‘Noventa por cento das pessoas do planeta, especialmente no Ocidente, nasceram de uma garrafa de uísque em uma noite de sábado, sem que houvesse qualquer intenção de concebê-las. Noventa por cento de nós foi um acidente – não conheço ninguém que tenha planejado ter filhos. Todos somos crias de sábado à noite.’
A frase acima saiu da boca de John Lennon durante uma entrevista em que falava sobre sua infância em Liverpool, Inglaterra. Ela é uma das milhares que recheiam o livro ‘The Beatles Antologia’, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Cosac & Naify, antecipando as comemorações dos 40 anos de nascimento da banda, em 2002.
A obra apresenta a história dos Beatles, a banda mais famosa do rock’n’roll, por entrevistas e depoimentos de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr. Publicada ano passado na Europa e Estados Unidos, tornou-se referência para admiradores e fãs dos Beatles.
Uma parte dos depoimentos Paul, George e Ringo foram extraídos do vídeo ‘The Beatles Anthology’ exibido pela televisão inglesa, outra parte de entrevistas exclusivas para o livro. Com relação a Lennon, morto em 1980, seus relatos foram recolhidos em dezenas de fontes, numa detalhada pesquisa realizada em jornais, revistas e arquivos variados.
O resultado é uma extensa reconstituição da história dos Beatles, repleta de detalhes segundo a memória de seus integrantes. Personagens como George Martin, Neil Aspinall e Derek Taylor também falam de suas participações no universo Beatles. Centenas de fotos completam o livro, parte delas inéditas, colhidas nos arquivos de Paul, John, George e Ringo.
‘The Beatles Antologia’ abarca todas as etapas de existência dos Beatles. Apresenta também os primórdios da banda, quando tocavam apenas John, Paul e George, antes da entrada do baterista Ringo dando origem à formação definitiva. Os motivos que levaram à dissolução do grupo são relatados e deixam claro que, além do cansaço, os quatro músicos desejavam seguir caminhos distintos. A participação de Yoko Ono nesse processo de dissolução não é mencionada de maneira direta.
Os depoimentos dos criadores dos Beatles desvendam algumas mitológicas histórias que cercam a banda. O episódio em que John, Paul, George e Ringo fumaram maconha no banheiro do palácio da rainha da Inglaterra, por exemplo, é desmentido por George Harrison: ‘Nunca fumamos maconha na condecoração da rainha da Inglaterra. O que aconteceu foi que estávamos esperando para entrar, de pé numa fila enorme com centenas de pessoas, e tão nervosos que fomos até o banheiro fumar um cigarro – éramos fumantes nessa época. Anos depois, tenho certeza que John pensou no assunto e lembrou: ‘Ah, é, a gente foi para o banheiro e fumou’, transformando o cigarro num baseado. Por que qual seria a pior coisa a fazer antes de conhecer a rainha? Fumar um baseado! Mas a gente nunca fez isso.’
Outro fato desmentido pelos depoimentos é o fato de a música ‘Lucy In The Sky With Diamonds’ ter sido composta em homenagem ao LSD. Nas palavras de Lennon, a canção não foi feita sobre o LSD: ‘Jamais foi, e ninguém acredita em mim. Eu juro por Deus, eu juro por Mao ou por quem vocês quiserem, eu não tinha a menor idéia de que evocava LSD. A verdade é a seguinte: meu filho chegou em casa com um desenho e me mostrou a mulher de aspecto estranho que voava. Eu perguntei: ‘O que é isto?’, e ele respondeu ‘É Lucy no céu com diamantes’ e eu pensei ‘Isto é lindo’. Na mesma hora escrevi uma canção a respeito. E a canção havia saído, o álbum havia sito publicado e alguém notou que as letras formavam as iniciais LSD’.
‘The Beatles Antologia’, de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, Cosac & Naify Edições, tradução de Maria Luiza Dantas Borges, Beatriz Karan Guimarães, Cid Knipel e Cláudio Nascimento, 367 páginas, capa dura, R$ 149,00.
Trechos do livro
‘Fomos a primeira banda vinda da classe trabalhadora que manteve suas origens, assumia isso e não mudou o sotaque que na Inglaterra era considerado inferior. A única coisa que mudamos foi nossa imagem.’ (John Lennon)
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‘Especialmente no início, acho que o espírito dos Beatles parecia sugerir algo de muita esperança e de juventude. Várias vezes alguém pedia que cumprimentássemos algum jovem com deficiência física; que transmitíssemos a eles uma espécie de esperança, talvez. Mas era difícil para nós, porque parte do nosso humor era de um tipo meio mórbido. E tínhamos quase que abençoar essas pessoas nas cadeiras de rodas, o que era bem contraditório para nós.’ (Paul McCartney)
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‘Na nossa primeira turnê nos Estados Unidos houve um questão que não podia ser tocada, e que o sr. Epstein nos proibiu de mencionar: a Guerra do Vietnã. Antes de voltarmos para a segunda turnê, George e eu dissemos a ele: ‘Nós não iremos a menos que possamos responder o que pensamos a respeito da guerra’.’ (John Lennon)
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‘Quando ganhei a bateria, eu a arrumei no meu quarto, o dos fundos, e me pus a bater. Então ouvi uma voz que vinha lá de baixo: ‘Diminua o barulho, os vizinhos estão reclamando!’. Só tentei duas vezes e gritaram comigo as duas vezes, então parei e nunca mais pratiquei em casa. Para fazê-lo eu teria de me juntar a um grupo.’ (Ringo Starr)
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‘A turnê daquele ano (1964) foi uma loucura. Não dentro da banda. Na banda estávamos normais, mas o resto do mundo estava louco. A única hora em que podíamos ficar tranquilos era quando entrávamos na suíte e nos trancávamos no banheiro. O banheiro era, basicamente, o único lugar em que se podia encontrar um pouco de paz.’ ( George Harrison)
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‘A música e a poesia de Bob Dylan foram de enorme influência. Uma das coisas que ele apresentou para nós foi a maconha. Ele apareceu no hotel e falou: ‘Experimentem’. É uma indiscrição contar isso tudo, porque não sei se o Bob diz para as pessoas que foi ele que apresentou maconha aos Beatles.’ (Paul McCartney)
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‘A maioria da pessoas pensa que ‘Help!’ é só uma canção rápida de rock’n’roll. Eu não percebi na época – escrevi a música porque me encomendaram para o filme – mas depois me dei conta que estava mesmo pedindo socorro. ‘Help!’ era sobre mim, ainda que fosse um pouco poética. Acho que tudo vem à tona nas músicas. A vida Beatle estava simplesmente além da compreensão. Eu estava comendo e bebendo feito um porco, estava gordo feito um porco, insatisfeito comigo mesmo e subconscientemente pedindo socorro. Foi a minha fase de Elvis gordo.’ (John Lennon)
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‘O negócio com o John é que ele era cheio de defesa. Não dava para vê-lo. Só através de umas poucas brechas de sua armadura é que eu consegui. Porque a armadura era bem sólida. John era sempre, na superfície, duro, duro, duro.’ (Paul McCartney)
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‘Sabemos tudo sobre ‘Yesterday’. Já recebi muitos elogios por ‘Yesterday’. Essa era a queridinha de Paul. Muito boa. Mas nunca desejei tê-la composto.’ (John Lennon)
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‘Eu não sei se os poetas acham que eles têm de experimentar as coisas para escrever sobre elas, mas posso dizer que as nossas músicas eram quase todas pura imaginação – noventa por cento imaginação. Não acho que Beethoven tivesse o tempo todo de mau humor.’ (Paul McCartney)
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‘Posso deixar de escrever, ler ou assistir ou falar, mas o sexo é a única coisa física com a qual ainda me disponho a ser incomodado.’ (John Lennon)
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‘Nunca passamos de oito canais. Toda a obra dos Beatles foi em dois canais, quatro canais ou oito canais. ‘Sgt. Pepper’ foi em quatro canais. Em ‘Abbey Road’ chegamos aos oito canais e pesamos que era demais! Achamos que isto era muito luxo.’ (Paul McCartney)
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‘Sou uma pessoa organizada. Guardo minhas meias na gaveta de meias e drogas na caixa de drogas.’ (George Harrison)