Nos últimos anos tem havido um crescente interesse da mídia pelos distúrbios alimentares na infância e isto pode revelar dois indícios: que está havendo uma "epidemia" destes distúrbios e que eles ocorrem cada vez mais cedo. É muito difícil comprovarmos estas hipóteses, pois estudos epidemiológicos acerca de distúrbios alimentares na infância são raros. O que pode-se afirmar com certeza é que está havendo um aumento da preocupação com pesos e dietas entre as crianças, e embora não existam evidências científicas de que esses comportamentos levem a um distúrbio alimentar, é fato que ao menos predispõem a criança a anorexia e bulimia.
Estudos apontam que ocorram de 9 a 26 casos de anorexia por 100 mil habitantes em meninas de 10 a 14 anos. Entretanto, existe uma dificuldade em se obter esses dados, pois é normal as crianças se intimidarem pela vergonha dos pais, familiares e escola ou elas mesmas e os pais não considerarem seu comportamento inadequado.
Apesar de pacientes com anorexia e bulimia apresentarem os primeiros sintomas da doença na infância ou no início da adolescência, eles geralmente só recebem tratamento no fim da adolescência ou no início da vida adulta. A anorexia e a bulimia apresentam diversas causas, com fatores sócio-culturais e eventos da vida que impactam uma personalidade vulnerável, moldada pelo ambiente familiar, juntamente a uma predisposição genética e biológica. É fundamental que pais, familiares e escola estejam atentos aos sintomas dessas doenças, pois a anorexia é a terceira doença crônica mais comum em adolescentes mais velhas, além disso, ela pode levar à morte.
Para entender a anorexia e bulimia na infância é fundamental que se compreenda como acontece o processo da formação da imagem corporal, ou seja, como a criança aprende a interpretar o que vê no espelho. A partir dos 2 anos as crianças começam a reconhecer sua imagem refletida no espelho. Essa imagem passa a expressar a sua identidade e começam a pensar sobre como os outros a vêem. Por volta dos 4, 5 anos, à medida que vão aprendendo com a sociedade conceitos como "atraente" e "não é atraente", passam a projetar a imagem de como o corpo deve ou não deve ser. Dessa maneira, começam a julgar sua própria aparência conforme os padrões sociais de beleza e os resultados disso afetam o sentimento de autovalor.
À medida que a criança se aproxima da puberdade, ela acaba sendo mais exposta a esses padrões, em especial as meninas, e se preocupam mais com as formas de seu corpo. As novelas para adolescentes e pré-adolescentes reforçam o padrão de beleza; revistas voltadas à esse público fazem o mesmo, inclusive fornecendo informações sobre peso e beleza. Para reforçar essa imagem, seus ídolos, as cantoras, atrizes e modelos, são magras. Estudos mostram que meninas de 8 a 11 anos se comparam às modelos e outros símbolos venerados pela mídia e se sentem mal com a comparação.
Acredita-se que a família também tenha uma participação importante no desenvolvimento e manutenção dos distúrbios de imagem corporal e transtornos alimentares. Nas famílias de portadores dessas patologias, percebem-se problemas nas áreas de comunicação e relacionamento do casal, superproteção dos filhos, crenças e atitudes alimentares inadequadas, como atrelar valor pessoal a magreza, que são passadas aos filhos direta ou indiretamente.
Para se diagnosticar estas doenças é necessário prestar atenção no comportamento da criança. É comum a criança com anorexia apresentar baixa auto-estima, comportamentos obsessivo-complusivos, busca por controle e dificuldade na conquista da independência, ansiedade e depressão. As crianças anoréxicas costumam ter um vasto conhecimento sobre as calorias dos alimentos, têm muito medo de engordar ou parecer gorda, e podem apresentar dor abdominal, náuseas, perda de apetite e dificuldade de engolir.
A criança com bulimia geralmente apresenta peso esperado para a sua faixa etária e muita ansiedade. Os comportamentos mais comuns são episódios de superalimentação, com falta de controle sobre a quantidade de comida ingerida, seguidos de medidas compensatórias - exercícios físicos em excesso, jejum, vômito. Além disso, existe uma preocupação mórbida com peso e o corpo, possibilidade de uso de diuréticos e laxantes e comportamentos auto-lesivos como queimar-se, cortar-se, usar álcool ou drogas. A doença é mais comum entre meninas do que em meninos e na infância parece ser mais rara que a anorexia, embora jovens adultos que sofrem com a bulimia relatem a ocorrência de sintomas desde o início da adolescência.
O tratamento da anorexia e da bulimia deve ser feito por uma equipe interdisciplinar composta por pediatra, psiquiatra, psicólogo e nutricionista. A terapia familiar também é indispensável para auxiliar os pais a compreenderem o que está acontecendo e ajudá-los a estabelecer limites. O mais importante é o tratamento ser iniciado rapidamente para estancar a perda de peso e o quadro de desnutrição, no caso da anorexia, e extinguir os vômitos, no caso da bulimia, evitando maiores prejuízos físicos, emocionais e sociais.
*Por Talita Lopes Marques é psicóloga especialista em transtornos alimentares e obesidade.