Marchinhas carnavalescas e sambas antigos formaram a trilha sonora consagrada dos Carnavais brasileiros durante muitos anos. Nitidamente debochadas, as marchinhas caracterizavam os momentos de maior agitação da festa com seu ritmo vibrante e coreografia fácil de dançar. As letras simples destacavam-se por serem satíricas, caricaturais e maliciosa - por vezes até canalhas. Em contraponto, o samba carnavalesco é sentimental (leia-se choroso) e romântico, com letras poéticas.
Nos últimos anos, estes estilos desapareceram dos festejos de Momo, dando lugar ao pagode e à axé music. Alguns poucos espaços de resistência ainda tocam a marchinha, como é o caso do carnaval de Recife, que conta ainda com o frevo para manter a tradição da festa. Em Curitiba, dois grupos musicais dedidam-se a tocar apenas sambas à moda antiga: Gente Boa da Melhor Qualidade e Maxixe Machine. O primeiro interpreta apenas canções de velhos compositores. O segundo segue a mesma idéia, porém incorpora composições próprias a seu repertório.
Guto Gevaerd, do "Gente Boa", e Rodrigo Barros, do Maxixe Machine, apontam três fatores que levaram ao desaparecimento dos sambas e marchinhas de antigamente. O primeiro deles é o próprio mercado musical brasileiro, que deixou de apostar nestes gêneros. "O samba tradicional é visto como estilo de uma época que já passou. Se houvesse aceitação pública, continuaria tocando nas rádios", aponta Barros. "A Axé Music, qundo surgiu, foi vendida como música de verão. Por este motivo acabou ganhando o Carnaval", lamenta-se Gevaert.
Um segundo fator seria a razão física. "Grupos tradicionais de samba e marchinha são numerosos, necessitando de, no mínimo sete músicos, enquanto um conjunto de axé pode ser formado por um quarteto", exemplifica Barros. Por fim, o desaparecimento da cultura da composição de sambas surge como terceiro fator para o processo de extinção destes dinossauros.
Mas nem tudo são trevas neste pequeno universo. Um bom exemplo foi a aceitação do último CD da Velha Guarda da Portela, "Tudo Azul", lançado em 2000. Produzido pela cantora Marisa Monte, o álbum vendeu 30 mil cópias, que é uma boa vendagem para artistas de samba antigo. Depois disso, as gravadoras demonstraram interesse em lançar velhos compositores. Nelson Sargento, membro da Velha Guarda da Mangueira, está lançando dois novos discos. Um de sucessos consagrados e outro somente com músicas inéditas, o que comprova que ainda estão surgindo novas composições em samba, pelas mãos de artistas veteranos.
Gevaerd, acrescenta que as marchinhas mais clássicas não vão desaparecer tão cedo. "Nos bailes que acontecem nos clubes, sempre são executadas músicas como 'Aurora' e 'Alalaô', afinal as bandas de salão são versáteis e sempre tocam os clássicos". Seu grupo, Gente Boa da Melhor Qualidade, já promoveu três gritos de Carnaval, mas nunca chegou a tocar durante uma festa do tipo. Um privilégio que o Maxixe Machine já teve, mas não tem muita esperança de que a experiência se repita.
Para este ano, o Maxixe Machine continua promovendo seu segundo CD, "Folias de Momo", enquanto o "Gente Boa" prepara um show especial de tributo a Aracy de Almeida "Ela foi uma cantora excepcional que o Brasil teve, mas quase ninguém lembra dela. A intenção deste show é justamente fazer um resgate de seu excelente trabalho". Vale citar uma curiosidade: a banda tem uma cachorrinha de estimação que recebeu o nome de Aracy, em face à grande admiração que nutrem pela artista.