórias, Sonhos e Reflexões de Jung, que "Em suas obras científicas Jung nunca fala de Deus, mas da imagem de deus na psique humana". E afirma que o Dr. Jung, a partir de pesquisas e estudos, fez a "descoberta de que a psique cria espontaneamente imagens de conteúdo religioso", sendo de natureza religiosa, tais conteúdos são expressões do instinto religioso. De modo que o Dr. Jung "interpretava a religiosidade do ponto de vista da psicologia, limitando conscientemente as fronteiras com as perspectivas teológicas".


Para não fugir do contexto dessa coluna, irei relatar um sonho e uma imaginação ativa do próprio Dr. Jung sobre a questão de Deus e utilizarei suas próprias interpretações para criar um quadro geral de análise.
Aos três ou quatro anos de idade, Jung teve o primeiro sonho de que se lembra e que veio a ocupar-lhe durante toda a sua vida. Como seu pai foi um pastor luterano, Jung desde a primeira infância já freqüentava o presbitério onde, atrás da quinta do sacristão se estendia uma ampla campina:


"No sonho, eu estava nessa campina. Subitamente descobri uma cova sombria, retangular, revestida de alvenaria. Nunca a vira antes. Curioso, me aproximei e olhei o seu interior. Vi uma escada que conduzia ao fundo. Hesitante e amedrontado, desci. Embaixo deparei com uma porta em arco, fechada por uma cortina verde. Esta era grande e pesada, de um tecido adamascado ou de brocado, cuja riqueza me impressionou. Curioso de saber o que se escondia atrás a afastei e deparei com um espaço retangular de cerca de dez metros de comprimento, sob uma tênue luz crepuscular. A abóboda do teto era de pedra e o chão de azulejos. No meio, da entrada até um estrado baixo, estendia-se um tapete vermelho. A poltrona era esplêndida, um verdadeiro trono real, como nos contos de fada. Sobre ele uma forma gigantesca quase alcançava o teto. Pareceu-me primeiro um grande tronco de árvore: seu diâmetro era mais ou menos de cinqüenta ou sessenta centímetros e sua altura aproximadamente de uns quatro ou cinco metros. O objeto era estranhamente construído: feito de pele e carne viva, sua parte superior terminava numa espécie de cabeça cônica e arredondada, sem rosto e nem cabelos. No topo, um único olho, imóvel, fitava o alto. O aposento era relativamente claro, se bem que não houvesse qualquer janela ou luz. Mas sobre a cabeça brilhava uma certa claridade . O objeto não se movia , mas eu tinha a impressão de que a qualquer momento poderia descer de seu trono e rastejar em minha direção, qual um verme. Fiquei paralisado de angustia. Nesse momento insuportável ouvi repentinamente a voz de minha mãe, gritando: ‘Sim, olhe-o bem, isto é o devorador de homens!’. Senti um medo infernal e despertei, transpirando de angústia."


Como acontece com todos os sonhos arquetípicos de possuir uma grande carga de energia psíquica, esse sonho aos três anos de Jung, o acompanhou durante toda sua vida. A angústia produzida o incentivou a pesquisar e a descobrir uma arqueologia da mente humana. Olhando para esse sonho descobriu a história do falo ritual e do deus subterrâneo que aos seus três anos de idade não possuía qualquer referência. A partir daí, Jung pesquisou as diversas manifestações e representações da imagem de deus em variadas culturas e civilizações.


O que o levou a questionar e depois a verificar cientificamente junto aos delírios de seus pacientes esquizofrênicos, que havia uma estrutura antiga e herdada na psique, ao que ele chamou de Inconsciente Coletivo e que hoje alguns autores chamam de Memória Celular.


Por outro lado, compreendeu que o arquétipo de deus poderia ser o devorador de homens, ou melhor, de sua capacidade singular de refletir, questionar e criticar, por que diante de um arquétipo de deus, os homens podem deixar de pensar e tudo atribuir ao arquétipo. Isso seria o que o Dr. Jung veio a chamar de dissolução da identidade na Consciência Coletiva.


O Processo de Individuação se faz quando o sujeito reconhece suas singularidades e suas potências e não mais se deixa levar, embora compreenda sua influencia, pela consciência coletiva que aprende a discernir como arquetípicas.


Ainda na infância, em meio ao pai e tios pastores religiosos, Jung questionava a fé e a imagem de deus. Sentia-se solitário e o fazia em segredo com medo das represálias. Acreditava, de acordo com sua educação religiosa, que pensar do modo que pensava sobre Deus era uma infâmia. Mas, ao questionar também a si mesmo dentro dessa angústia, Jung, sem nos esquecermos de que ele ainda era uma criança, questionou de onde viria essa sua tendência de pensar de modo" infame" como diriam seus pais se, por acaso, viessem a saber de seu sonho e de seus pensamentos críticos e questionadores .


O pequeno Jung, angustiado, não conseguia parar de pensar e sabia que seus pais eram boas pessoas, não poderia ser deles essa sua tendência de "pensar naquilo que não devia". Foi então buscar em seus ancestrais o responsável pela sua tendência à "infâmia" e como não poderia deixar de ser chegou até Adão e Eva, as primeiras criaturas humanas. Não tiveram pais para ensinar-lhes a "infâmia". Foram criados direta e intencionalmente por Deus, tais como eram. Não poderiam imaginar outra maneira de ser senão aquela que lhes fora dada. Eram criaturas perfeitas de um Deus que criava apenas a perfeição. No entanto, foram eles que cometeram o primeiro pecado. Jamais o teriam feito se Deus não tivesse posto neles a possibilidade de fazê-lo.


O mesmo se deu com a serpente que Deus criou antes mesmo deles. Criou com a evidente intenção de que ela fosse capaz de persuadi-los ao pecado. Ele em sua onisciência organizou tudo no sentido de que os nossos primeiros pais fossem constrangidos a cometer pecado. Assim foi concluindo o pequeno e "infame" Jung. "Conseqüentemente a intenção de Deus era que pudessem pecar". Diante de tal descoberta, Jung se sentiu aliviado. Não sentia mais culpa em questionar e pensar.


E quando, ainda na mesma época de infância, pensou se Deus o estaria pondo a prova, como reza a moral cristã, ele teve a seguinte experiência:
"Reuni toda a coragem e deixei o pensamento emergir: diante de meus olhos ergue-se a bela catedral e, em cima, o céu azul. Deus está sentado em seu trono de ouro, muito alto acima do mundo e, debaixo do trono, um enorme excremento cai sobre o teto novo e colorido da igreja que se despedaça e os muros desabam".


Diz Jung: "Então era isso! Senti um alívio imenso e uma libertação indescritível, ao invés da danação esperada, a graça descera sobre mim e com ela uma felicidade indizível...".


Passaram-se muitos anos de estudos e experiências científicas para que o Dr. Jung olhasse para esses dois acontecimentos de sua infância sem se reprovar através da moral cristã que o circundava.


Esses dois acontecimentos foram pinçados de várias outras experiências que teve e que o manteve alerta e desperto para a realidade psíquica. Jung percebeu, já na infância que o deus de que tanto temiam e criam não estava nem um pouco preocupado com as convenções sociais e nem mesmo com as crenças ou com a direção dos homens.


Foi assim que se deram os primórdios de sua investigação sobre a psique humana e a construção da fé e da imagem de deus. Somente mais tarde, depois de investigar exaustivamente as imagens de deus nas civilizações o que envolveu diversas expedições feitas por Jung para países orientais, tribos primitivas e etc., é que o maduro Dr. Jung estruturou as idéias de imagens arquetípicas e de inconsciente arquetípico.


Compreendeu que a imagem de deus é necessária para a maioria das pessoas, por que se trata de uma defesa instintiva contra a angústia da finitude e do desconhecido. A imagem de deus é a representação do eterno no homem e a legitimização de sua importância diante de um universo imenso e assustador. E por ser arquetípica, a imagem de deus, modifica as roupagens, mas sempre surge manifestando o mesmo conteúdo. É a representação da totalidade que o homem necessita para se sentir seguro diante da existência que em si mesma não possui nenhuma moral, nenhuma preferência e nem mesmo sequer finalidade. Diante dessa concepção aterrorizante, um deus é a resposta necessária para dar suporte ao que não tem o menor suporte: sua existência.


Para o Dr. Jung, o arquétipo é uma criação humana e querendo ou não querendo, invocando ou não invocando, ele está presente por que existe a união mística de toda a humanidade visando e concebendo o mesmo desejo pelos mesmos motivos desde o início até nossos dias.


O Dr. Jung explica também que, para pensar esses conteúdos arquetípicos de modo científico e livre de concepções morais, deve-se ater a eles como conteúdos de categoria de força e não de moral, posto que se trate de energia psíquica.


A energia psíquica encontra sua forma visível nas imagens emocionalmente carregadas. No entanto, para tal trabalho é necessário despender muita energia psíquica e nem todas as pessoas possuem um quantum de energia suficiente para essas investigações devido a doenças psíquicas que engessam o bom funcionamento mental como é o caso da neurose. Na neurose o indivíduo não aceita a finitude nem mesmo de uma mudança do lugar do sofá ou de uma relação, quanto mais se abrir para a investigação que a priori requer o desejo pela visão da amplitude e invariavelmente acometerá princípios e valores morais obsoletos, dando origem a nova ordem psíquica, moral e ética muito mais saudável do que a de hoje que se atém a consciência coletiva.


De acordo com o Dr. Jung em seu texto, Memórias, Sonhos e Reflexões, "Quando indagamos qual poderá ser a natureza da consciência, o fato que mais nos impressiona – maravilha das maravilhas- é o de que um acontecimento que se produz no cosmo cria simultaneamente uma imagem em nós ou, de algum modo, se desenrola paralelamente, tornando-se assim consciente."
Sua idéia e concepção de consciência são grandiosas e a nada se assemelha a consciência adoecida que verificamos em nossos dias. Em sua concepção a consciência não tem cristalizações de pensamento. Como poderia se o cosmo está em movimento e expansão constantemente?


E assim continua: "Nossa consciência não se cria a si mesma, mas emana de profundezas desconhecidas. Na infância desperta gradualmente e, ao longo da vida, desperta cada manhã, saindo das profundezas do sono, de um estado de inconsciência. É como uma criança nascendo diariamente do seio materno."


Diariamente nascendo para um novo brincar, sem ressentimentos, sem fixações, sem apegos, sem cristalizações morais, simplesmente capaz devido às forças das quais se alimenta quando imersa em seu inconsciente de modo muito sensível devido ao contato com os instintos, por ora negados e soterrados pela hipocrisia de uma consciência incapacitada e fraca por que foi ensinada e domesticada para ver a força e a sensibilidade no outro e nunca em si mesmo.
Não posso deixar de lembrar a alegre constatação de Leminski: "O homem nasceu para brilhar!"

Pobre Leminski, o quão distante está este homem de consciência adoecida dessa sua real natureza!


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