Corpo & Mente

Obesidade e câncer: uma associação comprovada

31 dez 1969 às 21:33

O número assustador de obesos já ultrapassou, há muito tempo, os 800 milhões de desnutridos espalhados pelo mundo. A obesidade é atualmente reconhecida como o principal fator de risco para a ocorrência da maioria das doenças da humanidade. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, em todo o mundo, mais de 250 milhões pessoas são obesas e esse número chegará a 300 milhões, em 2025.

Sabemos muito sobre as conseqüências deletérias da obesidade. Sabemos das suas influências na mortalidade cardiovascular, na incidência de diabetes, na indução de distúrbios do sono, das doenças relacionadas ao refluxo gastro-esofágico, das doenças degenerativas das articulações e das graves distorções psicológicas que a obesidade vai causando progressivamente nas pessoas. "Mas a obesidade alcança proporções ainda mais sombrias, uma vez que diversos trabalhos científicos vêm relacionando a maior incidência do aparecimento de câncer entre as pessoas obesas, alertando-nos sobre a possibilidade da obesidade ser um possível fator causal ou predisponente para a ocorrência de doenças malignas", afirma a endocrinologista Ellen Simone Paiva, diretora do Citen, Centro Integrado de Terapia Nutricional.


A gordura corporal é formada por células chamadas de adipócitos. Até pouco tempo, essas células eram tidas como simples depósitos de gordura e destituídas de qualquer outra função em nosso organismo. "Essa visão se modificou, à medida em que passamos a conhecer as inúmeras potencialidades dos adipócitos. Hoje, sabemos, que eles podem secretar substâncias antiinflamatórias ou pró-inflamatórias, contribuindo para um estado de saúde ou de doença crônica", informa a médica.


Com relação ao câncer, há muito tempo já sabemos que animais de laboratório submetidos à restrição calórica de até 60% tem baixa incidência de câncer, em relação aqueles que são alimentados à vontade. "Em humanos, as evidências são muitas para a ocorrência do mesmo fato e os estudos chamam a atenção para fatores hormonais como os prováveis agentes relacionados à maior incidência de câncer em obesos", diz a endocrinologista.


O impacto da obesidade no câncer ginecológico


A obesidade produz um ambiente propício ao câncer ginecológico. Na mulher obesa, há excesso de hormônio feminino em relação às mulheres de peso normal, hormônio esse proveniente das células gordurosas, que pode influenciar no surgimento do câncer nos tecidos responsivos a esses hormônios, como é o caso da mama, do ovário e do útero. "Neste grupo, o câncer de ovário é a doença ginecológica mais fatal, com uma taxa de sobrevivência de cinco anos para apenas 37% das pacientes. Recentes pesquisas revelaram que entre as mulheres na menopausa, sem a reposição hormonal, as obesas detêm um risco quase 80% maior de desenvolver a doença em relação às de peso normal", informa a diretora do Citen.


Além da maior incidência de câncer ginecológico, a mulher com sobrepeso e obesidade geralmente tem maiores taxas de complicações cirúrgicas e pós-operatórias, problemas referentes à quantificação das doses utilizadas na radioterapia e quimioterapia e um prognóstico mais sombrio de suas doenças.


A obesidade e o câncer de próstata


Os resultados dos estudos com relação ao câncer de próstata ainda são muito conflitantes. Muitos deles não demonstram uma maior incidência desse tipo de câncer entre os homens com sobrepeso ou obesidade. Mas já sabemos que a obesidade pode promover o desenvolvimento de formas mais agressivas de câncer de próstata, com maiores chances de recorrência da doença após o tratamento primário, além de maiores taxas de mortalidade pela doença.


A obesidade e o câncer colo-retal


A obesidade pode estar associada a um maior risco de câncer colorretal em relação às pessoas com peso normal, na ordem de 30 a 60%. Esse tipo de câncer é o terceiro mais freqüente nos Estados Unidos e a segunda causa de morte por câncer naquele país. Após o reconhecimento da sua alta incidência, foram ampliadas as recomendações de prevenção através da pesquisa de sangue nas fezes ou por métodos endoscópicos do intestino. "Estes procedimentos devem ser feitos por todas as pessoas a partir dos 50 anos, principalmente os obesos, uma vez que se constituem em medidas altamente eficientes para o diagnóstico precoce da doença em sua fase de pólipo intestinal, quando a retirada da lesão evita a sua evolução para o câncer. A estreita correlação desse tipo de câncer com a obesidade é suficientemente forte para incentivar outras ações preventivas como aquelas relacionadas à prevenção e ao tratamento da obesidade", defende a endocrinologista Ellen Simone Paiva.


Obesidade abdominal e câncer

Esse tipo especial de obesidade está mais fortemente relacionada com o aumento da mortalidade por doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. Pessoas com distribuição diferente da gordura corporal, como aquelas com gordura localizada em coxas e nádegas, não apresentam tais complicações e são comparáveis aos indivíduos magros, em termos de saúde cardiovascular e metabólica. "As causas de diferenças tão pronunciadas em pessoas com o mesmo peso, mas com localizações diferentes da gordura no corpo, parece que se deve ao fato da adiposidade abdominal estar associada às alterações da ação da insulina, à uma certa inflamação sistêmica e às alterações das gorduras do sangue no sentido de elevação das frações deletérias do colesterol e de queda das frações benéficas", explica a médica.


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