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A Padaria da Rua China

18 ago 2016 às 08:55
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Nota do inconsequente autor: a vontade de escrever fez com que eu cometesse a ousadia de tentar a ficção. Produzi um míni-conto. Compartilho com os amigos.

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A Padaria da Rua China

"Encontre-me amanhã, às dez, na padaria da Rua China." Tudo começou quando eu iria sair para encarar a semana, numa segunda de manhã, e encontrei este bilhete, sob a porta do meu apartamento.

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A ordem foi escrita utilizando a velha tática de recortar palavras de revistas, colando-as em seguida em uma folha de papel, evitando revelar a caligrafia do remetente.


De forma automática, parti para indagações e conclusões. Quem escreveu isso? Por que não utilizou um computador e uma impressora? Por que não mandou mensagem pelo celular? Coisa de mulher. Um homem não seria tão caprichoso a ponto de recortar vírgulas e até uma crase.


Que mulher? Desde que terminei com a Ana, já faz sete meses, não dei em cima de ninguém. Relaxei. A barriga aumenta dia a dia. Só o Geraldo poderia responder.

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Geraldo é o porteiro do prédio. Nada lhe escapa. Sabe quem foi ao médico. Quem tem amante. Tem na ponta da língua o time de coração de cada morador e a escalação da Seleção Brasileira da Copa de 1970. Félix, Brito, Clodoaldo e Piazza; Carlos Alberto, Everaldo, Gérson e Rivellino; Tostão, Pelé e Jairzinho. De tanto, ele repetir, decorei. Eu que nem nascido era em 1970. Sou de 76.


Justo naquele dia, Geraldo, infalível em sua função de vigiar entradas e saídas, havia faltado. Fora ao dentista. Zilda, a zeladora, ficara encarregada de substituí-lo. Eu a encontrei a vinte metros da portaria, distraidamente conversando com transeuntes. O portão estava aberto para quem quisesse entrar e sair. Desisti de questioná-la.


Sou repórter. Trabalho na editoria de cultura de um jornal regional. Escrevo sobre literatura, música, teatro. Não tenho inimigos, mas tenho cinco ex-namoradas. Nenhuma delas me mandaria um bilhete. As duas que ainda falam comigo são objetivas. Aline classifica-me como um insensível; Vanessa prefere o adjetivo egoísta para me definir.


Aquele bilhete era uma coisa idiota. Mesmo assim, ocupou a minha cabeça durante toda a manhã de segunda. Avisei a chefe que chegaria ao meio-dia na terça.


Acordei cedo na terça-feira. Tomei banho. Fiz a barba. Escolhi uma camisa preta, para atenuar a barriga. Nutria uma pequena esperança de que a autora fosse a Ana, implorando-me para reatar.


A padaria da Rua China leva o nome de "Pão Gostoso". Fica a três quadras de casa. É pouco frequentada. Antes de entrar, passei em frente, a pé, devagar, para espiar. Havia uma faixa de "sob nova direção" pendurada na marquise. Lá dentro, cinco fregueses. Nenhuma mulher. Concluí que ela, seja lá quem fosse, não havia chegado.


Entrei, fui ao balcão, pedi um café. Fiquei sorvendo-o sem pressa. Quinze minutos depois, nada. Passei a espreitar os demais fregueses. Todos também tomavam apenas um café, lentamente. Desconfiávamos uns dos outros.

Foi neste momento que surgiu, de trás do balcão, um senhor vestindo paletó e gravata, com cabelos e bigodes tingidos de preto. Sorriso largo e voz ampla. Foi direto ao ponto. "Creio que todos os senhores vieram por causa dos bilhetes, né? Excelente estratégia para angariar fregueses para minha nova padaria."


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