01/10/20
Vida real

Relacionamentos sorodiferentes ajudam a quebrar estigma social

O estigma contra soropositivos é uma realidade no Brasil. Vistos como "vilões" ou "armas biológicas" por parcela da sociedade, como salienta o ativista Gabriel Estrela, a discriminação faz com que muitas pessoas vivendo com HIV acreditem estar fadadas à solidão. Paralelamente a esse cenário, no entanto, os relacionamentos sorodiferentes provam muitas vezes o contrário: que o HIV é apenas um mero detalhe na união de duas pessoas.

Os relacionamentos sorodiferentes sempre foram possíveis, mesmo antes de todos os avanços da medicina. A HQ "Pílulas Azuis" (2001), por exemplo, conta a história real do relacionamento entre o seu autor, Frederik Peeters, que é soronegativo, e sua esposa, Cati, que é soropositiva. Em um dado momento do relato, enquanto conversa com um amigo, o protagonista diz que a única diferença, se é que é uma diferença, é ter de usar preservativo nas relações sexuais. Hoje, com a comprovação científica de que soropositivos com carga viral indetectável não transmitem o vírus, além de métodos preventivos como as profilaxias pré e pós-exposição, é tudo ainda mais simples.


"Sempre gostei da Cati.. Desde há muito tempo.. Desde sempre.. E a gente se entende perfeitamente em todos os aspectos.. É o que a maioria das pessoas busca, não? Então, não vejo a mínima razão para me privar de tudo isso [sexo sem preservativo]", diz o protagonista ao amigo, na página 155 da HQ.

O ativista João Geraldo Netto, 35, recebeu o diagnóstico de HIV em 2008. Há 6 anos, ele conheceu André Moreira, 34, que é soronegativo. Pouco depois, começaram a namorar e hoje são casados e moram em Brasília (DF). A história deles já foi tema de vídeos publicados por João no YouTube – ele administra dois canais, um pessoal, que leva o seu nome, e outro chamado Super Indetectável. "A minha história com o André é igual à de qualquer relacionamento. Não tem diferença. Quando o conheci, todo mundo já sabia de mim. Uma das coisas pelas quais não passei foi a de revelar diagnóstico, porque ele sempre soube e isso nunca foi um problema. Ele é um cara muito esclarecido", contou à reportagem.

Letícia Verdi
Letícia Verdi - João Geraldo Neto, à frente, conheceu André Moreira há seis anos
João Geraldo Neto, à frente, conheceu André Moreira há seis anos


Desde que começou o tratamento, em 2012, João é indetectável. Por esse motivo, o relacionamento com André "não requer nenhum cuidado especial". João costuma, inclusive, orientar soropositivos em relação aos relacionamentos amorosos. "Sempre falo para não ficarem preocupados se uma pessoa não vai querer a outra por causa do HIV. Tem pessoas que também não vão querer a outra por causa do emprego que tem ou porque é vegana. Existem inúmeras características que vão afastar pessoas em um relacionamento. O HIV é só mais uma delas."

Luiz (nome fictício), 21, já enfrentou esse afastamento por ser soropositivo. Hoje, após três anos de tratamento e com carga viral indetectável, ele falou sobre esse assunto com a reportagem. "Tive um namoro recentemente e ele [ex-namorado] sabia da minha condição. Qualquer tosse que ele tinha, atribuía a mim [a responsabilidade], como se o soropositivo fosse uma doença ambulante", exemplificou. Esse namoro, que durou aproximadamente um ano, desencadeou problemas emocionais em Luiz, que teve de procurar ajuda psiquiátrica.

Esse relacionamento foi uma exceção, no entanto. Luiz já teve relacionamentos felizes e o fato de conhecer as pesquisas que atestam que soropositivos indetectáveis não transmitem o HIV através do sexo ajudou bastante. Aos 18 anos, quando recebeu o diagnóstico, ele tinha 2,2 milhões de cópias do vírus por mililitro de sangue. Depois de iniciar o tratamento, suprimiu totalmente a carga viral (até 40 cópias do vírus por ml de sangue) e leu a respeito do estudo Partner. "Conversei sobre isso com minha médica, que confirmou tudo, mas acho que, de modo geral, há um receio dos médicos de falar isso, um medo de desencorajar as pessoas a se prevenirem."

O médico infectologista Arilson Morimoto afirmou que a sociedade ainda enxerga as pessoas de maneira diferente com base nas condições de saúde. "Se você tiver HIV, uma tia na faixa de 60 anos vai pensar ‘minha sobrinha andou transando com todo mundo’ e não vai te visitar. Mas se você tiver câncer, ela pensará ‘tem câncer? Tadinha, leva um bolo para ela’." Segundo o especialista, para a sociedade em geral, não há problemas se uma pessoa se relacionar com outra que tem câncer terminal, mas o mesmo nem sempre acontece em relação ao HIV.
Isabela Fleischmann e Thiago Ramari/Redação Bonde
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