Aqui mesmo neste portal, comentei há algumas semanas, na crítica do episódio de abertura de Lanternas, que a série teve um ótimo começo promissor, com muita coisa interessante que poderia dar certo. Contudo, a série da HBO Max que adapta a mitologia dos quadrinhos da DC Comics dos Lanternas Verdes no novo Universo Cinematográfico DC (DCU), derrapou no terceiro episódio, exibido no domingo do dia 30 de agosto.
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Embora eu seja fã de longa data e Hal Jordan seja meu personagem preferido dos quadrinhos, há muito mais em jogo para que eu faça essa crítica antes do quarto episódio deste domingo de 6 de setembro. A direção que o terceiro episódio da semana anterior aponta traça uma versão que vai além de uma liberdade criativa de adaptação, pois descaracteriza elementos fundamentais da franquia da DC Comics.
Isso é preocupante porque, até então, embora o baixo orçamento e as escolhas mais “pé no chão” sem elementos cósmicos, tudo tinha sido muito fiel aos quadrinhos e trazia coisas capazes de estruturar a base sci-fi do DCU de maneira espetacular.
Mas o que aconteceu de tão bosta nesse terceiro episódio a ponto de eu vir reclamar? Bem, leve em consideração que ainda espero que tudo seja ótimo, então listo de forma bem honesta e fundamentada não somente nos quadrinhos, mas também na própria lógica de desenvolvimento de um bom roteiro de atração audiovisual desse nicho.
Como alguém se torna um Lanterna Verde?
Antes de tudo, é preciso lembrar de como alguém é convocado para ser um Lanterna Verde. É importante contextualizar isso porque faz parte do centro da discussão. Embora muita coisa tenha mudado com atualizações constantes, o “chamado” para fazer parte da Tropa é uma das únicas “diretrizes sagradas” desde os anos 1960.
Um Lanterna Verde é escolhido pela sua capacidade de superar o medo, e isso tem a ver com sua força de vontade. Não é sobre ser destemido. É sobre saber que pode falhar, ou até que há mínimas chances de sucesso, e, ainda assim, tentar. Enfrentar uma batalha perdida, mesmo sabendo que a vitória é quase um milagre.
Essa determinação é que faz alguém ser escolhido como um Lanterna Verde. É uma capacidade mental poderosa que, mesmo sentindo medo, você é capaz de enfrentar, sem dúvida alguma. Sua fé, caráter, riqueza de espírito e convicção, canalizam toda sua força de vontade na forma de coragem, pelo simples fato de sentir o mesmo medo que todo mundo, mas enfrentar.
Não é sobre apenas ser destemido. O medo paralisa as ações que a força de vontade destrói. E, neste quesito, Hal Jordan, mesmo com todos seus problemas de teimosia e indisciplina, torna-se o maior de todos o Lanternas Verdes — veja bem, ele viu o pai morrer em um acidente de avião na sua frente quando era criança e decidiu ser piloto justamente para enfrentar seu maior trauma.
Por que há outros Lanternas Verdes humanos?
Vamos focar aqui em John Stewart e apenas explicar resumidamente Guy Gardner e Kyle Rayner. Embora as origens desses Lanternas sempre tenham sido mais rasas e alteradas ao longo dos anos, há elementos suficientes para definir esses três principais companheiros humanos de Hal Jordan na Tropa dos Lanternas Verdes.
A própria DC Comics admite que há décadas que há um problema para explicar a razão de tantos humanos na Tropa dos Lanternas, pois, nas diretrizes oficiais dos Guardiões do Universo, cada setor deve ter no máximo dois patrulheiros. Ao longo do tempo, a justificativa tem sido pelo fato de a vida no Universo DC ter começado na Terra, então, nossa raça acaba sendo mais capaz de dominar o Espectro Emocional — portanto, são mais hábeis em diferentes formas de uso da força de vontade.
John Stewart tem um passado social e familiar problemático. Personagem negro criado nos anos 1970, ele é militar e arquiteto, com uma criação severa e exigências disciplinares que contradizem a forma que sempre foi tratado. Como é ser um policial espacial sendo tratado de forma “diferenciada” pelas autoridades do bairro e pelos colegas de faculdade por conta de sua cor de pele, conta bancária e alinhamento aos padrões do “Sonho Americano”?
Essa é uma questão que evoluiu com o personagem ao longo do tempo. Foi justamente pelo fato de ele saber os limites de abuso de poder e disciplina que se tornou um grande líder e foi escolhido para ser um Lanterna Verde — Hal, por exemplo, não é ponderado ou estratégico como John. Contudo, John, por conta de sua dificuldade de enxergar “tons de cinza” no preto e branco, já destruiu dois planetas com milhares de vidas — uma culpa que o assombra constantemente.
Se Hal é incapaz de ser um líder nato e inquieto para ficar na Terra, John acaba sendo tão requisitado, tanto na Tropa do Lanternas Verdes quanto na Liga da Justiça. Lacunas se abriram em problemas envolvendo nosso planeta, um mundo protagonista de muita treta no Universo DC.
Guy Gardner tem um preocupante comportamento narcisista, mas sua força de vontade bruta, aliada à lealdade extrema aos companheiros de equipe e à missão atribuída, fazem dele um dos mais queridos aliados dentro da corporação. Todos respeitam John e temem ou odeiam Hal; e Guy é o cara que os colegas de trabalho adoram. Ele nunca deixa ninguém para trás.
Já Kyle Rayner é o cara que todo mundo gosta. É o único capaz de reunir toda a Tropa dos Lanternas, porque seu coração e força de vontade reconstruiu a corporação do zero quando Hal a destruiu ao se tornar um vilão.
Mudanças que estávamos aceitando em Lanternas
Ok, depois de revisitar a razão de cada um ter seu próprio anel, voltamos à série Lanternas. Até então, vimos algumas das características no Hal Jordan de Kyle Chandler e do John Stewart do Aaron Pierre na dramatização “pé no chão” da série Lanternas — praticamente sem nada de sci-fi caracterizado nos efeitos espaciais.
Ok, Hal Jordan nunca foi um o cara mais “bonzinho” ou “gente boa” que você poderia conhecer, mas ele nunca foi tão babaca e escroto quanto vinha sendo — mas ainda havia a desculpa de ele estar cedendo sua força de vontade para o medo, na jornada que também o tornou um vilão nos quadrinhos.
John nunca foi tão passivo e, embora sempre tenha tido diferenças com Hal, jamais foi um antagonista que conquistou fãs por escalar sua glória, depreciando o comportamento de um colega de equipe — como a narrativa insiste em recorrer.
E há algo ainda mais preocupante nessa caracterização, sobre o medo, que é algo importante na formação de um Lanterna Verde e sempre foi citado desde o início da atração. Mas… cadê a explicação sobre a força de vontade? Isso já incomodava um pouco os fãs mais veteranos no começo e ficou mais sério no episódio três de Lanternas.
Mudanças questionáveis na série Lanternas
** ATENÇÃO, A PARTIR DESTE TRECHO HÁ SPOILERS SOBRE O TERCEIRO EPISÓDIOS DE LANTERNAS **
Bem, no terceiro episódio de Lanternas, vemos como John Stewart foi recrutado para ser um Lanterna Verde. A série mostra que, na verdade, o pai dele foi o escolhido para ser o próximo protetor do Setor 2814 (o da Terra), mas… a atração inclui um forçado fator racial ao enredo.
O pai de John não passa no teste de “medo” porque é um homem preto nos Estados Unidos que, resumidamente, é abordado no meio da noite por um policial cósmico. Ainda assim, na trama da série, os genes dele e de sua esposa seriam “ideais” para o que os Guardiões do Universo buscavam. Assim, em uma lógica questionável, Hal é escolhido enquanto um dos filhos dos Stewart poderia ser condicionado a ser o herdeiro do anel energético.
Note como não há ligação alguma com os temas, as jornadas, os dramas e os elementos mais importantes que fizeram os fãs amarem esses personagens nos quadrinhos originais — e nem mesmo há uma razão de termos apenas um protetor do Setor 2814.
Isso torna a fundamentação do papel dos Lanternas Verdes completamente distorcida, assim como os critérios dos Guardiões do Universo. De quebra, zoam ainda mais a história de origem de John, a ponto de macular a boa caracterização do que faz com que ele tenha se tornado um Gladiador Esmeralda com sua própria jornada — a de questionar as próprias instituições que o frustraram até que se tornasse um líder justo.
E, pior, transformaram Hal Jordan em um mero usurpador sem caráter e egoísta que não liga para nada além da manutenção de seu poder.
Deprimente.
Expectativas reavaliadas sobre a série Lanternas
Depois de tanta deturpação e falta de elementos sci-fi reais — com Lanternas Vermelhos sendo criaturas furiosas e repugnantes, Caçadores Cósmicos fascistas e detestáveis ou o real visual dos anões azuis burocráticos dos Guardiões do Universo —, há uma certa frustração em ver algo que estava indo tão bem.
Culpo Damon Lindelof, que, assim como aconteceu na série de Watchmen, enfiou uma desnecessária e forçada questão racial como um fator de “atualização real para adaptação”. Gente, os Lanternas Verdes têm naturalmente temas sobre superação e discriminação, com várias tropas de diferentes cores e sentimentos do Espectro Emocional — há material de sobra para desenvolver algo sobre questões sociais e raciais, e até mesmo há um arco em que o Hal Jordan e o Arqueiro Verde redescobrem os Estados Unidos com muita complexidade de enredo a respeito disso.
Bem, independente do descontentamento dos fãs, há boas notícias. A série Lanternas é um sucesso absoluto de público e crítica, registrando excelentes números de audiência na HBO Max. O episódio piloto já ultrapassou 20 milhões de espectadores mundiais.
O polêmico Episódio 3 atingiu a marca de 10 milhões de espectadores globais em apenas três dias (sendo 7 milhões nos Estados Unidos). Tornou-se a terceira melhor estreia de primeira temporada da história da HBO, ficando atrás apenas de A Casa do Dragão e The Last of Us. Superou lançamentos de peso como It: Bem-Vindos a Derry, Pinguim e True Detective: Night Country.
Por conta do estouro de audiência, os roteiros para uma segunda temporada já estão sendo escritos sob a liderança do showrunner Chris Mundy e com a adição do roteirista Christopher Cantwell — o que pode ser uma boa, já que esse cara fez um bom trabalho em HQs do Homem de Ferro, com um nível sci-fi à altura dos Lanternas Verdes.
A primeira temporada de Lanterns é exibida no HBO Max todos os domingos, às 22h, até o dia 4 de outubro de 2026.