O setor de bares e casas noturnas vive uma das transformações mais profundas de sua história recente. Depois da pandemia, o hábito de consumir bebidas e entretenimento dentro de casa ganhou força entre os brasileiros, e estabelecimentos que dependem do público na rua passaram a disputar espaço com concorrentes que antes não faziam parte do radar: o varejo e as plataformas de streaming.
A mudança alterou a lógica de funcionamento do mercado. Se antes a principal decisão do consumidor era escolher para qual bar ir, hoje a primeira decisão é se vale a pena sair de casa. Horários mais cedo, eventos diurnos e experiências voltadas a públicos diversos passaram a fazer parte da estratégia de quem busca manter a operação sustentável.
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Em Manaus, o setor de eventos ficou cerca de 720 dias sem funcionar normalmente durante a pandemia. Diversas casas do segmento encerraram as atividades no período. Entre os estabelecimentos que atravessaram a crise está o Porão do Alemão, casa de rock e música ao vivo fundada em 1998 pelo empresário William Robert Lauschner.
Durante o fechamento, a casa adotou duas frentes de atuação. A primeira foi usar a estrutura de palco e som já existente para transmitir apresentações ao vivo de bandas independentes, com a arrecadação revertida aos próprios músicos. A segunda foi manter a marca presente na rotina do público, com delivery, ações nas redes sociais e uma celebração virtual de aniversário que reuniu depoimentos em vídeo de artistas que já haviam tocado na casa.
"As bandas pequenas não tinham espaço nem estrutura para fazer live. Como a gente tinha tudo pronto, abrimos o palco para elas", conta William. Segundo ele, a iniciativa também cumpria um papel estratégico: "Uma casa de show não tem como ficar na memória das pessoas por dois anos sem nada".
No período, outros empresários do setor passaram a procurar William em busca de orientação sobre como manter seus negócios durante as restrições.
A reabertura, no entanto, revelou um mercado diferente. O público jovem passou a sair menos, e quem continuava frequentando a noite preferia voltar mais cedo para casa. Na avaliação do empresário, o consumidor passou a comparar o preço da bebida no bar não com outros estabelecimentos, mas com o valor cobrado no supermercado. "Antes, sair de casa era para tomar uma cerveja. Hoje eu preciso convencer o cliente a sair de casa", afirma.
Para responder a esse cenário, o Porão antecipou horários: a última banda, que antes subia ao palco por volta das três e meia da manhã, hoje se apresenta por volta da meia-noite e meia. A casa também ampliou o público para além do rock, com eventos de cultura regional e o Porão Kids, realizado a cada dois meses, cuja última edição reuniu cerca de 150 crianças. Em 2026, o empresário reabriu o restaurante do complexo, voltado ao almoço diário do comércio do entorno.
A capacidade de mobilizar público também chamou a atenção da indústria. O Porão foi escolhido pela Ambev para o lançamento da cerveja Budweiser em Manaus e se tornou um dos principais pontos de venda da marca na região.
Representantes do setor avaliam que a sobrevivência de bares e casas de shows dependerá cada vez mais da capacidade de oferecer experiências que não podem ser reproduzidas em casa, como música ao vivo, convivência e programação renovada com frequência.
Entre a crise sanitária, a mudança no comportamento do consumidor e quase três décadas de operação, William Robert Lauschner transformou a adaptação constante em parte da rotina de gestão do Porão do Alemão.