04/06/20
22º/12ºLONDRINA
Wilhan Santin
Wilhan Santin
06/02/2017 - 09:03
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Crônica

Passei a semana em São Paulo, trabalhando. A volta para Londrina, ontem, foi de avião, via Congonhas. É praticamente impossível um voo de Congonhas para a minha terra não atrasar. Por isso, fiquei verdadeiramente surpreso quando fomos chamados no horário correto para o embarque.

Mas a alegria durou pouco. Depois de todos devidamente acomodados, ficamos mais de uma hora esperando dentro da aeronave, que não se movia. Quando o tédio, as indagações e a revolta começavam a tomar conta do ambiente, o chefe se manifestou pelo sistema de som.

"Com vossa licença, senhores passageiros, aqui fala o comandante. Tivemos um problema com o tráfego no aeroporto. Por isso, nossa decolagem, que acaba de ser autorizada, atrasou. Vamos iniciar agora os procedimentos para seguir com destino a Londrina e vamos tentar recuperar, na nossa rota, parte do tempo perdido."

Lá do fundo, um homem gritou. "Não! Vá na velocidade normal." Formou-se um burburinho. O avião começou a se movimentar rumo à pista para decolar.

Eu estava na poltrona 4A, janela, tentando me concentrar na leitura de um livro sobre a Operação Lava Jato. Na 4B, à minha direita, estava uma moça linda, de cabelos pretos e olhos verdes, aparentando ter entre 22 e 26 anos. Na 4C um senhor, de paletó e gravata, com cara de deputado. Pelo jeito, ele e a moça não se conheciam. E eu não conhecia nenhum dos dois. Aliás, ambos nem olharam para a minha cara quando se sentaram, apesar de eu abaixar o livro na intenção de esboçar um sorriso.

Quando o piloto aumentou a velocidade para decolar, a moça, surpreendentemente, me fez um pedido: "Você pode segurar a minha mão?"

Respondi que sim, claro, sou um cavalheiro. Coloquei a minha mão direita sobre a esquerda dela. Mas a morena de olhos verdes entrelaçou os dedos nos meus, como fazem os namorados. Fiquei constrangido. Sou casado. E se algum conhecido vê a cena?

Imaginei que, passado o momento mais tenso da decolagem, ela deixaria livres meus dedos, minha mão e minha consciência. Eu estava enganado. Ela continuou segurando firme, mesmo depois de a aeronave se estabilizar completamente. Eu teria de ser indelicado e pedir à vizinha de poltrona que soltasse a minha mão, mas ela fechou os olhos e ficou imóvel, como quem dormia.

Eu sequer conseguia voltar a ler o meu livro, já que era difícil sustentar as quase 400 páginas só com a esquerda. Na hora me recordei de uma crônica do grande Rubem Braga, chamada "Lembrança de um braço direito", escrita em 1948, na qual ele narra o fato de segurar a mão de uma desconhecida senhora no avião. Cheguei a duvidar que aquilo estava acontecendo comigo. Mas estava.

Deixei a minha mão presa relaxar completamente e fui fazendo o movimento de soltá-la. Mas a linda garota apertou-a com mais força. Aquilo não podia ser medo! O voo seguia tranquilo, sem turbulências. Certamente também não era qualquer tentativa dela de tirar uma casquinha da minha mão. A menina mal havia olhado para a minha cara. Concluí que talvez ela só quisesse algo que lhe transmitisse segurança. Mas continuava constrangido.

Passei a depositar minha esperança no momento do serviço de bordo, quando viriam oferecer água, suco, refrigerante e um pouco de amendoim. Eu aceitaria tudo e desvencilharia a minha mão. Mas a companhia aérea está cortando gastos e não oferece mais nada em voos curtos.

Quando notei que as aeromoças não se moviam para começar a servir, soltei da mão dela de um jeito até grosseiro, puxando mesmo. A moça de mão delicada, unhas vermelhas e nenhuma aliança não abriu os olhos. Peguei o livro e praticamente enfiei a cara nele.

Menos de dez minutos depois – o voo todo entre São Paulo e Londrina tem cinquenta minutos – o comandante anunciou: "Tripulação, pouso autorizado." Ela abriu os olhos e voltou a pedir, com voz angelical. "Segura a minha mão de novo." Como eu poderia negar?

Quando os pneus do avião tocaram o solo londrinense, estávamos de mãos dadas. Soltei rapidamente. Ela não disse nada. Levantou-se, sem nem um tchau, e entrou na tradicional fila de desesperados que querem descer antes mesmo que a porta se abra.

Fiquei observando todos que iam descendo. Felizmente, ninguém conhecido estava no voo. Fui o último a sair. Quando cheguei ao saguão de desembarque, a esteira com as malas estava começando a rodar. Ela não estava ali. Não devia ter bagagem. Já havia partido. Não ganhei sequer um obrigado pelo calor da minha mão direita. Mas ganhei tema para uma crônica. Igual o Rubem Braga. Que orgulho.


A crônica acima é integrante da coletânea "Notícias Incomuns: e outras crônicas escolhidas", livro de autoria deste repórter. Custa entre R$ 10,00 e R$ 15,00 e está à venda nas Livrarias Curitiba (Shopping Catuaí); Livraria da Sílvia (Rua Belo Horizonte, 900); Banca Rodeio (Calçadão, ao lado do Restaurante Rodeio), Banca do Tito (Centro Comercial da Rua Piauí) e Banca Goiás (Rua Goiás com Pernambuco).
COMENTÁRIOS
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Wilhan Santin
 
Wilhan Santin é jornalista. No blog, publica textos sobre bastidores de reportagens das quais participou (ou ainda participa), algumas matérias jornalísticas e tenta escrever crônicas. Nem sempre consegue. Aceita críticas, sugestões e elogios, desde que sinceros. Boa leitura.



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