Estudo realizado pela Universidade de Harvard nos Estados Unidos aponta: homens que consomem uma porção de comida à base de soja em dias alternados podem ter o número de espermatozóides reduzido pela metade.
Nesta entrevista à Folha de Londrina, o urologista Horácio de Alvarenga Moreira comenta o resultado da pesquisa e explica quais os fatores que realmente podem atrapalhar a fertilidade masculina.
Existem mesmo alimentos que podem interferir na fertilidade?
Existem muitas variáveis, desde fatores emocionais até nutricionais. Já sabemos que os derivados da soja, as isoflavonas, são fitohormônios. Tanto é que mulheres na menopausa fazem a opção por não usar hormônio e se utilizam de alimentação à base de soja, mostrando o seu efeito estrogênico. Na formação dos espermatozóides, a ação do hormônio sexual masculino, a testosterona, é fundamental. Se você aumenta o estrogênio, hormônio feminino, tem uma resposta do hipotálamo com a diminuição do hormônio masculino, e com isso pode comprometer a formação dos espermatozóides. A dosagem de hormônio feminino contido nesses alimentos é muito pequena. Você precisaria de uma quantidade de alimentos muito grande para ter uma interferência na espermatogênese que fosse significativa.
Qual a opinião do senhor sobre a pesquisa feita em Harvard, que apontou redução na produção de espermatozóides com o consumo de soja?
Eles avaliaram que existe uma queda no número de espermatozóides, mas não existe alteração na motilidade ou na qualidade desses espermatozóides. Considerando os países que já têm como hábito na alimentação o consumo de derivados da soja, como Japão e China, não tem sido registrados índices de fertilidade menor que os do ocidente.
Quais as doenças mais comuns que afetam a fertilidade?
Temos a varicocele, que nada mais é do que varizes na bolsa escrotal, causas hormonais, tumores de hipófise, doenças genéticas, tumores de testículos. O que se estuda muito hoje na infertilidade são os efeitos da emoção. Existem estudos mostrando que se hoje você sofre uma situação de estresse muito grande, os seus espermatozóides daqui a 90 dias serão péssimos.
Qual o índice de homens inférteis?
Entre os casais, 10% são inférteis. Desses casais, 40% é responsabilidade do fator masculino. Outros 40% é responsabilidade do fator feminino. E os 20% restantes são dos dois fatores, ou seja, uma pequena contribuição feminina e uma pequena contribuição masculina.
Existem medicamentos que podem afetar a fertilidade?
Existem. Toda manipulação hormonal pode interferir na fertilidade. A finasterida, como é recomendada para o tratamento da queda de cabelo, é uma dose muito baixa e a probabilidade de interferir na fertilidade de um indivíduo normal é muito pequena. Já quando se usa uma dose mais elevada, acima de 5 miligramas por dia, a chance de existir uma interferência na espermatogênese é maior. Existem medicamentos que se usa para a próstata, como os alfa-bloqueadores, drogas que promovem um relaxamento da musculatura da próstata, permitindo que o indivíduo tenha o que se chama de ejaculação retrógrada, ou seja, ao invés dos espermatozóides irem para a frente, eles voltam para a bexiga. Isso leva à infertilidade também. Ainda há o uso de antidepressivos. São drogas que podem interferir na espermatogênese, levando até à aspermia, ou seja, a ausência de espermatozóides. Quando você retira essas drogas existe uma tendência à espermatogênese em voltar à normalidade.
Tem algum fundamento nas crenças populares?
O testículo fica fora do corpo para que ele tenha um grau menor do que a temperatura corpórea, porque é a temperatura ideal para que ocorra a formação dos espermatozóides. Se você trabalha em fornos, recebe um calor muito grande na região escrotal ou usa roupas realmente apertadas, que aquecem a região, poderia ter uma interferência. Andar de motocicleta, cavalo, teoricamente não influencia na espermatogênese.
Um homem que já teve um filho pode ter problemas de fertilidade?
É possível. Tem uma série de situações em que isso pode ocorrer. Estresse, uso de medicamentos, podem interferir na fertilidade. E também tem as pessoas que se submeteram à vasectomia. Cada vez mais se procura o médico para reverter a esterilidade programada. Quanto mais tempo se passou que se fez a vasectomia, diminue a chance de você ter uma espermatogênese normal.