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Criança atendida pela Pastroral durante pesagem: chave para ganho de peso de maneira equilibrada é a alimentação saudável - Reprodução
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Carência e excesso

Desnutrição e obesidade, lados da mesma moeda

Chiara Papali - Folha de Londrina
31 dez 1969 às 21:33
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Uma é carência, a outra, excesso. Duas condições que, a princípio, se mostram extremas - desnutrição e obesidade - são, na verdade, dois lados de uma mesma moeda. É por conta de resultados de recentes pesquisas científicas que a coordenação da Pastoral da Criança, em Curitiba, muda a recomendação no acompanhamento da criança desnutrida em todo o País. A preocupação agora é recuperar a desnutrição até os dois anos de idade. Depois disso, é preciso mudar condutas, mesmo que o indivíduo permaneça desnutrido - pois o risco é de obesidade.

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É um mecanismo complexo, relacionado a fatores metabólicos e hormonais, segundo a nutricionista Caroline Caus Dalabona, da Coordenação Nacional da Pastoral da Criança, que explica esse delicado equilíbrio entre desnutrição e obesidade. A instituição toma como base pesquisas científicas publicadas na Revista Lancet nos últimos anos, que indicam que, depois dos dois anos de idade, aquilo que a criança deixou de crescer por conta da desnutrição é ''praticamente irrecuperável''. Com isso, continuar investindo na recuperação da desnutrição com alimentação hipercalórica fará ela ganhar peso, mas não altura. E muito peso para pouca altura aumenta as chances da criança se tornar obesa.

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''Pesquisas indicam que crianças que sofreram retardo de crescimento durante a gestação, normalmente pela falta de alimentação equilibrada da mãe, e continuam ou se tornam desnutridas nos primeiros anos de vida, têm maiores chances de se tornarem adolescentes e adultos obesos'', aponta a nutricionista.


Uma das explicações para isso, segundo Caroline, é que, com a desnutrição devido a restrição alimentar, o corpo da criança se adapta para viver em condições de escassez, e quando se oferece mais comida, ele tende a acumular excesso com mais facilidade. ''Como o organismo de uma criança desnutrida se prepara para viver com pouco peso, quando adulta, esta sofre mais com os efeitos do sobrepeso e obesidade, frequentemente causado por um padrão alimentar rico em calorias. Aumentam também os riscos de doenças relacionadas à obesidade, como hipertensão, diabetes e problemas cardíacos'', alerta.


Pesquisas mostram ainda que, mesmo que a criança consiga recuperar um pouco da altura após os dois anos de idade, com uma melhor alimentação ela tende a entrar na puberdade mais cedo. E, como ela entra precocemente em um período em que o crescimento fica mais lento, fica, de qualquer maneira, ''mais baixa'' que o seu potencial de crescimento. ''A partir dessas evidências é que mudamos a conduta da Pastoral'', informa.

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A chave para que a criança ganhe peso de maneira equilibrada e não se torne obesa, aponta a nutricionista, é a alimentação saudável. Nos novos parâmetros, então, ela deve ganhar peso acompanhando a curva de crescimento, mesmo que permaneça desnutrida. Já a prevenção da desnutrição tem se mostrado mais eficiente com intervenções cada vez mais cedo, com o acompanhamento da mãe durante a gestação.


Um novo desafio


Uma nova carteirinha com gráficos que, além da desnutrição e da normalidade, indicam sobrepeso e obesidade, é a principal mudança já sentida por coordenadores e líderes que atendem crianças através da Pastoral. ''Foi um baque'', comenta a coordenadora da Pastoral da Criança na arquidiocese de Londrina, que engloba 15 municípios, Maria Brígida Sampaio de Souza.
O impacto promete ser maior ainda agora com as novas diretrizes. Se antes o objetivo a ser alcançado era sair da linha que indicava desnutrição, agora é também lutar contra a obesidade. ''A gente sempre trabalhou com desnutrição e agora é como se tivesse um novo desafio'', afirma.


Apesar de ainda não haver números contabilizados, ela ressalta que, na prática, já se vê muita criança ''gordinha'' entre as atendidas, ''mas que não significa que estejam com saúde''. ''As crianças hoje só ficam vendo TV, não correm, não brincam na rua, e comem muito biscoito recheado, tomam muito refrigerante'', diz. Ela ressalta que, para comer bem, ''não é preciso tanto dinheiro''. ''Ter uma horta no fundo do quintal, com legumes e verduras, ajuda a suprir a necessidade de vitaminas'', opina.

Segundo Brígida, na região de Londrina, as informações sobre as novas diretrizes da Pastoral devem chegar até o meio do ano às coordenadoras pastorais e líderes. São atendidas, na região, de oito a nove mil crianças, com até seis anos de idade, em cerca de 200 comunidades.


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