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Isabel Furini
Isabel Furini
15/07/2020 - 14:39
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Hoje, a tristeza veio me visitar, lembrei com muita saudade de uma amiga muito próxima, da minha adolescência e juventude. Ela era muito bonita e vivia com muito entusiasmo pela vida. Estudamos juntas até o curso superior aí, ela casou e assim ficamos mais distantes, porém eu sempre estava bem informada sobre a vida dela, assim como ela sobre a minha.

Ela era professora em duas escolas, fazia os três períodos, dizia que logo diminuiria o número de aulas, para aproveitar mais a vida em família, pois ela já tinha um bebê, porém, nunca conseguiu diminuir o número de aulas, pois outro filho nascera. O marido não dava conta de tudo sozinho, ela nunca reclamava, porém já não vivia com entusiasmo de outrora. Certa vez, viajei para a cidade dela, marcamos um café, foi maravilhoso, pudemos conversar muito e relembrar muitas coisas, que vivemos juntas. Os filhos já estavam na faculdade, mas ela ainda continuava a trabalhar nos três períodos, estava feliz, pois faltavam apenas dois anos para sua aposentadoria, tinha mil planos. Ainda gostava de falar sobre tudo. Disse-me ela, que os filhos eram maravilhosos, mas também gostavam de chamar a sua atenção quando ela falava demais à mesa, riu muito, disse-me ainda, que sentia vergonha quando pediam que ela não falasse sobre alguns assuntos, como doenças, morte e outros assuntos, porque a eles não interessava. Então ela riu e me disse:- Pior é que estes são os assuntos que me restam e acabou rindo muito, talvez para não chorar. Perguntei a ela, qual foi a atitude dela perante isso? Ela me respondeu que agora ela come junto com a família, todo final de semana, o que ela mais gosta, mas fica calada ou fala apenas o essencial. Meu peito parecia doer demais depois que ouvi a história da minha amiga, ela precisava desabafar e o fez comigo, fiquei muito triste, pois ela nem percebia o quanto estava sofrendo calada.

Houve a despedida. Fui caminhando e analisando a situação, ela, uma mãe dedicada, professora exemplar, esposa esforçada e que estava aos poucos se calando, devido à proibição velada dos filhos. Uma mulher cheia de energia, nunca deixou faltar nada a eles, ela que estava sempre de bom humor, sorria cheia de vida, estava ficando quieta, comigo ela desabafou, porém parece que ela aceitava como normal não poder falar o tanto que gostaria e participar mais da vida dos filhos, das conversas, das risadas.

Os almoços de domingo, com todos à mesa, não podiam faltar, pois era neste dia que as conversas eram divertidas e todos participavam das notícias.

E, assim passou mais um tempo, quando recebi o telefonema de que a minha amiga havia falecido. Fiquei chocada, paralisada, lembrei-me da nossa conversa, dos planos, e ela nem chegou a se aposentar. Pensei: Será que a tristeza recolhida na alma, ajudou a minha amiga a ir embora, antes de realizar seus sonhos?

Cheguei quase atrasada para o enterro, o caixão já estava sendo levado.

Chorei silenciosamente e pensei:

Conseguiram calar a minha amiga para sempre.

Será que eles têm noção disso?

Marli Terezinha Andrucho Boldori

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Marli
Obrigada, Isabel Furini por publicar minha crônica em sua coluna, neste valioso espaço do Bonde.
- 15/07/20 19:09:06
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Isabel Furini
 
Isabel Furini, escritora e educadora. Recebeu prêmios em concursos de poesia e de contos. Publicou 15 livros, entre eles: Mensagens das Flores e Ele e outros contos. Também escreve para o público infanto-juvenil. É autora da coleção "Corujinha e os Filósofos" da Editora Bolsa Nacional do Livro de Curitiba.



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