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PARA O ENCONTRO COM O OUTRO - análise de sonho

31 dez 1969 às 21:33
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As tribos primitivas e ainda hoje, as comunidades indígenas, possuem reverência e sabedoria diante do onírico e do imaginário.

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Quando o Dr. Carl Gustav Jung, ainda no início do século XX, visitou uma tribo primitiva em uma de suas várias excursões de estudos, presenciou o pajé da tribo reunir toda a comunidade para que todos se interassem de um sonho de um determinado membro da tribo.


Questionado por Jung, o pajé revelou que existem os chamados grandes sonhos. Esses sonhos recebem esse nome por que, embora um dos membros da tribo tenha sido o sonhador, todos deverão sonhar o mesmo sonho, pois nele está contido um significado que será utilizado como fonte de cura para toda a comunidade.


Jung compreende que há sonhos onde a simbologia diz respeito à comunidade como um todo e não simplesmente a um de seus indivíduos. Essa verificação é corroborada pelas suas pesquisas junto aos pacientes portadores de psicose, por que estes pacientes através de seus delírios e fantasias, apresentam simbologias de caráter universal.


Assim, o sonho arquetípico é um sonho cuja simbologia é universal. Significando que todos aqueles que o ouvirem sentirão em seu íntimo que a sua representação possui um eco em sua própria psique. Por outro lado, o sonho arquetípico ou universal, cumpre assim com mais uma de suas funções, a função de inspirar o sonhador a se organizar e melhor utilizar sua energia psíquica em prol da vida cotidiana.

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O sonho que hoje apresento, foi pinçado dentre muitos outros sonhos desse mesmo porte que tive a oportunidade de conhecer através de meu trabalho em psicologia clínica.


A sonhadora é uma mulher de pouco mais de trinta anos e seu sonho, como disse o pajé, deverá ser sonhado por todos nós, por que apresenta uma solução para o bem estar na vida afetiva e principalmente, junto ao companheiro ou companheira. Trata-se de um sonho sobre Eros e do comprometimento amoroso.


No sonho, a sonhadora está caminhando por uma estrada de terra quando aborda um homem de bicicleta a fim de lhe perguntar onde poderia encontrar o seu namorado. Ela está ansiosa, tem medo de não chegar a tempo para esse encontro, pois desconhece o local e está procurando a esmo.
Para seu alívio, o rapaz na bicicleta não apenas sabe do local do encontro como também lhe aponta o lugar.
Ela olha nessa direção por ele apontada e vê uma igreja ou templo cuja abóbada está em chamas. O rapaz insiste em dizer que o encontro é nessa igreja ou templo.
Nossa sonhadora corre pra lá e encontrando as portas fechadas, bate e é atendida pelo próprio pastor ou padre que está realizando um casamento. Ela vê os noivos.
O líder espiritual lhe diz que o encontro fica atrás da igreja ou templo. Ela não sabe como chegar lá. O líder espiritual lhe mostra o caminho logo ali a sua direita: é uma espécie de corredor em forma de tobogã.
Ligeiramente, ela se vai por ali e cai atrás da igreja ou templo.
Pára e aprecia o que vê.
Um jardim, cuja relva orvalhada lhe parece encantadora. Está assim entretida e extasiada quando chega a esse jardim uma outra mulher.
A sonhadora se sente curiosa e a observa.
A mulher está vestindo um lindo vestido vermelho. Seu rosto é a expressão do prazer e ao tirar os sapatos também vermelhos, delicadamente mergulha seus pés na relva verde e orvalhada.
Não contente, se abaixa e acaricia com suas mãos esse doce terreno idílico. Depois, mansamente, se deita sobre a relva e num sensual movimento de rolar parece namorar a terra.
Nossa sonhadora sente também o prazer e sorrindo se aproxima do rosto da mulher ainda deitada e lhe pergunta se esta viu o seu namorado por ali, pois tem um encontro com ele e o aguarda.
A linda mulher de vermelho, sorrindo e com o olhar cheio de acolhimento, simplesmente lhe diz: "Antes de se encontrar com ele, você tem um encontro comigo!".


A sonhadora acorda nesse momento com uma sensação de grande bem estar.


Na seqüência apresento uma análise arquetípica desse sonho, lembrando que nesse tipo de análise, tudo e todos os personagens que se apresentam no sonho são partes do próprio sonhador, ou melhor, são conteúdos psíquicos ainda desconhecidos pelo ego ou quase desconhecidos.


Como esse sonho é universal não há nenhuma necessidade em se conhecer a vida pessoal do sujeito e nem mesmo de a expor. Outrossim, o sonho poderia ser de um homem que em nada mudaria a análise e interpretação, de modo que, seu conteúdo, é substancial tanto para homens quanto para mulheres.


A sonhadora que passo a chamar de M. caminha por uma estrada de terra. A estrada de terra representa um caminho livre da construção urbana, portanto, esse caminho é mais voltado àquilo que podemos chamar de construção natural.


Seu caminhar está seguindo um fluxo natural e primitivo quando encontra um homem de bicicleta e lhe pergunta sobre o seu encontro.


O homem de bicicleta é representação de seu animus, o aspecto convencionalmente masculino da psique feminina. Está em um veículo de locomoção individual, posto não ser coletivo. Isso significa que o seu aspecto masculino de ser ainda é bastante egoísta e serve a apenas a si mesmo, de maneira que sua ação, considerada masculina em nossa sociedade, possui um caráter individualista.


Esse animus sabe tem o conhecimento da informação que lhe foi prestada porque ele representa o conteúdo psíquico que faz o papel de guia para as ações da mulher. Se fosse um homem, estaríamos falando de seu duplo que também possui a mesma característica psíquica.


Quando uma mulher procura e espera por um encontro afetivo, sente ansiedade e geralmente faz uma busca a esmo. O seu aspecto masculino lhe chega através da razão e a torna mais objetiva em suas escolhas e caminhos.


O encontro a que almeja está marcado num templo ou igreja cuja abóbada se encontra em chamas.


O templo representa o corpo moral cristão de M., mais especificamente a abóbada representa a cabeça de M., ou seja, seus conceitos e pensamentos morais dados pela religião cristã, própria da civilização ocidental.


Assim, para que M. tenha seu encontro deverá acontecer uma queima, ou, uma transformação em sua maneira de pensar e em seus modos moralistas. Terá de rever os valores cristãos aos quais, até então, haveria se submetido.


Após investigação, atualização e transformação de conceitos espirituais, M. estará diante de um casamento realizado por mais um aspecto de seu animus. Um aspecto religioso que lhe guia para o tobogã, para o atrás da igreja.


O casamento é símbolo da união dos opostos. Significando que o sujeito possui suficiente energia psíquica para sair da dualidade e ir além do conceito maniqueísta da vida. Quando os opostos se unem, abre-se um leque de possibilidades, nuances de cores e de escolhas não mais reduzidas ao bem e mal, feio e bonito, branco e preto. O sujeito ganha visão caleidoscópia. Seu comportamento está aberto ao devir.


A sombra da igreja ou templo se encontra atrás dela/dele. Era hábito em toda cidadezinha, namorar atrás da igreja. Como a moral do templo espiritual é negar o corpo e seus prazeres, a sombra, o conteúdo escondido e negado pela consciência do ideal asceta é o prazer dos sentidos. Esta sombra do templo espiritual será encontrada por M. atrás da igreja.


O padre ou pastor lhe indica o caminho, portanto esse aspecto espiritual de seu animus, já passou pela transformação da união dos opostos. Trata-se de um aspecto do animus já transformado no processo do qual o próprio sonho deu notícia a partir do casamento dos opostos. O primeiro aspecto de animus apontou a direção, o segundo aspecto abriu as portas da igreja ou templo e mostrou como chegar lá.


O tobogã é símbolo de prazer, de gozo, de clímax sexual e da inocência do brincar.


M. só alcançará o local de seu encontro após se deixar, se permitir gozar, brincar inocentemente, ter prazer e de também sentir prazer no sexo vaginal, ou seja, quando for uma mulher orgástica.


Aí então, nesse local de relvas orvalhadas e que induz ao prazer, ela se encontra com seu aspecto feminino de vestido e sapatos vermelhos. Seu feminino mais apaixonado. Que lhe convida e lhe traz para a vermelhidão da vida. O sangue, a paixão, os sentidos despertos e energia de intensidade de vida. O seu duplo que, até agora soterrado na psique pelos velhos conceitos e pensamentos, lhe diminuíam a vivencia e lhe negavam as mais intensas experiências.


Antes de se encontrar com o seu namorado, antes de se encontrar com seu amante, seu companheiro, M. tem um encontro com essa mulher que se permite rolar na grama e disso obter prazer.


Uma mulher que ensina que a sexualidade não está somente no órgão sexual, está em todo o corpo e em tudo aquilo que dá prazer, até mesmo na simplicidade da contemplação.


A partir desse encontro com seu duplo, M. está pronta para se assumir como mulher em corpo vivo. Pronta para traçar e fazer seu caminho em salto alto vermelho. Assumir o próprio corpo sensível e se deliciar com ele. Simples assim, pois para essa mulher não é o comportamento eufórico e exagerado que traduz seu sentir.
Não tem necessidade de exagerar e nem de viver em euforia, simplesmente pratica a arte de acolher e tudo o que vem, vem bem, por que se deixa atravessar seja pela alegria, seja pela tristeza e luto. As paixões lhe atravessam e a modificam, enquanto os sentidos são preservados para um novo devir.


Esse sonho arquetípico, portanto de simbologia universal, nos diz que uma mulher só estará pronta para o romance quando tiver identificado e "vestido" sua própria mulher em vermelho. Sua capacidade orgástica tanto de vida quanto de sexo.


Esse sonho tem a capacidade de nos guiar, através de um processo doloroso de restauração e revalorização dos valores, para o encontro com o corpo sensível de modo a nos incitar a reconhecer a salutar dinâmica da pulsão de vida.


E para colaborar com o texto, o poeta local Vinicius Lima nos brinda com uma de suas belas poesias que até parece ter sido encomendada:


Os oceanos Purpúreos

A Lua gira
E expulsa de seu núcleo
Gotas de energia
Que inundam o céu
Como a lava de um vulcão
E cresce o vermelho
De dentro da fêmea
E expande o oxigênio
Ao redor da carne
E os planetas cicatrizam
Com o empuxo do sangue
A noite é uma caixa de ossos
Que armazena o masculino
E a mulher cospe a serpente
Que é a gênese do mundo


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