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A melodia percussiva de Dinho Nascimento - Divulgação/Agnaldo Rocha
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A melodia ritmica de Dinho Nascimento

31 dez 1969 às 21:33
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A mais remota influência que o ser humano tem de qualquer elemento percussivo ocorreu muito antes de batucar uma colher no prato ou bater palmas. Dentro da barriga da mãe, como um verdadeiro estúdio de experimentações, nós nos deparamos com melodias simples executadas pelos órgãos maternos; o bater do coração, o sangue que flui pelo cordão umbilical, a entrada e saída de ar nos pulmões e por aí segue.

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Há músicos e músicos. No caso do percussionista, cantor e compositor baiano Dinho Nascimento tem-se a nítida impressão de que o instrumento percussivo tornou-se melódico, orgânico, com vida própria, tanto em canções de sua autoria quanto nas releituras. O que pode ser comprovado no terceiro CD "Ser-Hum-Mano", lançado pelo selo Gente Boa e distribuído pela Tratore.

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Fusões musicais que passeiam livremente pelo coco, hip hop, samba-de-roda, soul, maracatu e techno foram harmoniosamente trabalhadas nas 13 faixas do álbum que conta com participações especiais de Osvaldinho da Cuíca, Marcos Suzano, Toninho Carrasqueira, DJ Cia e do rapper Sandrão (RZO). A direção musical é do próprio baiano – que atualmente está radicado em São Paulo – e de Aluá Nascimento. Para conferir um pouco mais das virtuoses do artista que fez uma audaciosa releitura do Hino Nacional Brasileiro tocada inteiramente no duo de berimbau e cuíca, leia os principais trechos da entrevista concedida à Musiqueira.



Comente a respeito da sua introdução no universo percussivo da música. A capoeira teve influência fundamental neste processo, não?


Fui introduzido no universo percussivo da música através das manifestações culturais tradicionais das festas de rua de Salvador (BA) tais como, sambas-de-roda, cheganças, folias de reis, puxadas-de-rede, carnaval, festas de São João, São Pedro e Santo Antônio... Nas festas familiares, minha avó chamava músicos para tocar. Nasci no meio da música e da dança, ouvindo badalar de sinos e tambores de terreiros. Ouvindo mercadores cantando para atrair a freguesia e lavadeiras que lavavam suas roupas entoando suas cantigas. Um prato e uma faca eram suficientes para tocar um samba. E neste burburinho, no meio da rua ou da praça, também aconteciam rodas-de-capoeira com seus berimbaus. Com 13 anos, meu avô trouxe para casa um pianinho de brinquedo - meu primeiro instrumento melódico. Logo depois, comecei a estudar piano com uma professora que morava na mesma rua. Com 15 anos prestei concurso e fui selecionado para estudar no Seminário Livre de Música da Universidade Federal da Bahia; depois de quatro anos, resolvi prosseguir apenas com a percussão popular. Conheci outros músicos, formamos um grupo chamado Arembepe e em 1973 resolvemos deixar Salvador e ir atrás de novos horizontes musicais.

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E sobre a criação de novas instrumentações e formas de lidar com o berimbau, por exemplo, surgiu como? Aqui entram o berimbum (berimbau com corda de baixo) e a utilização de um copo para tocar blues com o berimbau.


Um percussionista está sempre experimentando o som de tudo o que encontra, criando peneiras com pregos, chaves e bambus, utilizando a bandeja do garçom, construindo seu reco-reco de chifre, girando um conduíte.... Em 1970 já havia eletrificado o berimbau, acoplando um captador a sua cabaça. Em 1979, já em São Paulo, quando musicava uma coreografia para a dançarina labanista Maria Duschenes, acidentalmente comecei a utilizar um copo encostado e escorregando na corda, como fazem os bluesman o efeito de "slide" em suas guitarras. Assim nasceu Berimbau Blues. Mais tarde, talvez em 1990, ganhei uma cabaça que era muito grande e logo fiquei curioso em saber como seria tocar um berimbau com um som mais grave; meu amigo Otávio Jr, excelente físico, artesão e músico, viajou comigo nesta idéia e assim surgiu o primeiro Berimbum com corda de contra-baixo (e uma baqueta especialmente desenvolvida para não ferir o aço da corda). Mais recentemente, talvez 2006, conheci os berimbaus ecológicos produzidos por mestre Élio Moreira e, do nosso encontro foi concebido o Berimbum Ecológico que muitas vezes toco com um arco-de-violoncelo. Tenho também o berim-lata (uma lata no lugar da cabaça) que tenho tocado com arco de violino como se fosse uma rabeca.


Em seu último trabalho, "Ser-Hum-Mano", um coral de crianças do Morro do Querosene (SP) participa da gravação de duas faixas, que denota parte do resultado de suas ações sócio-culturais. Comente, em breves palavras, o que você encontrou logo que assumiu este projeto e a nova realidade com a música inserida no cotidiano destas crianças.


Vir morar no Morro do Querosene foi muito bom: o convívio social é natural e intenso, as pessoas se cumprimentam e conversam pelas ruas, as crianças brincando lembram minha infância... Elas são um público muito verdadeiro, se não gostam logo expressam. Muitas vezes, os jovens e crianças ficam a toa, sem qualquer direção, os adultos ocupados com sua sobrevivência. A música reúne, distrai, disciplina. Comecei a levar o berimbau para a pracinha do morro e, enquanto tocava, alguns brincavam de jogar capoeira. Aos poucos foi se criando uma roda... Aliás, o Morro do Querosene é um lugar de muitos encontros e festas. É onde acontece o "Bumba-Meu-Boi" trazido por colegas maranhenses. Levar as crianças para cantar no meu mais recente CD foi apenas uma continuidade destas ações. E foi muito prazeroso.


Quais são os projetos futuros? Parece-me que você vai seguir para o nordeste na próxima semana?


Projetos, temos muitos. Gravar a Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene é um sonho muito almejado. Sou coordenador artístico do projeto social e cultural Treme-Terra que recebe o apoio da Petrobras. Além de vários cursos e oficinas para a comunidade, realizamos o Forró do Lampeão, um evento mensal. Participo também do Sarau do Querô, realização da Associação Cultural da Comunidade do Morro do Querosene com apoio da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Estamos mesmo precisando desligar e descansar um pouquinho, eu e minha mulher. Foi assim que surgiu a idéia desta viagem. E já que estamos indo, vamos aproveitar para encontrar outros músicos e conhecer alguns projetos culturais. Na verdade não vamos apenas para o nordeste, primeiro vamos para a região amazônica (Manaus, Belém e São Luís do Maranhão). Em Belém e São Luís nunca estivemos antes, então, certamente vamos rever nossos conceitos, ganhar experiência e trazer muitas novidades.

Vá de berimbaus, vozes e tambores:
www.myspace.com/dinhonascimento


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