As embalagens dos alimentos industrializados estão cada vez mais modernas e atraentes. Mas as inovações apresentadas nos rótulos, ao invés de esclarecer, podem confundir ainda mais os consumidores. O alerta é do cardiologista Evander Botura, especialista em diabetes e alimentação saudável. Para ele, a consequência inevitável é o aumento de problemas de saúde na população.
O médico afirma que os rótulos podem trazer o que ele classifica como "pegadinhas", ou seja, informações que não são mentirosas, mas que não representam a realidade. E cita dois exemplos: o primeiro é a embalagem do óleo de soja informar "zero colesterol", e o segundo é a expressão "gordura parcialmente hidrogenada" aparecer em alguns produtos industrializados.
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No caso do óleo de soja, Botura explica que a "pegadinha" está em acrescentar uma informação e omitir outra. "É mentira dizer que o óleo de soja tem zero colesterol? Não. É verdade. Não existe colesterol em alimento vegetal, mas o óleo de soja tem em torno de 13% de gordura saturada, aquela que faz mal, que entope os vasos; mas é evidente que quem fabrica não vai falar nisso".
E uma vez que a população está mais consciente em relação aos riscos da gordura trans, a indústria "descobriu" uma nova forma de referir ao assunto nos rótulos. "A gente tem que tomar muito cuidado quando um produto diz que é zero trans e lá embaixo aparece gordura parcialmente hidrogenada. A gordura parcialmente hidrogenada é gordura trans".
Botura justifica porque os produtos com gordura trans devem ser evitados: "Essa gordura é a pior que existe, é pior que a saturada, pelo simples fato de aumentar o colesterol ruim e reduzir o colesterol bom. A gordura trans é a mais perversa, a mais satânica - vamos dizer assim, e precisa ser combatida".
A linguagem dos rótulos
O médico reconhece que a maioria das pessoas tem dificuldade em entender os rótulos. Por isso, defende que a linguagem seja simplificada. "Nós precisamos trazer essa linguagem o mais próximo possível do dia-a-dia das pessoas. E lembrar: a gordura saturada é a que entope os vasos e a não saturada é a melhor".
Além do entendimento, outra dificuldade apontada pelo médico é a própria leitura das embalagens. "As letras dos rótulos são muito pequenas, minúsculas, quase não dá para enxergar". Ele mostra que uma porção de batata fritas tem 3,5 gramas de gordura trans, informação que nem sempre está clara no rótulo. "Se imaginarmos que a ingestão de gordura trans deve ser em torno de zero por dia, três gramas e meia é bastante; é muito", afirma.
De acordo com o médico, a incidência de gordura trans nos produtos industrializados é preocupante porque um estudo recente mostra que 10% das crianças estão com um problema identificado nos meios científicos como "sindrome metabólica", que causa diabetes e doenças do coração. "Veja, então, que este não é um problema que atinge só os adultos. As crianças também estão expostas porque comem muitas comidas rápidas que têm a gordura trans".
Mundo tem 400 milhões com diabetes
"O diabetes representa hoje uma grande ameaça à humanidade’. A afirmação do médico Evander Botura é para explicar como a doença vem aumentando de forma gradativa em todo o mundo. Ele cita números da Organização Mundial de Saúde para dimensionar o problema: existe hoje cerca de 200 milhões de diabéticos no mundo. ‘Há dados que comprovam que dois terços da população têm peso excessivo’.
Ainda citando informações da OMS, ele diz que em 2025 haverá 400 milhões de diabéticos e outros 400 milhões de pré-diabéticos no mundo, ou seja, quase um bilhão de pessoas vão enfrentar problemas de metabolismo no sangue.
E, por incrível que pareça, o aumento de diabetes é causado porque uma boa parte da população tem uma vida mais confortável atualmente. ‘Há uma combinação de dois fatores extremamente perversos: comer cada vez mais e gastar energia cada vez menos’.
Botura relaciona alguns detalhes que fazem as pessoas gastar menos energia: ‘O simples fato de que nós temos carro, elevador e escada rolante faz as pessoas se exercitarem menos. Até ter vidros elétricos no carro prejudica’.
Mas afinal, qual a relação entre diabetes e coração? ‘Não há, ainda, na população essa associação entre diabetes e coração. Mas o diabetes é uma doença essencialmente vascular; 80% dos diabéticos morrem do coração e não do diabetes em si. Diabetes e doenças cardíacas estão intimamente ligadas. Não se pode separar uma coisa da outra’, responde o cardiologista.