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Adriano Alves Fiore
Adriano Alves Fiore
06/07/2012 - 14:10
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Simplesmente, o envolvimento entre "nós" (o "eu"), o "outro" e o inferno – ou o que esse casamento acarreta - é sobremodo complexo e interessante. Sartre (1905-1980)1 presenteia a nossa eterna tentativa de melhor compreender e/ou buscar um sentido à vida em comum (coletiva) com a emblemática frase conclusiva de sua peça intitulada Entre Quatro Paredes.

[...] Sartre encena um inferno contemporâneo, em sua peça Entre Quatro Paredes: se somos definidos pelos Outros quando estamos vivos, por seu olhar impiedoso que revela a nossa feiúra ou a nossa vergonha, ainda podemos nos iludir com a possibilidade de que esses outros não nos vejam como somos. No inferno sartriano (um quarto de luz sempre acesa e porta fechada, no qual três pessoas que nunca tinham se visto antes terão de conviver eternamente), ao contrário, não se pode escapar do olhar do Outro e vive-se apenas de seu desprezo. Um dos personagens grita: "Abram, abram, vamos! Eu aceito tudo: as botinadas, os ferros, o chumbo quente [...] ‘Mas em vão:’ [...] Fornalhas, grelhas... Ah que piada! Não precisa nada disso: o inferno são os Outros." (SARTRE, Entre Quatro Paredes. In: ECO, História da Feiúra, 2007, p. 89).


O pavor de que outras pessoas ou outras coisas (reais ou não-reais) possam causar-nos algum mal é tão velho quanto o surgimento da convivência humana. Criam-se monstros para assustar as crianças, como o nosso bicho-papão ou o "homem de areia" (sandman) do escritor, contista e crítico de música alemão Ernest Theodor Wilhelm "Amadeus" Hoffmann (1776-1822), o qual "é um homem mau que aparece aos pequenos desobedientes (que não querem ir para a cama) jogando-lhes areia nos olhos até que estes saltem das órbitas; então ele os guarda e leva para a Lua" (ECO, p. 316).

O "medo do outro" é tão arraigado e profundo em todos os homens que suscita o hábito universal da derrisão, do escárnio. Isso significa que há uma necessidade tanto das gentes do povo como das da "elite" de se ridicularizarem mutuamente para assegurar condição social, política ou religiosa. E nada melhor do que se utilizando de ironia, que é "a brincadeira que se esconde atrás do sério e visa alguém" (MINOIS, p. 459 e 517). Muito se apregoa que o ser humano é o único bicho que tem a capacidade de rir... Tenho minhas mais inquietantes dúvidas. Volta e meia vejo sorrisos ou humores estranhamente lúdricos em cães, gatos ou em qualquer espécie de animal que apareça em programas televisivos do National Geographic ou do Animal Planet Channel!
Voltando ao "outro", a essa praga que atormenta a todos os "eus" existentes (E a reciprocidade é verdadeira!), a esse ente sempre próximo de parecença e parentesco confirmadíssimos com o inimigo ou adversário bíblico,2 abrem-se os portões da antropofagia. Portanto, o nosso admirável mundo humano não passa de uma sequência histórica de amontoados de coexistências e devorações. Mas, que não se traduza tal realidade apenas para um discurso pessimista (ou fatalista), afinal, como diz o pensador tcheco-brasileiro Vilém Flusser: "O canibalismo é o próprio mecanismo da evolução, do ‘progresso’" (2011, p. 38 e 107).

Enfim, para Sartre - e para os seres pensantes menos hipócritas que o normal - o coletivo do bicho homem, traduzido em sua forma de relacionar, ou seja, a convivência humana é o verdadeiro (e único) inferno. Um abismo assombroso que danifica a mente das pessoas alterando seus comportamentos, tanto o externo (público) como o ob-reptício (absconso e ardiloso). O tema da coexistência chama à baila a questão do bem e do mal que em posterior momento, aqui, será tratada com mais cuidado. Porém, uma "palhinha" se segue. Desde Heráclito (535-475 a.C.), fala-se em uma disposição tolerável de duas forças antagônicas universais quase tal qual ocorre na música, em que se faz mister o perfeito ajuste ou combinação harmônica final de notas opostas, isto é, graves e agudas. Os primeiros filósofos gregos, no início, importam-se apenas com o problema do universo e as leis que o controlam. "Para eles, portanto, a bondade deve ser encontrada em harmonia com aquelas leis. Mais ainda, estavam tão empolgados por essa ideia, que o próprio mal não os interessava muito" (FROST Jr, p. 88-90). Quando os filósofos mudam o seu foco de interesse para o homem, começam a questionar seriamente o modo de vida e as relações das pessoas o que suscita novas (e profundas) considerações a respeito do bem e do mal.


REFERÊNCIAS

ECO, Umberto. História da Feiúra. Rio de Janeiro: Record, 2007.

EDDIE. A famosíssima mascote do grupo inglês de Heavy Metal Iron Maiden, contribuindo com a pintura gritante de Munch. Imagem extraída do LP single The Reincarnation of Benjamin Breeg (2006), com ilustração de Melvyn Grant. Formato JPEG. Disponível em: www.maidonian-city.de. Acesso em: jul. 2012.


FLUSSER, Vilém. Vampyroteuthis infernalis. São Paulo: Annablume, 2001.

FROST JR, S. E. Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. São Paulo: Cultrix, 1961.

GRITO, O. Imagem da obra homônima do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944). Formato JPEG. Disponível em: www.wikipedia.org. Acesso em: jul. 2012.

RUSSELL, Jeffrey Burton. O Diabo: as percepções do mal da antiguidade ao cristianismo primitivo. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Dicionário de Filosofia. Dirigido por Robert Audri. São Paulo: Paulus, 2006.

OLIVER, Martyn. História Ilustrada da Filosofia. Barueri: Manole, 1998.
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Adriano Alves Fiore
 
Possui graduação em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e em Comunicação Social e Jornalismo pela Faculdade Pitágoras, Campus Metropolitana de Londrina. Como aluno especial na UEL, tem participado dos cursos de: Estudos da Linguagem (2004 e 2006), Ciências Sociais (2006) e História Social (2010). É mestre em Comunicação Visual pela UEL (2011) e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2015).



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