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Adriano Alves Fiore
Adriano Alves Fiore
05/05/2016 - 13:37
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"Os jesuítas tentaram unir Deus e o mundo, e só ganharam o desprezo de ambos" – Blaise Pascal (1623-1662).

"Quem pensa que sabe, não sabe
Quem sabe que não sabe, esse sim sabe" – Provérbio popular.


Ao estender o raciocínio, digo que: quem tem certeza de que não sabe, absolutamente, nada... Esse (a) sim sabe, muito mais, ainda, do que todo o mundo.

E, em se tratando da humanidade, tudo vive mudando e se transformando. Os (as) "otimistas de carteirinha" costumam gabar-se – exibir-se – dizendo que isso é "para melhor", que é "evolução e/ou modernização"... Só que tudo acaba. Exatamente da forma que começou, permanecendo sempre a mesma coisa. E a lei inexorável (porque pensamos que ela age contra nós seres humanos), simples, real, fatídica (porque, outra vez, achamos que se volta contra a gente) e fatalista do Universo, do Cosmos ou do Vazio infinito ainda traz mais complicações – insolúveis – com o desgaste natural do tempo (velhice), morte etc.

Quanto às misteriosas realidades que escapavam aos nossos sentidos: as forças, os planetas, as moléculas, as ondas, não eram senão o imenso vazio cavado por nossa ignorância e que escondíamos com palavras. Nunca a natureza nos mostraria seus segredos; ela não tinha segredos; nós é que inventávamos perguntas e fabricávamos respostas a seguir. (de BEAUVOIR, 1995, p. 317).

"O ser humano é, no fundo, um animal selvagem e temível. Nós o conhecemos somente domado e preso por aquilo a que chamamos civilização" – Arthur Schopenhauer.
"[...] Quando o bispo (da cidade de Münster, no século XVI) reconquistou a cidade, foi o profeta encerrado numa gaiola de ferro suspensa a uma das torres da catedral. Renunciei a interrogar-me acerca de tão extravagante destino. Mas pensei com inquietação: ‘Pode-se vencer a fome, pode-se vencer a peste; poder-se-á vencer os homens?’ – Todos os homens são mortais, Simone de Beauvoir, editora Nova Fronteira, p. 210."

"– Ah, mas a Ciência avança e as tecnologias produzem maravilhas!!!..."
[...] É o que se costuma anunciar por aí.
Tsk, tsk, tsk, huuummm... Será mesmo?...
"– Claro que sim, quantos remédios, vacinas e produtos modernos!!!..."
[...] É o que também, e comumente, se faz crer por aí.
Sim, e também, claro e obviamente se torna necessário, cada vez mais, encontrar recentíssimas soluções – caras e dispendiosas (novas vacinas, remédios etc.) – para combater tantos problemas psicossomáticos, doenças e vírus "novos"...

"[...] O que é muito difícil de compreendermos é o princípio dual, de tal forma estamos modelados por uma filosofia geral da unidade: tudo que vem contra ela é tido como inaceitável . Tenta-se controlar, não o que existe, mas o que, em nome desse pressuposto, não deveria existir. De minha parte, acho muito mais fascinante colocar no princípio uma dualidade irreversível, inconciliável. Opomos o bem e o mal em termos dialéticos de modo a que uma moral se torne possível, isto é, que possamos optar por um ou por outro. [...] De qualquer forma, eu considero a dualidade como a verdadeira fonte de toda energia [...] O essencial é seu antagonismo e a impossibilidade em que nos vemos de criar um mundo da ordem e ao mesmo tempo prestar contas de seu contexto total de incerteza. Isto não podemos, e isto é o mal." (BAUDRILLARD, Senhas, Rio de Janeiro: DIFEL, 2007, pp. 76 e 77).

O semioticista, sociólogo e pensador francês Jean Baudrillard (1929-2007) está certo. Criamos a mania incorrigível de associar tudo o que existe e acontece no mundo dos homens, na Natureza e no Universo ao dualismo: Bem e Mal. Que tolice infantil. O escritor ítalo-cubano Ítalo Calvino (1923-1985) chega a se divertir com isso. Em O Visconde Cortado ao Meio, na história, o populacho medievo (sujeito às maldades constantes e inacreditáveis do protagonista senhor feudal) reflete e se anima a constatar que ainda bem que só há dois princípios antagônicos. Já imaginou se houvesse mais?! O próprio Calvino vai além, em O Barão nas Árvores (São Paulo: Companhia das Letras, p. 120), ao anunciar: "[...] Depois bastou o advento de gerações desatinadas, com imprevidente avidez, gente sem amizade por nada, nem por si mesma, e tudo então mudou...".

Adão e Eva, obra de Tintoretto, de 1550
Adão e Eva, obra de Tintoretto, de 1550


Mudou então para muito muito pior e para continuar sempre a mesma coisa.
A respeito, por que não dar uma chancezinha para a Esperança ?! No filme coreano Swords on the Moon (em português: Guerreiros da Noite), os dois protagonistas – ex-combatentes aliados e grandes amigos – duelam com espadas, mas, em um intervalo de paz, confrontam-se filosoficamente. Segue o interessante diálogo:

"– Acha que pode mudar o mundo sozinho? É inútil. Desista."
"– Inútil? Talvez. Não posso mudar o mundo sozinho. Nós vivemos e morremos. É apenas uma repetição. Nada muda. Nada. Mas esperamos por um mundo melhor. Lembra-se? O povo espera uma nação pacífica. Um mundo de esperança que o nosso professor nos ensinou. Agora não tenho um mundo para o qual regressar. Isto é tudo o que posso fazer".

Retornando à história de Adão e Eva, esta tem tudo a ver com a questão do Bem. O casalzinho adâmico – que não é o primeiro a ser aclamado o ancestral da humanidade –, também, é responsável pelo motivo do Mal que se encontra geralmente correspondido aos pecados (tanto aos sete capitais quanto as suas variantes), ao inconformismo/rebeldia e à desobediência.

Em se tratando do mal, a primeira coisa com a qual nos defrontamos é que, de um ponto de vista humano, sua conceituação depende sempre do ângulo onde está o observador. – SANFORD (1929-2005), analista junguiano e padre episcopal norte-americano.

O dualismo Bem e Mal, tão fascinante e instigante. Incentor de polêmicas e consequentes atos de intolerância e violência gratuita em todos os rincões do Planeta. Já no século III e IV, por exemplo, Orígenes e Pelágio – homens teólogos de inestimável ascetismo e erudição – são sacrificados devido aos seus envolvimentos aprofundados (e sinceros) com o tema.

Orígenes, coitado, compromete a sua vida particular e social acreditando no Bem de uma maneira ampla, completa e não preconceituosa! Pronuncia que a misericórdia é algo divino e que o próprio Satanás deverá ser perdoado por Deus durante o Juízo Final. É o que se chama tecnicamente de Apocatástase, que significa "restituição à condição original" em grego. O grande teólogo alexandrino complica substancialmente a sua situação ao pressupor que Adão e Eva – livre e espontaneamente sucumbindo em sua fé – juntam-se à revolta celestial dos Anjos Caídos e a seu chefe Lúcifer por orgulho. Conclui que a fonte de todos os pecados não está na licenciosidade entre mulheres terrenas e anjos proscritos, mas na soberbia do Diabo que tenciona ser Deus. Não é, à toa, que Orígenes é raivosamente combatido enquanto vivo e, após a sua morte, é condenado por heresia em 543 e 553 no segundo Concílio de Constantinopla (STANFORD, 1996, pp. 85-86).

Pobre Pelágio! Chega a Roma por volta de 380 d.C. Para a sua infelicidade, crê que a vontade humana é completamente solta e independente, capaz de fazer o Bem e o Mal. O pecado de Adão é considerado de ordem puramente "pessoal" e não tem qualquer efeito sobre o resto da humanidade. Sendo assim, nascemos todos sem pecado. Suas ideias levam-no a ir de encontro a certas práticas, como a necessidade de batismo de crianças pequenas.

[...] Em 417, uma conferência de bispos africanos persuadiu o Papa Inocêncio I a excomungá-lo [...] O Imperador Honório, com apoio papal, exilou Pelágio de Roma, em 418, por causa de sua insistência em ensinamentos heréticos; e no XVI Concílio de Cartago, 214 bispos africanos condenaram sua doutrina [...] Um Concílio de Antioquia expulsou-o da Palestina no ano seguinte. (Dicionário da Idade Média, 1990, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 293).

Portanto, hoje, o Pelagianismo é conhecido como a doutrina do heresiarca inglês Pelágio, a qual nega o pecado original e a corrupção da natureza humana. E, a propósito, o escritor espanhol Miguel de Cervantes (via seu herói universal Dom Quixote) aponta vantagens para quem sabe dominar e assim fazer bom uso de seus naturais sentimentos: "[...] sei muito bem não haver no mundo feitiços que possam mover e forçar as vontades, como cuidam alguns palermas; o alvedrio da pessoa é livre, e não há erva nem encanto que o obrigue" (CERVANTES, 1981, p. 123).

Em suma, a realidade é que todos os indivíduos possuem a capacidade de decidir a execução de suas ações conforme as suas convicções particulares, livremente. Se as pessoas escolhem o caminho "certo" ou "errado", aí, já são outros quinhentos! O "perigo"– enfrentador de qualquer espécie de tirania e manipulação – reside na sabedoria e na consciência de cada um; não é por acaso que o famoso fruto proibido, a que se refere o Livro do Gênesis, não é o fruto da concupiscência... É o do conhecimento.

3 O relato do paraíso – A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: "Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?" A mulher respondeu à serpente: "Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte." A serpente disse então à mulher: "Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal.". (Gn 3, 1-5).

Transportando essas milenares reflexões filosóficas para o nosso dia-a-dia e para a nossa mentalidade reinante, só há o que lamentar, MUITO infelizmente. A título de exemplo – e contrastando com o blablablá televiso e pregação midiática de que tudo está cada vez se aprimorando em termos humanísticos –, vemos por toda parte: grades para proteger humanos de outros humanos em casas, condomínios (estes ainda se utilizam de muros e sofisticados aparelhos de choque) e edifícios; grades para isolar gentes da sociedade em prisões, presídios e campos de concentração; grades para proteger árvores, em desenvolvimento, nas calçadas; adesivos, sobre patentes, implorando para que não se urine no chão ou fora do vaso, para que se jogue papel higiênico (usado ou não) no cesto de lixo e para que se dê descarga após o fazimento das necessidades fisiológicas... E para completar a hipocrisia "politicamente correta" se pede para sorrir porque você está sendo filmado (a)!!!

Adão e Eva deu errado... E como!!!... Que se comece de novo... Ou não, para a felicidade da Terra e, quiçá, do Universo todo.
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Adriano Alves Fiore
 
Possui graduação em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e em Comunicação Social e Jornalismo pela Faculdade Pitágoras, Campus Metropolitana de Londrina. Como aluno especial na UEL, tem participado dos cursos de: Estudos da Linguagem (2004 e 2006), Ciências Sociais (2006) e História Social (2010). É mestre em Comunicação Visual pela UEL (2011) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2015).



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