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"The Beatles Anthology" recebe edição brasileira

26 nov 2001 às 17:28

‘Noventa por cento das pessoas do planeta, especialmente no Ocidente, nasceram de uma garrafa de uísque em uma noite de sábado, sem que houvesse qualquer intenção de concebê-las. Noventa por cento de nós foi um acidente – não conheço ninguém que tenha planejado ter filhos. Todos somos crias de sábado à noite.’

A frase acima saiu da boca de John Lennon durante uma entrevista em que falava sobre sua infância em Liverpool, Inglaterra. Ela é uma das milhares que recheiam o livro ‘The Beatles Antologia’, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Cosac & Naify, antecipando as comemorações dos 40 anos de nascimento da banda, em 2002.


A obra apresenta a história dos Beatles, a banda mais famosa do rock’n’roll, por entrevistas e depoimentos de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr. Publicada ano passado na Europa e Estados Unidos, tornou-se referência para admiradores e fãs dos Beatles.


Uma parte dos depoimentos Paul, George e Ringo foram extraídos do vídeo ‘The Beatles Anthology’ exibido pela televisão inglesa, outra parte de entrevistas exclusivas para o livro. Com relação a Lennon, morto em 1980, seus relatos foram recolhidos em dezenas de fontes, numa detalhada pesquisa realizada em jornais, revistas e arquivos variados.


O resultado é uma extensa reconstituição da história dos Beatles, repleta de detalhes segundo a memória de seus integrantes. Personagens como George Martin, Neil Aspinall e Derek Taylor também falam de suas participações no universo Beatles. Centenas de fotos completam o livro, parte delas inéditas, colhidas nos arquivos de Paul, John, George e Ringo.


‘The Beatles Antologia’ abarca todas as etapas de existência dos Beatles. Apresenta também os primórdios da banda, quando tocavam apenas John, Paul e George, antes da entrada do baterista Ringo dando origem à formação definitiva. Os motivos que levaram à dissolução do grupo são relatados e deixam claro que, além do cansaço, os quatro músicos desejavam seguir caminhos distintos. A participação de Yoko Ono nesse processo de dissolução não é mencionada de maneira direta.


Os depoimentos dos criadores dos Beatles desvendam algumas mitológicas histórias que cercam a banda. O episódio em que John, Paul, George e Ringo fumaram maconha no banheiro do palácio da rainha da Inglaterra, por exemplo, é desmentido por George Harrison: ‘Nunca fumamos maconha na condecoração da rainha da Inglaterra. O que aconteceu foi que estávamos esperando para entrar, de pé numa fila enorme com centenas de pessoas, e tão nervosos que fomos até o banheiro fumar um cigarro – éramos fumantes nessa época. Anos depois, tenho certeza que John pensou no assunto e lembrou: ‘Ah, é, a gente foi para o banheiro e fumou’, transformando o cigarro num baseado. Por que qual seria a pior coisa a fazer antes de conhecer a rainha? Fumar um baseado! Mas a gente nunca fez isso.’


Outro fato desmentido pelos depoimentos é o fato de a música ‘Lucy In The Sky With Diamonds’ ter sido composta em homenagem ao LSD. Nas palavras de Lennon, a canção não foi feita sobre o LSD: ‘Jamais foi, e ninguém acredita em mim. Eu juro por Deus, eu juro por Mao ou por quem vocês quiserem, eu não tinha a menor idéia de que evocava LSD. A verdade é a seguinte: meu filho chegou em casa com um desenho e me mostrou a mulher de aspecto estranho que voava. Eu perguntei: ‘O que é isto?’, e ele respondeu ‘É Lucy no céu com diamantes’ e eu pensei ‘Isto é lindo’. Na mesma hora escrevi uma canção a respeito. E a canção havia saído, o álbum havia sito publicado e alguém notou que as letras formavam as iniciais LSD’.


‘The Beatles Antologia’, de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, Cosac & Naify Edições, tradução de Maria Luiza Dantas Borges, Beatriz Karan Guimarães, Cid Knipel e Cláudio Nascimento, 367 páginas, capa dura, R$ 149,00.


Trechos do livro
‘Fomos a primeira banda vinda da classe trabalhadora que manteve suas origens, assumia isso e não mudou o sotaque que na Inglaterra era considerado inferior. A única coisa que mudamos foi nossa imagem.’ (John Lennon)




‘Especialmente no início, acho que o espírito dos Beatles parecia sugerir algo de muita esperança e de juventude. Várias vezes alguém pedia que cumprimentássemos algum jovem com deficiência física; que transmitíssemos a eles uma espécie de esperança, talvez. Mas era difícil para nós, porque parte do nosso humor era de um tipo meio mórbido. E tínhamos quase que abençoar essas pessoas nas cadeiras de rodas, o que era bem contraditório para nós.’ (Paul McCartney)



‘Na nossa primeira turnê nos Estados Unidos houve um questão que não podia ser tocada, e que o sr. Epstein nos proibiu de mencionar: a Guerra do Vietnã. Antes de voltarmos para a segunda turnê, George e eu dissemos a ele: ‘Nós não iremos a menos que possamos responder o que pensamos a respeito da guerra’.’ (John Lennon)



‘Quando ganhei a bateria, eu a arrumei no meu quarto, o dos fundos, e me pus a bater. Então ouvi uma voz que vinha lá de baixo: ‘Diminua o barulho, os vizinhos estão reclamando!’. Só tentei duas vezes e gritaram comigo as duas vezes, então parei e nunca mais pratiquei em casa. Para fazê-lo eu teria de me juntar a um grupo.’ (Ringo Starr)



‘A turnê daquele ano (1964) foi uma loucura. Não dentro da banda. Na banda estávamos normais, mas o resto do mundo estava louco. A única hora em que podíamos ficar tranquilos era quando entrávamos na suíte e nos trancávamos no banheiro. O banheiro era, basicamente, o único lugar em que se podia encontrar um pouco de paz.’ ( George Harrison)



‘A música e a poesia de Bob Dylan foram de enorme influência. Uma das coisas que ele apresentou para nós foi a maconha. Ele apareceu no hotel e falou: ‘Experimentem’. É uma indiscrição contar isso tudo, porque não sei se o Bob diz para as pessoas que foi ele que apresentou maconha aos Beatles.’ (Paul McCartney)



‘A maioria da pessoas pensa que ‘Help!’ é só uma canção rápida de rock’n’roll. Eu não percebi na época – escrevi a música porque me encomendaram para o filme – mas depois me dei conta que estava mesmo pedindo socorro. ‘Help!’ era sobre mim, ainda que fosse um pouco poética. Acho que tudo vem à tona nas músicas. A vida Beatle estava simplesmente além da compreensão. Eu estava comendo e bebendo feito um porco, estava gordo feito um porco, insatisfeito comigo mesmo e subconscientemente pedindo socorro. Foi a minha fase de Elvis gordo.’ (John Lennon)



‘O negócio com o John é que ele era cheio de defesa. Não dava para vê-lo. Só através de umas poucas brechas de sua armadura é que eu consegui. Porque a armadura era bem sólida. John era sempre, na superfície, duro, duro, duro.’ (Paul McCartney)



‘Sabemos tudo sobre ‘Yesterday’. Já recebi muitos elogios por ‘Yesterday’. Essa era a queridinha de Paul. Muito boa. Mas nunca desejei tê-la composto.’ (John Lennon)



‘Eu não sei se os poetas acham que eles têm de experimentar as coisas para escrever sobre elas, mas posso dizer que as nossas músicas eram quase todas pura imaginação – noventa por cento imaginação. Não acho que Beethoven tivesse o tempo todo de mau humor.’ (Paul McCartney)



‘Posso deixar de escrever, ler ou assistir ou falar, mas o sexo é a única coisa física com a qual ainda me disponho a ser incomodado.’ (John Lennon)



‘Nunca passamos de oito canais. Toda a obra dos Beatles foi em dois canais, quatro canais ou oito canais. ‘Sgt. Pepper’ foi em quatro canais. Em ‘Abbey Road’ chegamos aos oito canais e pesamos que era demais! Achamos que isto era muito luxo.’ (Paul McCartney)


‘Sou uma pessoa organizada. Guardo minhas meias na gaveta de meias e drogas na caixa de drogas.’ (George Harrison)


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