''Mãe que maltrata os filhos, pouco carinhosa, que traz dissabores e tristezas''. Esta é a definição que o dicionário Michaelis traz para o termo madrasta - uma lição que Renato (Gabriel Sequeira), o enteado problemático da novela ''Duas Caras'', da TV Globo, aprendeu na prática. Silvia (Alinne Moraes), que até já tentou matar o garoto afogado, tem personificado a imagem da mulher perversa que enfeitiçava maridos nos contos de fadas.
No Brasil real, povoado por 11 milhões de descasados, ex-casais, filhos e novos companheiros de pai e mãe se esforçam para equilibrar a complicada equação que transforma o triângulo familiar em um quadrado nem sempre harmônico. Quando o assunto é a relação entre enteados e madrastras quase sempre há uma forte carga emocional que envolve a questão.
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De acordo com a última sondagem do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 61,9% das separações judiciais acordadas em 2003 envolviam filhos menores de 18 anos. Não é à toa que psicólogos, especialistas e escritores têm discutido intensamente a inclusão dessas crianças na arquitetura multinuclear da nova família, marcada por pais e mães que se casam novamente e agregaram outras figuras ao lar original.
''Meu sonho é ver a personagem Silvia sentada no sofá, lendo o meu livro'', brinca a terapeuta familiar Roberta Palermo, autora da obra ''100% Madrasta - Quebrando as barreiras do preconceito''. ''A novela mostra apenas o mau exemplo que a madrasta está dando em cena, mas não apresenta soluções para os conflitos naturais que a relação com os enteados pode provocar'', completa.
Presidente da Associação das Madrastas e Enteados, Roberta discute o assunto pela segunda vez. Em 2002 publicou ''Madrasta: Quando o homem da sua vida já tem filhos''. ''Como vivi a experiência de madrasta dos dois lados pude criar uma boa visão do assunto. Tive uma madrasta quando era criança e hoje sou madrasta de Tiago e Júlia, de 17 e 13 anos.''
Doutora em psicologia clínica pela PUC (Pontifícia Universidade Católica)e especialista em terapia de família, Maria Luiza Puglisi Munhoz diz que os conflitos entre enteados, madrastas e maridos nascem de ciclos de insegurança: o filho tem medo de perder espaço junto ao pai, a madrasta vê a criança como ameaça pelo vínculo que ela representa com a ex-mulher e o pai sente-se culpado por já não estar plenamente presente na vida do filho. ''Sentimentos mal resolvidos geram instabilidade. Se cada pessoa procura resolver sua própria insegurança ao invés de depositá-la no outro, a situação fica menos complicada'', garante.
Maria Luíza, autora da obra ''Casamento: rupturas ou continuidade dos modelos familiares'', acredita que as madrastas têm em mãos um trunfo poderoso. ''A segunda mulher geralmente é mais jovem, estará mais próxima da idade do filho, facilitando a identificação. Ela conhecerá as músicas que a criança gosta, estará por dentro das novidades. Deve demonstrar uma disposição interna para gostar da criança, mas isso não pode soar falso.''
Na opinião do médico Fabiano Hueb, que acaba de lançar o livro ''Filhos de pais separados também podem ser felizes'', a harmonia entre os filhos do primeiro casamento e a madrasta depende do grau de amizade e respeito que o casal separado consegue manter. ''É preciso deixar claro para as crianças que a madrasta não vai substituir a mãe, será uma amiga'', diz.