Lanternas, série da HBO MAX que deveria adaptar a mitologia dos maiores heróis cósmicos dos quadrinhos, os Lanternas Verdes, foi um sucesso como uma razoável série de mistério, mas falhou miseravelmente como adaptação das HQs para o Universo Cinematográfico DC (DCU). Abaixo explico como o que deveria ser um dos pilares de heroísmo e ficção científica desse universo compartilhado foi tecnicamente executado de forma interessante, e, criativamente, de maneira muito cretina.
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Para explicar isso direito, primeiro vou contextualizar como essa produção nasceu e foi desenvolvida, e, em seguida, dedicar um tópico para comentar por que muita gente gostou o suficiente a audiência garantir uma segunda temporada; e quais os pontos que tornaram a adaptação na pior representação possível dos Lanternas Verdes fora dos quadrinhos.
Bem, embora Hal Jordan, o principal Lanterna Verde da DC Comics, tenha passado por um período vilanesco nos anos 1990, seu renascimento com a revisão da mitologia realizada por Geoff Johns em meados de 2000 fez tanto sucesso que a franquia se tornou a mais vendida nos quadrinhos por alguns anos — tornou-se um dos carros-chefe da editora, à altura de Batman e Superman na época.
Por essa razão é que a Warner Bros. escolheu o Lanterna Verde para sua primeira adaptação de um universo compartilhado para rivalizar com a Marvel Studios em 2008. Contudo, a empresa centenária produz e lança muita coisa por temporada, com profissionais contratados fixos — bem diferente de um estúdio que escolhe profissionais a dedo, com o desenvolvimento ajustado a cada talento e ideia, a exemplo de como a Marvel Studios fazia no começo.
Enquanto a Marvel Studios já entendia que o cinema deve misturar gêneros, assim como nos quadrinhos, criando sua própria categoria na Sétima Arte, a Warner ainda estava presa a fórmulas clássicas. E, assim como a Sony Pictures e a Fox Films tentavam encaixar filmes do Homem-Aranha e X-Men em “ficção científica”, “aventura”, e outras fileiras com suas narrativas que não dialogam com os quadrinhos, a Warner também pecou nisso com o Lanterna Verde de Ryan Reynolds.
Geoff Johns, que estava na Warner como responsável pelo embrião do DC Studios, não tinha a mesma força nos corredores de Hollywood. E, então, depois que Zack Snyder também falhou na construção do universo compartilhado e em um estúdio independente que entendia melhor os quadrinhos, o produtor Walter Hamada assumiu, já entre meados e final dos anos 2010, a coordenação dessa frente.
E foi aí que a ideia de uma série dos Lanternas Verdes veio à tona novamente, com um projeto que valorizava toda a mitologia, de forma cronológica, desde os primeiros heróis da franquia, até os mais recentes. O desenvolvimento foi longo, mas, em dado momento, já nos anos 2020, o elenco chegou a ser contratado e o roteiro aprovado, assim como o orçamento.
Mas… a Time-Warner na época foi negociada com o grupo Discovery, que, vem desde então mudando de donos até recentemente, quando se tornou Skydance, após a aquisição da Paramount. E foi nesses bastidores turbulentos, de mudança de direção e demissões em massa, que James Gunn assumiu o controle criativo do DC Studios e jogou fora o que Hamada tinha alinhado, para criar uma nova versão da adaptação para a HBO Max.
E, embora Gunn tenha controle criativo, ele precisa também alinhar seu lado corporativo com as exigências da HBO e dos contratos e concessões assinados pelo diretor-executivo da DC Studios, Peter Safran. E foi aí que, provavelmente, os conceitos que tornaram os Lanternas Verdes tão amados pelos fãs acabaram se diluindo em uma equipe de roteiristas sem consistência e liderança.
Os acertos de Lanternas no “padrão HBO”
Todo mundo sabe que a régua técnica da HBO é alta, com um padrão superior de edição de imagens e som, elenco, direção e narrativa. É uma produtora que gosta de arriscar com decisões ousadas, mas que só consegue fazer isso porque tem uma fórmula segura de desenvolvimento de suas séries e filmes.
Embora Lanternas tivesse um orçamento de US$ 200 milhões, que não é pouco para streaming, boa parte disso foi destinado aos profissionais e ao método “seguro” de desenvolvimento. Fica evidente notar como isso afetou a sala de roteiristas e as decisões tomadas para transformar a adaptação, primordialmente, em um “produto HBO” vendável — isso vem acima de fidelidade ou questões criativas conceitualmente alinhadas aos quadrinhos originais.
Uma adaptação deve mudar coisas e converter conceitos para que tudo funcione em uma narrativa audiovisual. E isso foi realizado, acima de tudo, graças ao rigor técnico. A fotografia, ambientação, narrativa de cada capítulo, edição, direção, e a própria atuação de Kyle Chandler e Aaron Pierre com Hal Jordan e John Stewart, respectivamente, são acima da média — faz parte da “margem de segurança” de um produto vendável da HBO.
Em relação ao enredo, dá para notar que Damon Lindelof foi quem gerou o estilo de linguagem capaz de trazer os quadrinhos para a TV com uma ambientação instigante à maneira True Detective. E Tom King, especialista no aprofundamento dramático da vida pessoal de personagens de quadrinhos, mostra-se presente nas complexas questões familiares e na cáustica dinâmica “tutor-aprendiz” entre Hal Jordan e John Stewart.
Essa forma de contar histórias agradou o público geral, principalmente quem nem liga para os quadrinhos, porque usa um mistério apenas como ignição para mostrar a jornada de compreensão e conexão entre os personagens e seus conflitos internos, externos e interpessoais.
Mas… os fãs dos Lanternas Verdes, embora gostem de dramas familiares e existenciais, querem, acima de tudo, ver seus personagens favoritos sendo representados de forma coerente e conceitualmente conectados à obra original. O problema é que as mudanças deturparam até mesmo o que significa ser um herói e o núcleo básico da mitologia e das próprias criaturas que são reconhecidas por características únicas sendo mostradas mensalmente nas bancas desde 1960.
Os maiores erros em Lanternas
O método de produção da HBO é sustentável e eficiente porque tem uma inegociável execução do trabalho. E, embora James Gunn tenha o controle criativo, ele não pode mudar a maneira como a empresa realiza o cronograma com um método já calcificado. Depois de decidido sobre o que seria a série e de onde sairia até que lugar chegaria a partir da jornada delineada por Lindelof e King, a empresa usa seus profissionais para concluir tudo à sua maneira de fabricar seus produtos de sucesso.
A HBO consome muita grana e tempo em pré e pós produção, para deixar tudo redondinho, e usa roteiristas secundários de sua escolha e confiança para transformar o que foi decidido inicialmente em um desenvolvimento mais detalhado, capítulo a capítulo. O que Gunn acertou com Lindelof e King como base da série foi destrinchado em minutos de diálogos, cenas, sequências de ação e particularidades a partir dos textos de Justin Britt-Gibson, Breannah Gibson e Vanessa Baden Kelly.
E aí que o diálogo entre a série e os quadrinhos acabou e a representação do cantinho cósmico e do heroísmo que os Lanternas Verdes deveriam ao DCU foi por água abaixo. Tudo isso que falo está evidente nos extras de bastidores com entrevistas dos próprios roteiristas. Fica óbvio que esse trio nunca realmente leu nada dos quadrinhos, e se basearam nas anotações de King e Lindelof.
Hal Jordan, o maior Lanterna Verde de todos os tempos, foi retratado como misógino, decadente, cretino, invejoso, fracassado e racista. A série o usa e descarta da forma mais desrespeitosa possível, matando-o no primeiro episódio de maneira desprezível já no primeiro capítulo. Ele é humilhado, castigado e ridicularizado incontáveis vezes, até mesmo tendo seu túmulo violado.
John Stewart aparece com uma família com traços de psicopatia, e sua jornada nada a tem a ver com heroísmo. Tudo não passa de uma obsessão que se torna uma “vingança social” panfletária baseada em uma “meta familiar de sucesso”. Ele tem suas atitudes completamente baseadas em uma bússola moral deturpada e perturbada.
Além de desvalorizar a vida de Hal sem se importar em punir a assassina do colega de Tropa, ele ajuda os Caçadores Cósmicos, os maiores inimigos da vida no universo. Ele tortura o vilão Sinestro e o deixa livre em um planeta que tem todos os ingredientes necessários para a criação de uma força maligna devastadora.
Para completar, ele rouba o anel energético de Hal violando o cadáver do tutor e usa uma bateria energética clandestina contaminada pelo medo. Desrespeita o atual Lanterna Verde oficial da Terra, Guy Gardner, de forma gratuita, e, mesmo sem nenhum ato heróico, diz que será o Lanterna Verde da Terra, criando um juramento próprio de maneira narcisista — isso tudo depois de ter transado com uma mulher casada, que se revelou Caçadora Cósmica, e que foi assassinada com um tiro de fuzil na testa pelo próprio Stewart.
E, como a HBO gastou quase tudo da grana na parte técnica “de segurança”, pouco sobrou para efeitos especiais que poderiam amenizar a baixa fidelidade com a representação de elementos de fantasia e ficção dos quadrinhos.
Bem, acho que agora dá para entender melhor a razão de muita gente ter gostado da série e de os leitores dos Lanternas Verdes terem odiado, né? Se quiser curtir de verdade os Gladiadores Esmeralda, a melhor opção mesmo é ver o subestimado Green Lantern Animated ou parar de ser preguiçoso e realmente ler as HQs.