Nascida em Portugal e radicada no Brasil, a autora de "Ti-ti-ti", Maria Adelaide Amaral, tem no currículo peças teatrais, novelas e minisséries memoráveis. Ela nasceu na cidade de Porto, em 1945, e aos 12 anos veio com sua família para o Brasil, para a cidade de São Paulo, onde cursou Jornalismo na Fundação Cásper Líbero.
Por dezesseis anos trabalhou na Editora Abril, até que começou a escrever suas primeiras peças. Começou na televisão em 1990, convidada por Cassiano Gabus Mendes para co-escrever a novela ‘Meu Bem, Meu Mal’ Seu primeiro trabalho como autora titular foi um remake da obra de Cassiano, ‘Anjo Mau’, em 1997.
Entre outros trabalhos, foi responsável pelas minisséries ‘A Muralha’, ‘Os Maias’, ‘A Casa das Sete Mulheres’, ‘Um Só Coração’, ‘JK’, ‘Queridos Amigos’ e ‘Dalva & Herivelto’. Agora, a autora volta às novelas novela e faz uma homenagem ao autor que a trouxe para a TV e a inspirou.
Por que fazer essa homenagem a Cassiano Gabus Mendes? A escolha de ‘Ti-ti-ti’ teve algum motivo especial?
Maria Adelaide Amaral: O Cassiano Gabus Mendes foi quem efetivamente me levou para a televisão em 1990 para escrever com ele ‘Meu Bem Meu Mal’. E também porque eu me lembrava que ‘Ti-ti-ti’ tinha sido uma novela muito divertida.
Na televisão, grande parte de seu trabalho tem sido dedicado às minisséries. Por que voltar a escrever uma novela e, ainda por cima, uma comédia?
Realmente, desde 2000, só fiz minisséries. Mas há anos a Globo vem insistindo para que eu faça novela. Há cerca de quatro anos, eu disse ao Mário Lúcio Vaz, então diretor artístico, que gostaria de fazer o remake de ‘Ti-ti-ti’ junto com o de ‘Plumas e Paetês’, porque ambas abordavam o universo da moda. Mas o tempo foi passando e continuei escrevendo minisséries de 50 capítulos. Quando a Globo começou a dar preferência a formatos menores, percebi que tinha chegado a hora de voltar às telenovelas, que, na verdade, foi onde comecei. Primeiro, ajudando o Cassiano. Depois, o Silvio de Abreu (em ‘Deus nos Acuda’ e ‘A Próxima Vítima’). Quando assinei sozinha a minha primeira novela, o Boni sugeriu que fosse um remake do Cassiano: ‘Anjo Mau’ (1997/98).
Em que os personagens principais, Victor Valentim e Jacques Leclair, têm de semelhanças e de diferenças em relação à primeira versão?
Quando o Cassiano Gabus Mendes escreveu ‘Ti-ti-ti’, a moda em São Paulo gravitava em torno de dois costureiros: Denner e Clodovil. Mas o universo da moda mudou tanto, que nem se usa mais a palavra costureiro e sim, estilista. No original, Leclair e Valentim tinham seus ateliês nos Jardins e atendiam a alta sociedade. Agora, o ateliê de Jacques Leclair fica no Jardim Anália Franco e ele cria, preferencialmente, vestidos de festa, madrinhas e noivas. Seu sonho, porém, é fazer também pret a porter, ter uma loja na Oscar Freire e chegar à São Paulo Fashion Week. No original, Jacques Leclair é um nome consolidado. Agora, é um estilista de gosto duvidoso, que vai se beneficiar do talento de Jaqueline (Claudia Raia) para fazer seu up-grade. Ou seja, seus modelos tinham um bom corte, mas informações demais. Retirados os excessos, seus modelos ganham em bom gosto e revelam sua essencialidade. Nesse momento, seu estilo é um mix de Calvin Klein e Armani. Victor Valentim, seu inimigo de infância, que aspira à fama e ao sucesso financeiro do antigo desafeto, também vai atender o mesmo segmento de vestidos de festa. Como no original, ele vai se inspirar nos vestidos de boneca feitos por uma senhora que, na verdade, é a mãe de Jacques Leclair, desaparecida há muitos anos e totalmente desmemoriada. No original, ele encontra essa senhora num asilo. Na nossa novela, ela é uma moradora de rua. São muitas as diferenças. Só citei as que me parecem mais importantes.
Qual foi a sua principal preocupação ao reescrever uma história com mais de 20 anos?
Foi atualizar a trama. Para isso, conversei com a Costanza Pascolato, a Glorinha Kalil e a Maria Prata, que me deram dicas preciosas. A moda brasileira se industrializou e se democratizou de tal forma desde o início dos anos 90, que Leclair e Valentim não teriam mais lugar nesse mundo. A não ser no mercado de moda festa e moda noiva, que é um segmento que não conhece crise.
Você escreveu a peça "Mademoseille Chanel" para o teatro e agora ‘Ti-ti-ti’ também gravita em torno do mundo da moda. É um assunto que lhe interessa?
Acho que foi a partir de Chanel que comecei realmente a me interessar pelo mundo da moda. A intenção de escrever uma novela sobre o tema me levou, em 1996, a assistir, no backstage, a um desfile de Ocimar Versolato em Paris. Também gostava de assistir ao GNT Fashion com a Betty Lago e depois com a Lilian Pacce. E ao longo dos anos aprendi que moda não é só roupa nem frivolidade. É uma indústria que emprega milhares e movimenta milhões.
Que outros elementos da obra de Cassiano Gabus Mendes você pretende trazer para a novela?
Resgatei duas tramas de ‘Plumas & Paetês’, porém profundamente modificadas: a de Rebeca (Christiane Torloni) e Marcela (Ísis Valverde) – que é a trama romântica da novela. Além disso, faço algumas citações a personagens de outras novelas. O Mário Fofoca (Luis Gustavo), detetive desastrado de ‘Elas por Elas’, fará algumas participações ao longo da história. Kiki Blanche (Maria Zilda Bethlem), de ‘Locomotivas’, aparece como cliente de Jacques Leclair. E assim por diante.
É a primeira vez que você trabalha com o diretor Jorge Fernando. Como está sendo a experiência?
Maravilhosa. O Jorginho é um perfeito diretor de comédia, tem a experiência e a medida (ou desmedida) do horário das sete.
Você participa da escolha do elenco? Como acha que Murilo Benício e Alexandre Borges se sairão como os dois estilistas rivais?
Participo sim, mas prefiro fazer isso juntamente com o diretor, já que é ele que vai ter que trabalhar com os atores. Adoro tanto o Murilo como o Alexandre e, pelo que já vi gravado, eles estão impagáveis como Valentim e Jacques Leclair.
Tem algum novo personagem que você acredita que vai chamar atenção do público?
Vários. Mas vou destacar os gêmeos Mabi (Clara Tiezzi) e Lipe (Davi Lucas), os filhos adolescentes de Jacques Leclair, e Dorinha Bacelar (Monica Martelli), uma ex-modelo que vai ser a instrutora das new-faces.
Quem são seus colaboradores e de que forma vocês trabalham?
Vincent Villari, que trabalhou comigo em ‘Anjo Mau’, ‘A Muralha’, ‘Os Maias’ e ‘A Casa das Sete Mulheres’. Leticia Mey e Rodrigo Amaral, que estão comigo desde ‘JK’. Álvaro Ramos, com quem trabalhei na época do seriado ‘Mulher’. A mais recente aquisição é a documentarista e roteirista Marta Nehring, que está trabalhando comigo num roteiro de longa-metragem sobre a orquestra sinfônica de Heliópolis. Tem ainda o Juliano Righetto, que é um excelente pesquisador e possui um conhecimento específico da área, porque já foi modelo. O Vincent escaleta, eu distribuo as cenas entre os membros da equipe, escrevo as mais complexas e faço a edição final do capítulo.