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Adriano Alves Fiore
Adriano Alves Fiore
05/03/2009 - 00:09
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Um pouco de parêmias espirituosas pra começar.

"A verdade se torna injustiça, referindo-se às profundezas da personalidade de outro." – Mikhail Bakhtin (1895-1975); crítico literário, filósofo e semioticista russo.
"Verdade: engenhosa mistura de desejo e aparência." – Ambrose Gwinett Bierce (1842-1914); militar, correspondente de guerra e escritor norte-americano.

"Todas as mentiras juntas não equivalem a uma única verdade.
As raízes da falsidade são arrancadas com a verdade.
A verdade não tem pavor; a mentira e a falsidade não têm coragem.
A verdade é sempre sã."
– Ramon Llull (1232-1315); escritor e filósofo nascido em Palma (ilhas Baleares).
"A verdade é sempre mal recebida, o erro é acolhido de braços abertos. Qualquer um (uma) que invente uma nova imbecilidade obtém salva de palmas e se torna o dono da verdade; para as grandes massas, ele (a) é o ‘beau’ (bom) ideal da humanidade." – Henry Louis Mencken (1880-1956); jornalista, escritor e crítico (sardônico de tudo) norte-americano.

Verdade. Segundo o dicionário é aquilo que está em conformidade com a exatidão ou a realidade. Não é simples?... Antes (ao contrário)... É de lascar! Não sabemos sequer o que é real!!!
"Quid est veritas?", isto é: "O que é a verdade?". Pilatos assim perguntou a Jesus quando este lhe disse que viera para dar testemunho da Verdade. Aqui cabe outra discussão: da acepção da verdade como entidade absoluta e divina (de dimensão teológica ou religiosa), contrastando ao entendimento racional, vinculado a dados concretos de fato. O significado de verdade (e de seus dois valores clássicos: verdadeiro e falso) dá pano para mangas do tamanho da imaginação humana; não tem limite.
Os prístinos gregos – mestres insuperáveis na arte da alegoria - conferem à divindade Verdade a aparência de uma mulher modesta que traz um livro aberto em uma das mãos (Será que daí sucede a expressão: "Ser um livro aberto"?). A Verdade tem a Virtude como filha, esta é representada como outra mulher da mesma forma simples e modesta, vestida de branco e cujo porte impõe respeito; encontra-se sentada sobre uma pedra quadrada (indicando solidez) e apresenta asas abertas, significando que ela se eleva acima do vulgar.
Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) e Baruch ou Benedict de Spinoza (1632-1677) acreditavam que o homem só poderia ser considerado como um ser racional superior aos demais bichos porque dispõe do poder belo e legítimo de agir bem e devidamente, ou seja, dispõe de virtudes morais. Aristóteles (384-322 a.C.), antes do francês e do holandês citados, já ensinava à patuléia boquiaberta que: "A virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem". Baldado esforço aristotélico... O homem não aprendeu, até hoje, a fazer bom uso das virtudes (polidez, amor, fidelidade, boa-fé, justiça, gratidão, etc.).

Bierce e Mencken – duas mentes homéricas – fazem as vezes de pajens ao incomparável pensador alemão Nietzsche acerca da verdade e da sua grudenta (e incômoda) irmãzinha: a mentira.
"O homem que se gaba de só dizer a verdade é, simplesmente, um homem sem nenhum respeito por ela... (...) Para cada pilha (montão) dela, há o túmulo de um ‘bravo dono da verdade’ sobre algumas cinzas solitárias e uma alma fritando no Inferno." (Mencken.)
Deduzo que, por trás de um grande paladino da verdade, acha-se sim: um tremendo mentiroso.



...


Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extramoral,
ensaio de Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão.


Assim começa a História do Gênero Humano nietzschiana: "Havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da História Universal: mas também foi somente um minuto".
A patetice e o orgulho do homo sapiens sapiens são tão acentuados que ele acredita ser o centro e a medida do Universo. Tamanha soberba não passa de uma: "Nuvem de cegueira pousada em cima dos olhos e sentidos dos homens, enganados a respeito do significado da existência, ao trazer em si, a mais lisonjeira das estimativas de valor sobre o próprio conhecer". Conseqüentemente, tudo o que o homem – e a mulher – faz gira em torno da vaidade.
"O que sabe propriamente o homem sobre si mesmo?!..." Nada, óbvio! Ordena uma carrada de regras e procedimentos com o intuito de criar uma sensação de verdade, isto é, "(...) Uma designação universalmente válida e obrigatória das coisas..." às suas ilusões e imagens de sonho.
Qual hiena amebóide cênica, o indivíduo usa o intelecto apenas para representar, para existir no seio de seus iguais, socialmente e em jericada. Ele necessita de paz (que é tão-somente uma palavra, consoante Bierce: "Em política internacional, um período de trapaças entre dois períodos de guerra") para vegetar em seu mundo humanal regido pela sentença: "Bellum omnium contra omnes" ("Guerra de todos contra todos"), sabiamente, elaborada pelo filósofo, matemático e pensador político inglês Thomas Hobbes (1588-1679), que busca fonte inspiratória em Platão (429-347 a.C.). O filósofo grego já anunciava: "Para todas (as cidades) há uma guerra contínua contra todas as cidades".
A miseranda criatura bípede (pelo menos no tempo em que se encontra de pé) só aceita as verdades que lhe são favoráveis, agradáveis ou que lhe apresente alguma vantagem; nem sequer incomoda-se cair num logro: "Os homens, nisso, não procuram tanto evitar serem enganados, quanto serem prejudicados pelo engano... (...) Diante do conhecimento puro, sem conseqüência, ele (o homem) é indiferente...". Em face das verdades anunciadoras de desgraças inevitáveis, prefere ignorá-las, ou então, demonstrar-lhes aversão.
A raça humana divide tudo em gêneros. Vê a árvore como feminina e o vegetal como masculino. HUMPF, HUMPF, HUMPF... Que descabida petulância!!! "Acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos das árvores, cores, neve e flores, não possuímos nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem...".




"Todo conceito nasce por igualação do não-igual... (...) Desperta então a representação, como se na Natureza além das folhas houvesse algo, que fosse ‘folha’, uma espécie de folha primordial, segundo a qual todas as folhas fossem tecidas, desenhadas, recortadas, coloridas, frisadas, pintadas, mas por mãos inábeis, de tal modo que nenhum exemplar tivesse saído correto e fidedigno como cópia fiel da forma primordial...". Na Natureza não existe nenhuma igualdade absoluta, ela tampouco, reconhece formas ou conceitos, por exemplo: um mapacá-de-cametá é diferente de outro mapacá-de-cametá, e assim acontece com tudo aquilo que respira e com tudo aquilo que não tem vida. Nietzsche acusa o bípede implume (ser humano) de construir conceitos no instante em que desconsidera o "individual" e o "efetivo" (coisa que merece confiança, que se manifesta por um efeito real), inventando formas e gêneros para se referir a qualquer objeto: "(...) Não sabemos nada de uma qualidade essencial...". Em suma, o Mundo – sob a tirania dos humanóides – padece com as classificações antropomórficas de seus senhores.
A verdade, portanto, é um batalhão de metáforas, metonímias e antropomorfismos (um somatório de relações humanas); uma mania infeliz de aplicar conceitos e definições ao Mundo e aos seus inquilinos sólidos, líquidos e gasosos.
"As verdades são ilusões..." O que dizer então das "leis da verdade" sempre presentes em todas as sociedades humanas do Planeta?!?!?!?! O que dizer então dos (as) pentelhos (as) anagógicos – impregnados de êxtase divino - que visitam os lares de seus desditosos vizinhos aporrinhando-os com suas orações milagreiras ambulantes e seus exorcismos baratos?!?!?!?! O que dizer então dos encantadores de homens que com sua oratória, ainda, conseguem angariar votos que lhes legitimam poder e fortuna?!?!?!?! Todos se autoproclamando franquiados de Deus na Terra. Ditam leis, desse e de outro Mundo. Impõem regras sociais, demarcando subordinações e limites hierárquicos. Estabelecem castas, fomentando a segregação e o desprezo coletivo. Criam privilégios "inquestionáveis" para si, e, duramente, julgam e condenam todos (os) aqueles (as) – autênticos mártires – que não se rendem aos seus nefastos serviços.
"A verdade não tem importância; verdades indubitáveis, objetivas e eternas não são reconhecíveis; a verdade é sempre subjetiva." (Nietzsche.)
"A verdade é construída, manipulada." (Michel Foucault, historiador e filósofo francês.)
A mentira é um instrumento verbal empregado pelas pessoas: "(...) Para fazer aparecer o não-efetivo como efetivo...". Sua função: enganar o próximo.
A convivência manadia estabelece o compromisso de mentir (conforme convenções rígidas): "(...) Mentir em rebanho", ou seja, de uma maneira generalizada, em um estilo obrigatório para todos, seguindo hábitos transmitidos de geração a geração. Inconscientemente, o homem vem mentindo desde que se conhece por gente. "(...) E justamente por essa inconsciência, justamente por esse esquecimento, chega ao sentimento da verdade..."

... Que é uma mentira deslavada.
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Adriano Alves Fiore
 
Possui graduação em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e em Comunicação Social e Jornalismo pela Faculdade Pitágoras, Campus Metropolitana de Londrina. Como aluno especial na UEL, tem participado dos cursos de: Estudos da Linguagem (2004 e 2006), Ciências Sociais (2006) e História Social (2010). É mestre em Comunicação Visual pela UEL (2011) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2015). Membro da comissão organizadora, ministrante de minicursos e coordenador de simpósio temático do VI ENEIMAGEM (Encontro Nacional de Estudos da Imagem) e III EIEIMAGEM (Encontro Internacional de Estudos da Imagem) de 2019 (UEL). Sócio-cultural ou membro- colaborador da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina.



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