Chico Buarque quer distância de um certo Ahmed, o responsável direto é o que se pressupõe pelo seu afastamento de oito anos dos estúdios de gravação. Além de não cumprir prazos combinados, cobrou caro ''pra cacete'' pelas músicas do novo disco do cantor e compositor, fez exigências contratuais e, não bastasse, chantageou financeiramente o artista.
''Eu estava precisando e como ele sabia que eu estava na pior, paguei'', entrega. Por conta de Ahmed, o fornecedor de canções, Chico resolveu escancarar o esquema que envolve muita gente com interesses escusos. ''Os caras me abordam na rua, vão vendendo música e eu vou comprando'', diz ele sem citar nomes. Por que só agora, aos 67 anos de idade, 50 discos gravados e muitas músicas compradas, Chico Buarque resolveu revelar o esquema? Marketing! Ou melhor, marketing defensivo para salvaguardar ''Carioca'' mais recente álbum em que presta uma homenagem à cidade de São Paulo a começar pelo título.
Chico Buarque é um farsante. De marca maior. Não levem esse homem a sério! Nem um pouco. As confissões mentirosas de Buarque de Hollanda a um mês de completar 62 anos de idade, 40 anos de carreira e mais de 30 discos, entre solos, compactos e projetos especiais estão num hilário espisódio do DVD ''Desconstrução'' que acompanha o tão aguardado disco, cuja chancela é da gravadora Biscoito Fino. Invencionices em termos, porque o disco ''Carioca'', no qual deita poesia sobre o Rio de Janeiro, é de fato um tributo aos paulistanos claro, com fina ironia. ''Eu morei em São Paulo e meu apelido lá era carioca'', diz ele.
O projeto vem em dois formatos: um com DVD e CD e outro com disco avulso. Aos buarqueanos dos quatro costados, um aviso: no registro audiovisual, Chico abre portas e coração e mostra seu processo de criação dentro do estúdio com direito a muitas histórias e tiradas sarcásticas ''Desconstrução'', dirigido por Bruno Natal, bem que poderia chamar-se, com perdão do trocadilho, ''Descontração''. Quase 60 minutos de som e imagem abertos com uma declaração interessante sobre a dificuldade que Chico encontra em sair da literatura e retonar à música e vice-versa. ''O fato de eu me distanciar muito tempo cria um problema porque dá a impressão de que não se sabe mais fazer música, assim como vou ter a impressão que eu não sei mais escrever'', diz. ''Agora estou completamente músico'', arremata mais adiante.
''Carioca'' traz sete músicas inéditas e cinco regravações a bonita ''Renata Maria'' (em parceria com Ivan Lins e registrada ano passado por Leila Pinheiro); ''Leve'' (com Carlinhos Vergueiros, gravada originalmente por Dora Vergueiro, em 1996); o samba ''Dura na Queda'' (feita para e gravada magistralmente por Elza Soares, há quatro anos); ''Ode aos Ratos'' (com Edu Lobo, feita para o musical ''Cambaio'', que ganha um rap-embolada inédito); e a sentimental ''Imagina'' (um dos clássicos compostos com Tom Jobim e que traz a delicadeza de Mônica Salmaso).
O que interessa, de fato, levando em conta quase dez anos de ausência de palavras cantadas, são as inéditas. Chico Buarque não decepciona, embora falte ''aquela''. Não esperem, pois, melodias assoviáveis, refrões rapidamente assimiláveis, nada disso. O refinamento melódico de Chico está muito longe dos dourados anos até hoje rebobinados tantas e tantas vezes por muito e muitas (no caso, garotas de todas as idades). ''Carioca'' tem atributos notáveis, mas precisam ser apreciados sem pressa.
Logo de cara, um belo choro-canção, ''Subúrbio'', cuja letra só um ourives experiente sabe o procedimento exato para se chegar à delicadeza. Um trecho: ''Lá não tem claro-escuro/ A luz é dura/ A chapa é quente/ Que futuro tem/ Aquela gente toda/ Perdido em ti/ Eu ando em roda/ É pau, é pedra/ É o fim da linha/ É lenha, é fogo, é foda''. Chico percorre poeticamente o Rio de Janeiro, senão tematicamente, em sutis referências à atmosfera carioca da zona sul à face nada maquiada da cidade maravilhosa.
O cinema se projeta com encanto quase adolescente em ''As Atrizes'' (''Com tantos filmes/ Na minha mente/ É natural que toda atriz/ Presentemente represente/ Muito para mim'') e ''Ela Faz Cinema'' (''Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/ O que mente para mim/ Serei eu meramente/ Um personagem efêmero/ Da sua trama'').
É natural, obviamente, que cada ouvinte escolha sua preferida como resistir a versos singelamente contumazes de ''Sempre'' (''Eu te contemplava sempre/ Feito um gato aos pés da dona''). Mesmo quando se relê, Chico estabelece empatia imediata, ainda que seu canto, cada mais miúdo, soe pequeno diante da portentosa Mônica Salmaso.
Para o revestimento de ''Carioca'', novamente foi convocado o maestro, violonista e produtor Luiz Cláudio Ramos, há 20 anos o homem de confiança de Chico. ''Vários discos meus têm arranjos do Francis Hime, outros do Cristóvão Bastos, mas com o Luiz Cláudio tudo fica mais próximo de mim por causa do instrumento, que é o violão. É mais fácil discutir minúcias e detalhes harmônicos'', confessa. O disco formata-se através de um hábil time de músicos, entre eles o baterista Wilson das Neves, o baixista Jorge Helder (um dos parceiros de ''Bolero Blues''), o pianista Cristóvão Bastos e até mesmo o pianista Daniel Jobim (neto de Tom), só para citar alguns foram muitos os que passaram pelo estúdio, entre setembro de 2005 e março de 2006.
Só o tempo poderá aferir se ''Carioca'' será um disco antológico de Chico Buarque. Por ora, trata-se de um álbum bem-produzido apenas já que algumas regravações sobressaem-se a essa ou àquela canção da nova safra ''Renata Maria'', por exemplo, já veio amaciada por obra e graça de Leila Pinheiro. Mas é, a rigor, um novo disco de Chico Buarque. E sabendo a procedência, seria leviano levantar suspeitas superficiais sobre o atual grau de excelência artística de Chico. O que dele provém não pode ser subestimado. Em hipótese nenhuma. Nunca.
Serviço:
Disco ''Carioca'', de Chico Buarque, gravadora Biscoito Fino. Preço sugerido: álbum simples (R$ 36,90) e CD e DVD (R$ 54,90). O disco pode ser adquirido também pelo site: www.biscoitofino.com.br