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Série atualiza e expande Carrie em terror colegial para nova geração de fãs

Claudio Yuge
25 out 2026 às 17:20

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Foto: Reprodução/Amazon Prime Video
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Carrie, a Estranha, tem um dos enredos mais conhecidos da literatura, do cinema e da cultura pop em geral, principalmente porque dialoga facilmente com adolescentes que estão se tornando jovens adultos: bullying, repressão social, fanatismo religioso e relacionamentos tóxicos entre os próprios familiares são assuntos que despertam sentimentos dolorosos em qualquer um nessa idade. 


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E, felizmente, a nova adaptação em forma de seriado no streaming do Amazon Prime Video não somente revitaliza com sucesso como também expande a trama original. O título, embora carregue desde sua gênese várias questões onipresentes em redes sociais e comunidades digitais tóxicas, não é fácil de transformar em uma série tão magnética. São oito episódios de pouco mais de 40 minutos, em uma jornada irresistível, cheia de subtextos envernizados pela paranoia e desconstrução de mitos.



Bem, é preciso lembrar que, embora os temas sejam atemporais, conectá-los com o público atual é um desafio e tanto — basta se lembrar do fiasco vergonhoso A Maldição de Carrie, de 1999, ou do esquecível remake de 2013; ambos irritam de ruim.


A trajetória de Carrie começa um pouco antes de seu nascimento, no final dos anos 1960, quando a contracultura apedrejava tabus, dogmas e convenções sociais já bem ultrapassadas. Nesse contexto, O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski; e O Exorcista (1973), de William Friedkin pavimentaram uma nova casta no nicho de terror, que passou refletir uma perturbada ambientação de uma época cercada de paranóia da crescente Guerra Fria e a ascensão de serial killers e uma violência sem precedentes nas ruas dos Estados Unidos.


Carrie, a Estranha, dirigido por Brian De Palma, consolidou um tipo de horror que vai aos poucos devorando seus medos nos cantinhos mais sombrios da culpa e dos relacionamentos destrutivos escondidos sob o tapete da maioria das “casas de família” dos Estados Unidos em seu momento mais cínico.


Talvez tenha sido a primeira vez que o público nutriu mais empatia com a “vilã” que nasceu da própria decadência social suburbana estadunidense — muita gente se sentiu representado ao ver a menina pura se tornando uma aterradora força da natureza capaz de aniquilar e incendiar uma cidade inteira em um delicioso espetáculo gore.


Sissy Spacek no papel da Carrie original (Foto: Reprodução/United Artists)


A imagem de Carrie banhada de sangue em um vestido branco foi precisamente construída para representar a violação e a corrupção da pureza. O lares ianques insistiam em parecer famílias perfeitas do American Way of Life, que, na verdade, estava em pleno processo de decomposição. Isso se tornou uma peça iconográfica da cultura pop e catapultou o nome de um então desconhecido Stephen King aos mais altos corredores de Hollywood e abriu caminho para Christine, o Carro Assassino, de 1978.


Sissy Spacek e Piper Laurie, Carrie White e Margaret White, mãe e filha no filme, tiveram suas brilhantes e perturbadoras atuações indicadas ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Até hoje as cenas do banho de sangue no Baile de Formatura são lembradas como uma das mais poderosas da história da Sétima Arte — a ponto de ser quase impossível dissociar as imagens do filme à descrição original do livro.


Tá, a série da Amazon? Então, é uma excelente introdução ao mundo de Carrie e Stephen King, e mais: é uma ótima maneira de revisitar esse clássico e explorar cantos nunca aprofundados na história original. Veja abaixo as razões disso.


Carrie abraça todos os personagens


Talvez você não se lembre imediatamente do nome Mike Flanagan, contudo, se é fã de séries e filmes, com certeza já assistiu alguma obra do atual cineasta queridinho de Hollywood. Ainda que seu início de carreira de diretor, roteirista e editor tenha sido com uns filmes cafonas e baixa-renda no início dos anos 2000, ali ele já chamava a atenção por conta de uma habilidade que está em seu auge atualmente.


Mike é muito antenado com o que acontece por aí, e sempre tem conseguido conectar as dores do mundo moderno a estereótipos clássicos que vão se descascando em várias camadas interessantes e fáceis de se relacionar com o público. Ele faz isso guiando sua narrativa por meio de diferentes caminhos com pavimentos muito bem construídos em seus personagens.


Chris, a cretina, e Sue, a amiga consciente (Foto: Reprodução/Amazon Prime Video)


Ele eleva uma das principais regras dos melhores roteiristas a um nível superior. Mike é generoso com todos os personagens, e não somente os de núcleo central. Nenhum dos coadjuvantes, e nem mesmo o menos relevante deixa de ter a mesma dedicação em seu comportamento, jornadas e motivações. Ninguém está ali à toa ou sendo usado de maneira descartável.


E, por isso mesmo, a sinergia e o talento do elenco é tão importante. A Maldição da Mansão Bly, Doutor Sono, A Maldição da Residência Hill, A Queda da Casa de Usher e Cara de Barro, vilão do Batman que tem tido seu filme elogiado até nos cantinhos mais exigentes da indústria, têm essa característica citada acima: todos os personagens nos cativam e nos conecta de maneira que os protagonistas, antagonistas e elenco de apoio oferecem cada minuto do tempo de tela em uma experiência fácil de digerir.


As personagens são muito bem construídas


Carrie (Summer H. Howell) e sua mãe Margareth (Samantha Sloyan) aqui aparecem muito mais tridimensionais, porque, mesmo com suas “estranhezas”, podem ser encontradas perfeitamente em algum bairro ou grupo de amigos. A inserção de ambas em uma comunidade tão pequena e tradicional não soa assim tão fictícia nos tempos atuais.


A maior rival de Carrie em todas as encarnações anteriores, a patricinha mimada Chris Hargensen (Alison Thornton), na série, também deixa de ser apenas uma cretina invejosa para ter mais razões de ter se tornado tão arrogante e egoísta. Sua imagem de “gata popular” vai caindo aos pedaços conforme vemos que todas necessidades afetivas e familiares, principalmente nos momentos em que ela mais precisa de ajuda, são negligenciadas ou deixadas de lado. 


Isso escala a um ponto que se torna um elemento essencial na narrativa de mudança de comportamento de Carrie. Todas as oportunidades que Chris tem para se aceitar e recomeçar são jogadas fora por uma negação e prepotência infantil, mostrada de uma forma que realmente acontece com você, algum amigo, conhecido ou parente. E esse constante desprezo esnobe vai apertando um gatilho importante para que a mudança de Carrie também seja verossímil — guarde essa informação ali embaixo no final já explico.     

                                              

Amor e ódio de mãe e filha (Foto: Reprodução/Amazon Prime Video)


As narrativas menores que ajudam a construir a comunidade, o colégio e os lares de cada tipo de família é habitado por personagens que têm sonhos, limitações e reações verossímeis o suficiente para fazermos parte do cotidiano dessa cidade. E isso é importante, porque, se torcemos para a “vilã” matar todo mundo, temos que amar e odiar os habitantes dela.


Até mesmo os núcleos menores que trazem entrelinhas de uma realidade sensível atualmente agregam valor à entrega final: a exemplo do caso da professora de Educação Física, a Srta. Collins (Amber Midthunder), e do colega de trabalho Harold Allison (Rahul Kohli), que abordam, em algum momento, temas muito delicados e importantes, como suicídio e pedofilia.


E, de quebra, a série também traz veteranos como Tim Bagley, visto como apoio em várias séries dos anos 1990 e 2000, e Matthew Lillard, o eterno Salsicha e fanfarrão de filmes com “piadas de pinto” nos anos 1990.


Vale a pena? Vai ter segunda temporada?


A produção é de nível acima da média, com fotografia, filtros e textura que remetem a uma certa ambientação retrô, embora o enredo tenha sido adaptado aos tempos modernos de redes sociais. Não tem nada assim muito sofisticado e até tem uns cenários que não parecem fazer parte de uma mesma cidade com uma mapa coerente.


Mas isso, assim como os toscos efeitos especiais e o ator e a história bocejante do pai da Carrie, não chegam a tirar a tinta dessa revitalização bem-sucedida. Aliás, a série traz um extra interessante, que corre como “história de fundo” ao longo dos capítulos e também se conecta com uma misteriosa amiga, e uns personagens sem nome que também parecem inacabados.


A doce, ingênua e sempre gentil Carrie não se torna uma força sobrenatural assassina que destroça professores e colegas de classe inocentes em saco de sangue e osso do dia para a noite. A subtrama salpica algumas conexões sobre os mitos de bruxas, assim como fatos envolvendo telecinese e pessoas realizando atividades nunca explicadas. E ainda adiciona o tema doenças mentais, como esquizofrenia.



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Isso tudo ajuda a tornar a “conversão” mais plausível, da Carrie frágil e jeca, na demônia açougueira que transforma a cidade em uma piscina de polenta e sangue. As provocações paralelas também estão conectadas a uma paranoia conspiratória deixada como gancho, e que deve aparecer na segunda temporada, confirmada recentemente.

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