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O épico 'Herói' traz poesia marcial em cores líricas

Carlos Eduardo Lourenço Jorge - Folha de Londrina
01 abr 2005 às 17:24
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Reinos da China em conflito, assassinos de estilo poético, filosofia oriental, paixões não inteiramente compreendidas por nós ocidentais. Toques de caligrafia, amor, ciúme, dedicação e heroísmo.

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Tudo é parte do deleite para o paladar. Nostalgia pós-moderna. Inventiva cinemática. Escritura emocional. Intencionalidade épica. Isto e outras tantas inspirações fazem parte do arsenal sedutor de ''Herói'', penúltimo filme escrito e dirigido por Zhang Yimou - o mais recente 'O Clã das Adaagas Voadores' chega em poucos dias aos cinemas.


A trama de ''Herói'' está localizada no final do período conhecido como o dos estados combatentes, aproximadamente três séculos antes de Cristo. A China estava então fracionada em sete partes em perpétuo conflito. O rei de Qin (Chen Daoming), na região norte, aspira à unificação dos reinos. Vários mercenários vêm tentando assassiná-lo.


Os mais perigosos são Espada Quebrada (Tony Leung), Neve que Voa (Maggie Cheung) e Céu (Donnie Dien). Passam os anos. Um dia, um guerreiro que se diz chamar Sem Nome (Jet Li), conta ao rei Qin como liquidou seus três piores inimigos. Mas o soberano contraria o relato com outras versões. Quem estaria dizendo a verdade ?


Tendo como painel de fundo a unificação da China, o filme fala sobre a corrupção de ideais e dá voz ativa e empresta relevância aos heróis anônimos como o Sem Nome que narra o ocorrido.

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Amor, paixão, compromisso e valores tradicionais (artes marciais, escritura, estética, disciplina, confiança) surgem em meio a armas, danças, duelos impossíveis, flechas que cortam os ares, assassinatos e suas consequências. ''Herói'' trabalha um universo de símbolos, alguns mais óbvios, outros ocultos. E nesse contexto a estética é arma poderosa.


A narrativa, contada como episódios isolados mas interligados, com diferentes testemunhas (em manobra que evoca o ''Rashomon'' de Kurosawa), possui uma estética própria de quem vê o que ocorre, de quem entende ou explica as opções. Assim, as cores e texturas de cada momento são um narrador a mais, um sutil, detalhista e onisciente pintor.


Zhang Yimou, cujas principais obras já foram exibidas em Londrina pelo Cine Teatro Ouro Verde durante a última década (''Lanternas Vermelhas'', ''Esposas e Concubinas'', ''Nenhum a Menos'', ''Qiu Ju'' e ''O Caminho Para Casa''), não esconde as fontes onde ''Herói'' foi buscar inspiração.


Há muito de Kurosawa - além do citado ''Rashomon'' -, a inspirar o miolo da trama (um fato e quatro versões), é ainda evidente a ''mão'' do mestre japonês na planificação de algumas sequências de batalha.


Os quatro relatos que compõem o núcleo central se diferenciam entre si pelo uso das cores: vermelho, azul, branco e verde. Cada duelo entre os heróis legendários tem a sua própria iconografia. A luta entre Céu e Sem Nome poderia ter sido filmada por Sergio Leone. O combate entre Neve que Voa e Lua (Zhang Ziyi) acontece entre folhas de outono manchadas de sangue. O duelo entre Espada Quebrada e o rei de Qin utiliza imensa cortinas de seda verde como fundo móvel. O trabalho estético de Yimou supera tudo o que até agora foi visto neste tipo de filme, detalhe que acentua o caráter intimista e espiritual do conjunto.


''Herói'' pertence ao gênero do ''wu xia'', ou filme de espadachins, um comportamento medieval e guerreiro, com regras claras e uma moral digna do Antigo Testamento. Seus heróis - figura sobrenaturais capazes de desafiar as leis da física - eram solitários e errantes, sempre prontos a impor sangrenta justiça onde o cidadão comum fosse oprimido.


Tinham também um comportamento social definido, uma consciência cívica particular, mas pouco interesse político a nível geral. Sua ação justiceira era, portanto, localizada, sem compromisso com soberanos distantes, bons ou maus, mas com pouca ou nenhuma relevância para a vida desses espadachins.


Mas em ''Herói'' a coisa muda de figura e resulta em caso singular. Sem Nome participa do processo em nível macro, o que confere ainda mais fascínio e grandiosidade ao sentido épico. Para Yimou, está claro que o indivíduo, mesmo insignificante diante do poder, deve estar sempre disposto a entregar sua identidade e sua vida em favor do bem social.

''Herói'', evidentemente, não é o filme mais bonito jamais realizado, como quiseram alguns críticos. Mas com um elenco de grandes nomes como o gênero merece, e contando com um diretor de fotografia extra-série como Christopher Doyle, Zhang Yimou foi capaz de reinventar os códigos do ''wu xia'' de acordo com os princípios básicos do cinema: a cor, o movimento, a relação de seres humanos com o espaço e a maneira como esta relação determina nossa passagem pelo mundo.


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