Nutrição

Seu filho pode gostar de legumes e verduras

31 dez 1969 às 21:33

Fazer com que as crianças tenham uma alimentação saudável nunca foi tarefa fácil. E hoje, com todas as junk foods e propagandas incentivando o consumo de alimentos ricos em calorias, gorduras e açúcar, a missão dos pais está ainda mais complicada.

No livro A Verdade sobre a Comida, da inglesa Jill Fullerton-Smith (Editora Intrinsíca), um capítulo inteiro orienta os adultos sobre como oferecer alimentos saudáveis às crianças e levá-las a ser consumidoras constantes de hortaliças, frutas, legumes e grãos integrais.


Somente na Grã-Bretanha, um estudo feito em 2004 mostrou que 19% da garotada, entre dois e 15 anos, estão obesas. Levando em conta que as chances de uma criança obesa se transformar um adulto obeso são grandes, a possibilidade dessa criança apresentar problemas de saúde como diabetes, pressão alta e doenças cardíacas na idade adulta são também grandes.


A combinação pouca atividade física e alimentação rica em doces, sanduíches e outras guloseimas é a grande responsável pelo ganho de peso dos pequenos. Além disso, a não ingestão dos nutrientes encontrados em frutas, hortaliças e legumes pode comprometer o desenvolvimento das crianças. Mas como criar nelas o gosto por alimentos saudáveis?


De acordo com a autora, o ideal é começar essa introdução já na gestação. Isso porque pesquisas mostram que desenvolvemos nossas preferências de paladar quando ainda estamos no útero. Um estudo feito em 2001 pelo Monell Chemical Center, na Filadélfia, mostrou que filhos de mães que comeram cenoura durante a gestação e amamentação aceitaram melhor o legume quando esse foi introduzido na alimentação. Apresentar alimentos saudáveis para os pequenos também é uma boa maneira de eles aceitarem esse tipo de comida quando forem maiores.


Mas se as crianças já não são mais bebês e adoram sanduíches e outras bobagens, ainda está em tempo de virar o jogo. Com um pouco de psicologia, a autora garante que é possível influenciar o gosto dos pequenos. Até porque a aceitação das crianças aumenta quando elas vêem as pessoas ao seu redor comendo alimentos saudáveis. O exemplo do pai, da mãe e dos irmãos é fundamental para incentivar os menores a se aventurarem pelo mundo das verduras e legumes. Para a maioria das crianças, experimentar o novo é algo desafiador. Ver que os adultos comem brócolis com prazer, por exemplo, lhes dá coragem de também tentar.


Outro dificultador da tarefa dos pais são as papilas gustativas. Quando nascemos temos cerca de dez mil papilas gustativas, quando envelhecemos esse número cai para três mil. No entanto, 30% dos indivíduos nascem com três vezes mais papilas gustativas. São os chamados superdegustadores, que têm mais tendência a não gostarem de sabores fortes ou desconhecidos de alguns vegetais.


Apresentar os alimentos aos poucos e sem grandes pretensões é outra maneira de usar a psicologia na hora das refeições. A autora ensina os pais a apenas incentivar os filhos a cheirarem e tocarem um alimento novo, enquanto os adultos e outros membros da família o saboreiam com prazer. Sem tanta pressão, as crianças desenvolvem a curiosidade sobre o alimento. As pesquisas mostram que são necessárias oito ou mais exposições para que os pequenos aceitam o alimento. É importante também dar dias de intervalos entre uma tentativa e outra.


Oferecer recompensas pode ser uma boa tática para estimular os pequenos, mas os prêmios não podem ser dados em comida. Dar um pedaço de bolo caso o filho coma um prato de salada reforça, segundo Jill, a idéia de que hortaliças são desagradáveis e devem ser ingeridas por obrigação. O melhor é dar às crianças um brinquedo ou um passeio.


Esconder doces e outras delícias na esperança de que os filhos não os desejem é outra grande ilusão. Quanto mais proibida, mais desejada é a comida, segundo pesquisas feitas pela Pennsylvania State University, nos Estados Unidos. Como deixar as guloseimas ao alcance das mãos também não é uma boa estratégia, a autora ensina os pais a explicarem para os filhos que bolos, salgadinhos e bebidas açucaradas não são bons para a saúde e devem ser consumidos com cautela.


Assim, como tudo o que é relacionado à educação das crianças, incentivá-las a comer produtos mais saudáveis leva tempo e exige paciência, mas vale a pena. Tanto os bons como os maus hábitos alimentares perduram para a vida toda e podem definir a saúde delas no futuro.


Comer de tudo é possível
A pequena Elis Caetano Fernandes, 4 anos, é o sonho de qualquer mãe na hora de se alimentar. Sem problema nenhum, ela devora um prato de salada com tudo o que tiver nele. ''Elis sempre foi assim. Na verdade, meu problema é fazer com que ela coma arroz e feijão. Ela come verduras, legumes e frutas durante a refeição e também nos lanches'', afirma a mãe, a instrumentadora cirúrgica Fabiele de Oliveira Caetano.


Ela conta que, com dois anos, a filha já era conhecida na escola como Dona Salada. ''As professoras a chamavam assim porque ela era a única criança que comia a salada na hora do almoço. E isso aconteceu naturalmente, nunca forcei a Elis a comer nada. O pediatra dela foi quem me ensinou a não forçar nada e oferecer de tudo. Elis sabe que é importante comer verduras e legumes para crescer forte e bonita'', diz.


E os efeitos da boa alimentação aparecem no organismo da menina. ''Ela nunca fica doente, não tem gripes, febres ou outras doenças de criança. Também não preciso me preocupar com a questão do peso, ela é bem magrinha. A Elis não liga muito para bobagens. Ela até come salgadinho e doces, mas bem pouco e só de vez em quando'', garante.


Na casa da funcionária de hotelaria Eliane Souza Santos do Prado, a hora das refeições também transcorre sem nenhum problema. Os dois filhos menores, Jeniffer Gabrielle, 9 anos, e Kauan Rodrigues, 3 anos, são devoradores de saladas. ''Eles fazem algumas restrições, mas muito poucas. O Kauan só não gosta de cebola e alface e a Gabi não come quiabo'', afirma a mãe.


Segundo ela, o exemplo dos adultos e as dicas do pediatra foram fundamentais para a educação dos filhos. ''Tenho uma filha mais velha que não come muita salada porque, quando era criança, eu deixava ela comer muita bobagem. Com os dois menores, o médico me ensinou a fazer papinha sem misturar os ingredientes e tentar várias vezes. No início,não aceitavam, mas eu insistia porque sei que é bom para eles'', comenta Eliane.

Como ela e o marido têm uma alimentação saudável, fica mais fácil convencer as crianças. ''Na minha casa todo mundo come de tudo, mas não obrigo a comer o que eles não querem. Bobagens são só para o fim de semana e não compro doces nem bolachas para guardar em casa. Meus filhos estão no peso ideal e são crianças saudáveis. Isso é o mais importante'', diz. (H.F.)


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