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Imunização contra Covid

Exigência de atestado dificulta que pacientes com câncer se vacinem contra a Covid

Cláudia Collucci - Folhapress
05 abr 2021 às 10:51

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Pixabay
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A exigência de atestado médico está dificultando o acesso de pacientes oncológicos à imunização contra a Covid-19 apesar de estarem na faixa etária indicada para receber a vacina.

O alerta é de entidades de apoio ao paciente com câncer. A obrigatoriedade consta no Plano Nacional de Operacionalização da Vacina Contra a Covid-19 do Ministério da Saúde.

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Para as entidades, a exigência é desnecessária e configura uma barreira ao paciente SUS, que têm dificuldade de acesso ao seu médico. Além disso, obriga os doentes a se deslocarem até os hospitais em busca do atestado, não raro mais de uma vez, expondo-os a riscos de infecção pelo coronavírus.


A Femama (federação que reúne mais de 70 ONGs de apoio à saúde das mamas) encaminhou ofício ao ministério pedindo a suspensão imediata da medida, mas não obteve retorno.


No documento, a entidade diz que não há risco diferente observado ao imunizar pessoas com histórico de câncer e que todas as vacinas disponíveis são seguras e eficazes, inclusive para pacientes oncológicos.


"Os infectologistas são taxativos: as vacinas não utilizam o vírus vivo e, assim, não causam a doença sob hipótese alguma. Podem ser administradas em todos os pacientes imunocomprometidos com tranquilidade", diz a mastologista Maira Caleffi, presidente da Femama.


A médica afirma que nenhum outro país tem exigido o atestado. "Milhões de pessoas com câncer já foram vacinadas no mundo, e a segurança da vacina está mais do que estabelecida. Não tem por que continuar com essa exigência", diz ela.


Em sua opinião, a medida acirra as disparidades de saúde. "Pacientes no sistema privado de saúde podem conseguir com muito mais facilidade o atestado médico, enquanto usuários do SUS não possuem contato direto com o profissional de saúde que os acompanha."


Caleffi lembra que muitos podem ter que esperar meses por uma nova consulta para solicitar o documento.
Os casos das aposentadas Maria Aparecida, 84, de Porto Alegre (RS), e de Maria José, 78, de São Paulo (SP), ilustram bem o cenário. Ambas fazem tratamento de câncer de mama e só souberam no posto de vacinação que precisavam de atestado médico para receber a vacina.


Maria Aparecida estava no carro de familiares e foi levada até o hospital privado onde faz tratamento. Sua médica não estava, mas a assistente puxou o seu prontuário eletrônico e lhe entregou no atestado autorizando a vacinação. Uma hora depois, ela já estava sendo vacinada.


Já Maria José chegou com a filha de ônibus ao posto do Centro de Exposições do Anhembi. Ao saber da exigência, ficaram sem saber o que fazer. "Estava sem crédito no celular. Tivemos que voltar para casa", diz a filha Lucia Helena.


No dia seguinte, ainda sem o celular, ela foi até a clínica onde a mãe fez quimioterapia pelo SUS até o mês passado, mas o médico já tinha ido embora. Só dois dias depois conseguiu pegar o documento e sua mãe pôde finalmente ser vacinada.


Na opinião da psicóloga Luciana Holtz, do Instituto Oncoguia, é preocupante ver pacientes com câncer, dentro da idade permitida para a imunização, enfrentando barreiras para tomar a vacina.


"Se os técnicos estão inseguros, precisamos de uma nota técnica do Secretaria de Vigilância do Ministério da Saúde que esclareça isso".


Na opinião do oncologista Drauzio Varella, embora seja recomendável que o paciente consulte o seu médico antes da vacinação, a exigência de atestado médico não faz sentido porque pode, sim, dificultar o acesso à vacina.


"Os cânceres do tipo linfoma ou as leucemias estão associados a uma deficiência imunológica, então nesses pacientes a vacina pode ser contraindicada, mas no caso de tumores sólidos, como os de estômago, cabeça e pescoço e intestino, não há, de modo geral, esse problema."


O próprio plano de vacinação diz que, embora a eficácia e a segurança das vacinas contra a Covid-19 não tenham sido avaliadas na população de pacientes oncológicos, considerando as plataformas das vacinas disponíveis (vetor viral não replicante e vírus inativado) é improvável que exista risco aumentado de eventos adversos.


Ainda assim, o texto recomenda que a avaliação de risco benefício e a decisão referente à vacinação ou não deverá ser realizada pelo paciente em conjunto com o médico, "sendo que a vacinação somente deverá ser realizada com prescrição médica". O ministério não respondeu ao questionamento da Folha sobre se pretende ou não mudar a exigência.


Para o oncologista Bruno Ferrari, do grupo Oncoclínicas, é importante que o paciente tenha o aval do oncologista que o acompanha. Ele não vê a exigência como um fator limitante ao acesso, mesmo no SUS.


"Tem sido muito frequente prover o atestado. Ninguém melhor que o próprio médico para tirar eventuais dúvidas do paciente. Mas, claro, diante de uma impossibilidade [de acesso ao médico], é mais seguro tomar a vacina do que não tomar."


Para Maira Caleffi, em vez de o exigir o atestado o Ministério da Saúde deveria facilitar o acesso, priorizando os pacientes oncológicos na vacinação. Aqueles com câncer metastático, em uso de drogas orais, que estão fazendo quimioterapia e radioterapia, que terminaram o tratamento nos últimos seis meses e que estão cirurgias agendadas seriam os candidatos prioritários.


A médica lembra que a suspensão de procedimentos eletivos por causa da pandemia afastou pacientes oncológicos em acompanhamento e aqueles com suspeitas de câncer. "Com isso aumentou a possibilidade de haver mais tumores avançados por falta de diagnóstico precoce."


Para Ferrari, a queda de exames diagnósticos para o câncer causará um grande impacto ao sistema de saúde.


"Com mais casos avançados, o custo do tratamento é maior e as chances de cura também diminuem muito." Ele é autor de um estudo que identificou aumento de risco de morte de paciente oncológico infectado pela Covid-19.


Quando chegar a vez da vacinação dos grupos prioritários dos pacientes com comorbidades, como o câncer, será necessário comprovar a doença no ato da vacinação, por meio de receituário, carteira do centro de câncer ou uma declaração do médico.

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"Todos os pacientes oncológicos devem se antecipar e, na próxima consulta com o profissional que o acompanha, já solicitar um atestado médico ou qualquer outro documento que comprove sua situação", orienta Caleffi.


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