A banda gaúcha Nenhum de Nós se apresenta pela primeira vez em Londrina na noite desta quarta-feira (25), no palco da Kalahari. Quando surgiram na década de 80, em meio à febre do rock nacional, estouravam nas rádios músicas como "Olhar 43", do RPM, "Alagados", dos Paralamas do Sucesso e "Camila, Camila", primeira canção da banda gaúcha a entrar nas paradas.
Hoje, a febre é o "tchu tcha tcha", o "tche tche re re" e uma série de onomatopeias vindos do sertanejo universitário, estilo que predomina nos meios de comunicação e nas casas noturnas.
Em entrevista ao Bonde, o vocalista do Nenhum de Nós, Thedy Correa, compara as duas épocas e admite que o sertanejo 'abocanha' o mercado fonográfico.
"O sertanejo é o estilo predominante assim como o rock já foi ou o axé. Não existe nada que se possa fazer para "enfrentar" um estilo ou uma onda. Temos que seguir nosso trabalho sem a preocupação de ocupar um espaço que jamais seria nosso naturalmente", afirma o vocalista.
"Creio que o investimento que existe hoje no mercado sertanejo é de uma dimensão jamais vista no país. Como o sertanejo é bastante popular, trabalha com cifras altíssimas e acaba por ocupar todos os espaços", analisa.
Repertório
Quem for à Kalahari na noite desta quarta não deixará de ouvir os sucessos que fizeram parte da trajetória da banda, como "Camila, Camila", "Astronauta de Mármore", "Sobre o Tempo" e "Vou deixar que você se vá". Também estarão presentes canções do último álbum, Contos de Água e Fogo, lançado em 2011. O disco tem como tema central o contraditório, explorado em canções como "Água e Fogo" e "Melhor e Diferente".
"Procuramos manter uma base de repertório sempre igual. Fazemos pequenas variações de acordo com alguma particularidade – como um sucesso localizado ou algo assim. O fato é que as canções ganham em naturalidade com o passar do tempo", diz o cantor sobre a escolha das músicas para as apresentações.
União
Da geração 80 do rock nacional, poucas bandas ainda seguem na ativa. Entre elas, é ainda mais raro manter a formação original da banda, algo que acontece com o Nenhum de Nós.
"Creio que nós temos uma 'cola' muito forte e imagino que ela seja o amor pela música que fazemos. Nos respeitamos muito – ou quase sempre (risos). Nunca brigamos seriamente. Como já estamos juntos há tanto tempo, as discussões acabam se resolvendo de forma mais serena", pondera.
Rock atual
Questionado sobre a cena atual do rock, que sofre com a falta visibilidade por conta do 'atropelo' do sertanejo, Thedy afirma que as novas bandas têm aproveitado a internet como meio de divulgação.
"Existe uma verdadeira rede de conexões para disseminar as novas bandas. Eu vejo ótimos exemplos como a Pública e Tópaz. Elas estão 'acontecendo' de uma outra maneira, numa nova dimensão".
Apesar da visibilidade, o vocalista não acredita que o gênero passe por uma nova onda de sucesso como a da sua geração.
"Por enquanto não teremos 'estouros' semelhantes aos nossos em
virtude da predominância de um outro estilo que não o rock. Penso que o Restart foi a última coisa mais próxima do rock que teve grande exposição, mas eles fazem parte de um universo mais infanto-juvenil. Como aconteceu nos anos 80, acho muito difícil que se repita
Infelizmente".