A Marvel Comics planejou em segredo durante décadas o resgate de um ícone histórico. O personagem destruiu o conceito tradicional de super-herói e moldou a mitologia moderna. Sua influência pesada direcionou desconstruções famosas na cultura pop, como a maxissérie em quadrinhos Watchmen (1986) e o gibi The Boys (2006).
- Conheça a espetacular HQ que serviu como base para Vingadores: Ultimato
- Por que quase não existem mais os balões de pensamento nos quadrinhos?
A história desse retorno começa na saga Avengers: Armageddon, publicada no verão norte-americano de 2026 (entre os meses de junho e agosto). O evento apresenta o enigmático David Colton. O personagem possui um passado nebuloso e ligações diretas com uma revisão chocante na origem clássica de Steve Rogers.
Wolverine encontra uma caixa de energia desconhecida na Europa. O mutante resgata o artefato bélico dos escombros tecnológicos do castelo de Victor Von Doom. A cena ocorre na Latvéria, nação que sobrevive sem um governante oficial após One World Under Doom (2025).
Neste desfecho, o domínio global absoluto do vilão como Mago Supremo colapsa. A derrocada culmina em sua queda e eliminação, fato que deixa o país europeu em ruínas e vulnerável. O Hulk Vermelho, então, invade o território para roubar essa tecnologia de valor incalculável.
A batalha brutal serve de palco para a manifestação do verdadeiro potencial adormecido em Colton. Wolverine utiliza a caixa misteriosa e salva a vida do novato. Colton exibe poderes divinos instáveis muito superiores às habilidades do Sentinela. Guarde esse detalhe assustador, pois ele é a chave para a conclusão desta saga.
Primeiro super-herói aterrorizante
A trajetória do primeiro super-herói aterrorizante da história começou na Inglaterra. O quadrinista Mick Anglo criou o Marvelman em fevereiro de 1954. A editora L. Miller & Son precisava de um substituto comercial barato após a proibição judicial americana sobre o Capitão Marvel.
O jovem repórter Micky Moran recebia poderes mágicos impressionantes ao gritar a palavra "Kimota". As aventuras clássicas traziam roteiros simples. As revistas semanais focavam na diversão e no entretenimento do público infantil britânico daquela década.
As publicações originais, no entanto, perderam o apelo nas bancas comerciais com o tempo. As revistas saíram de circulação de forma definitiva em fevereiro de 1963. O herói caiu no esquecimento absoluto nas gavetas de editoras falidas por quase vinte anos.
A revista britânica independente Warrior resgatou o herói em março de 1982 e abalou a indústria. A equipe criativa logo mudou o título oficial para Miracleman. O objetivo central envolveu a fuga de conflitos legais diretos com a gigante corporativa Marvel Comics.
Essa reformulação inovadora transformou o garoto em um ser onipotente e muito sombrio. A nova abordagem realista e incrivelmente violenta escancarou os danos psicológicos severos de uma mente humana atormentada por poderes divinos.
Marco disruptivo
Alan Moore e Neil Gaiman transformaram o título em um marco disruptivo na cultura pop. A Eclipse Comics assumiu a publicação colorida da obra em agosto de 1985. Os autores desconstruíram a essência básica dos grandes defensores da humanidade.
Os criadores atualizaram a mitologia da obra com debates pesados sobre o fascismo e a corrupção política. O roteiro também chocou os fãs com a exposição crua do abuso de menores na figura clássica dos ajudantes mirins inocentes.
O leitor fiel encarou o terror psicológico de um falso messias indestrutível nas páginas mensais. A revista reuniu os momentos mais sórdidos, brutais e repugnantes da trajetória do antigo e amado herói britânico ao longo dos anos.
O ápice dessa violência gráfica ocorreu no sádico massacre de Londres na edição 15, de 1988. Kid Miracleman executou a chacina a sangue frio. Essa cena impiedosa, sangrenta e visualmente chocante redefiniu o nível de terror nas histórias de super-heróis.
Todo esse sucesso fenomenal de crítica esbarrou na falência da editora Eclipse em 1994. O desenhista Todd McFarlane, criador do Spawn, adquiriu os direitos da massa falida nos tribunais em 1996. A ação presunçosa iniciou o maior pesadelo jurídico da história dos quadrinhos.
Ostracismo absoluto e a guerra nos tribunais
Todd McFarlane firmou acordos bastante questionáveis sobre o controle total e absoluto da propriedade intelectual. Neil Gaiman contestou a manobra audaciosa na justiça americana. Esse embate de egos gerou décadas de litígio severo, desgastante e muito caro.
A longa batalha judicial esgotou os recursos financeiros e a paciência dos criadores envolvidos. Gaiman fundou a Marvels and Miracles LLC em 2001. Ele escreveu a saga Marvel 1602 no ano de 2003 exclusivamente para pagar sua equipe de advogados.
A ausência de republicações regulares transformou a obra original em um item cult e muito raro. O deus sombrio permaneceu isolado e esquecido pela grande mídia. O ostracismo severo ocorreu em uma época de acesso restrito à internet.
A forte pressão legal contínua forçou a investigação detalhada de contratos comerciais obscuros. Os advogados vasculharam documentos antigos de Mick Anglo e da finada Eclipse. Esse cenário caótico obrigou McFarlane a recuar em suas exigências financeiras com o tempo.
O longo conflito terminou apenas com a resolução do impasse através de um acordo bilionário. A Marvel Comics comprou os direitos originais de Mick Anglo em 2009. A consolidação definitiva da propriedade ocorreu em 2013, fato que encerrou a briga.
Invasão secreta na cronologia oficial
Os fãs veteranos elaboraram diversas teorias após a aquisição milionária dos disputados direitos autorais. A comunidade ansiosa sonhava com a inclusão de Miracleman na cronologia oficial do Universo Marvel. Todos queriam o deus sombrio ao lado dos ícones tradicionais.
A Casa das Ideias, no entanto, priorizou a reestruturação financeira da empresa naquela década. A companhia precisava de dinheiro para a revitalização de propriedades como os Vingadores. Estúdios rivais, por outro lado, lucravam com filmes de propriedades licenciadas.
A editora preparou o terreno comercial com reimpressões de luxo das fases clássicas a partir de 2014. A estratégia incluiu a promessa oficial de uma continuação inédita da história. Neil Gaiman assumiria o roteiro e concluiria a trama inacabada.
A Marvel provocava os leitores com pistas visuais sutis sobre o retorno aguardado desde 2010. O público cansou do mistério prolongado. A editora, então, arquitetou a inserção sorrateira do herói nas páginas de Avengers: Armageddon, em 2026.
O misterioso e instável David Colton atingiu o limite extremo de seus poderes divinos. O personagem sussurrou "Kimota" à beira da morte. O retorno oficial de Miracleman deve se distanciar um pouco daquela versão aterradora de sua revisão nos anos 1980, já que estamos falando de sua presença ao lado de heróis clássicos na cronologia oficial do Universo Marvel — o que divide um pouco os fãs.
Contudo, a presença de um tão poderoso quanto polêmico e complexo promete ao menos trazer uma forma de reinvenção da desconstrução heroica, uma obra madura contra o ódio global moderno.