A efervescência criativa de Arthur Bispo do Rosário poderá ser conferida no espetáculo "Bispo", que será apresentado nesta sexta, sábado e domingo na Casa de Cultura. Internado em 1938 no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde passou 50 anos, Bispo é reconhecido internacionalmente pela beleza estética dos trabalhos que criou no período de reclusão até a sua morte.
Considerava-se um "enviado de Deus" e toda a sua obra é marcada por uma grande sensibilidade estética e espiritual e que hoje serve de referência artística. Considerado esquizofrênico, Bispo espanta pela sua lucidez, expressa em 960 objetos que criou com a intenção de marcar a sua passagem em "busca da salvação".
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Nos seus trabalhos feitos a partir de retalhos, fios desfiados e utensílios domésticos, Bispo intencionava criar um mundo em miniatura, quase que uma representação das obras de Deus. A peça faz parte do Projeto Imagens do Inconsciente, da Barbierê Produções. Exposição, espetáculos, workshop e mesa-redonda fazem parte dos eventos que acontecem de até o dia 28 de setembro, das 10h às 19h, na Casa de Cultura
Interpretada pelo ator baiano João Miguel, a peça é resultado de cinco anos de pesquisa com pessoas com transtornos mentais. "A peça não é uma biografia de Bispo do Rosário, mas tem a intenção de mostrar ao público a 'lucidez labiríntica' do seu processo criativo", afirmou Miguel. Também são citadas figuras importantes na vida de Bispo, como o cineasta Hugo Denizar, que fez o documentário "O Prisioneiro da passagem", e a estagiária Rosângela Maria, que cuidou dele durante dois anos e a quem ele dedica metade das suas obras.
A idéia de fazer a peça surgiu a partir da leitura do livro "Bispo, o senhor do labirinto", de Luciana Hidalgo (Editora Rocco). "Fiquei fascinado com a força da sua história e do quanto a sua lucidez transcendia a loucura catalogada", comenta. "Bispo não fez concessão sobre o próprio delírio e acho que estamos em um momento em que os conceitos de loucura estão sendo revistos, dentro de uma sociedade cheia de esquizofrênicos que criam guerras para ter mais poder", destacou.
A maior parte dos ensaios foram realizados nos corredores do Hospital Juliano Moreira, de Salvador, e o ator destacou a importância desse processo. "Foi uma maneira direta de entender esse universo. Pude olhar nos olhos dos internos e perceber um estado de humanidade mesmo dentro daquela situação", comentou.
O espetáculo, que estreou em março de 2001, já fez turnê em diversas cidades brasileiras e acaba de sair de uma temporada de sucesso de quatro meses em São Paulo. A peça também resultou em diversas performances em lugares inusitados, como jaulas de avestruz e de leão. "Gosto de jogar com o inusitado, com a surpresa momentânea do espectador."
"Os doentes mentais são como um beija-flor. Nunca pousam. Ficam a dois metros do chão". Citando uma das frases de Bispo, o ator deixa latente a beleza e a profundidade tão evidentes nas obras do artista que dizia que o que fazia não era obra de arte e sim uma forma pessoal de conquistar a salvação na terra.
Serviço:
"Bispo"
Data: de 12 a 14 de setembro, sexta a domingo
Horário: 20 horas
Local: Casa de Cultura
Endereço: Rua Mato Grosso, 537
Ingresso: R$ 3
Ponto de Venda: Casa de Cultura, a partir desta sexta-feira, das 14h às 19h