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Wilhan Santin
Wilhan Santin
03/02/2017 - 13:32
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Sempre me chamou a atenção a criatividade que o brasileiro tem para dar nomes aos seus municípios. Por isso, gastei horas percorrendo a lista do IBGE com as 5.565 cidades do País.

Grande parte dos topônimos são homenagens a santos e santas. Mas também abundam os nomes indígenas e as homenagens a militares, como generais e coronéis, e, claro, políticos. Tem muitos municípios que levam os nomes de ex-presidentes, ex-senadores e ex-governadores.

O estado campeão de homenagens aos figurões é o Maranhão, reduto de José Sarney e seu numeroso clã, onde cinco ex-presidentes da República e cinco ex-senadores são homenageados.

Existe até uma cidade chamada Presidente Sarney, na qual vivem 18.615 sarneyenses. É o município brasileiro com o pior Índice de Bem-Estar Urbano, segundo levantamento do Observatório das Metrópoles, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Emblemático, não?

Meu amigo Eduardo Anizelli, repórter fotográfico da Folha de S. Paulo, esteve lá. As fotos que ele fez, com olhar apurado, mostram uma pobreza de espantar.

Mas nós gostamos também de emprestar nomes que homenageiam estrangeiros. No próprio Maranhão, está Nova Iorque, cidade fundada em 1871 por um certo Eduardo Burnet, homem vindo dos Estados Unidos, e que resolveu homenagear a terra natal.

Em Minas Gerais, tem Catas Altas da Noruega. Catas significa lavras, que era o sistema primitivo para explorar o ouro, abundante por ali no século dezenove, quando os bandeirantes chegaram. Porém, Noruega ninguém sabe ao certo porque faz parte do nome da cidade. Talvez seja por causa das montanhas úmidas da região, que, com boa vontade, lembrariam o país nórdico. Os catas-altenses são 3.652. Não consta que haja qualquer norueguês entre eles.

A Ásia está bem longe, mas no Pará tem 100.300 tailandenses. São todos moradores da cidade de Tailândia. De acordo com o IBGE, por causa dos conflitos por posses de terras que ocorriam na região, em 1978, quando foi fundado o município, um tenente da Polícia Militar sugeriu o nome do país asiático em referência aos conflitos bélicos que estavam ocorrendo por lá na mesma época. E não é que aceitaram!

E o que dizer de Buenos Aires, que fica em Pernambuco? Em 1842, o padre Manoel Gonçalves da Silva, que passara um tempo trabalhando na Argentina, foi designado para levar o cristianismo a um engenho de cana-de-açúcar do estado nordestino. Como achou o clima do local parecido com o de Buenos Aires (!), sugeriu o nome da cidade portenha para o engenho, que depois virou município. Por isso, temos 13.050 buenairenses pernambucanos.

No Norte do Paraná, há a cidade de Califórnia. O fundador da cidade, Alberto Duplessés, concluiu que havia ali muitas semelhanças com a Califórnia dos Estados Unidos.
Em São Paulo, existe um município chamado Colômbia. Pesquisei bastante, mas só consegui descobrir que dar o nome do país da Shakira para a cidade foi ideia do pessoal da companhia ferroviária, quando inauguraram, em 1928, uma estação de parada. A cantora, obviamente, não era nascida. Mas antes de se chamar Colômbia, o lugar tinha o nome de Porto Cemitério. Melhorou, né?

Deixando de lado as referências estrangeiras, descobri que temos também uma predileção pelas antas nos momentos de dar nomes para as nossas cidades. Não me deixam mentir os 19.382 antenses, da cidade de Antas, na Bahia. O IBGE nada explica, mas o site do município dá uma razão óbvia para o nome que carrega: os primeiros moradores do lugar ali encontraram muitas antas.

O povo de Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, também se impressionava com as antas. Certo dia, no comecinho de século vinte, mataram uma que estava bem rechonchuda, no lugar que viria a se tornar município e que se chamaria, adivinhe, Anta Gorda. Os anta-gordenses hoje são 6.216. E nenhum deles mata antas. É crime ambiental.

Braço do Trombudo, em Santa Catarina, também é uma homenagem ao bicho que é o maior mamífero da América do Sul. Ocorre que as antas tem pequenas trombas, de até 17 centímetros, no lugar dos lábios superiores. Como elas abundavam no Rio Itajaí-Açu, que passa pela região, nada melhor do que dar à cidade o lindo nome de Braço do Trombudo. Os braços-trombudenses que moram no município somam 3.682 almas.

Falando em almas, há também os lugares de nomes deveras curiosos, como Almas, no Tocantis. Os almenses são 7.340. O início da colonização se deu no século dezoito, quando surgiu o Arraial São Miguel de Almas. No momento da transformação em município, o pessoal cortou o São Miguel. Sobrou apenas Almas.

Resumindo os municípios com nomes exóticos, no Rio Grande do Sul temos Não-Me-Toque; no Rio Grande do Norte, Touros e Feliz; e, no Mato Grosso, Feliz Natal.

E, se o brasileiro é lúdico, como diria José Simão, até uma cidade cujo nome tem certa originalidade, caso da mineira Uberlândia, que significa "Terra Fértil", na era da modernidade, dos aplicativos de telefones celulares, virou motivo de piadinhas. Há uma circulando nas redes sociais dizendo que a progressista cidade é a mais odiada pelos taxistas.

A crônica acima é integrante da coletânea "Notícias Incomuns: e outras crônicas escolhidas", livro de autoria deste repórter. Custa entre R$ 10,00 e R$ 15,00 e está à venda nas Livrarias Curitiba (Shopping Catuaí); Livraria da Sílvia (Rua Belo Horizonte, 900); Banca Rodeio (Calçadão, ao lado do Restaurante Rodeio), Banca do Tito (Centro Comercial da Rua Piauí) e Banca Goiás (Rua Goiás com Pernambuco).
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Wilhan Santin
 
Wilhan Santin é jornalista. No blog, publica textos sobre bastidores de reportagens das quais participou (ou ainda participa), algumas matérias jornalísticas e tenta escrever crônicas. Nem sempre consegue. Aceita críticas, sugestões e elogios, desde que sinceros. Boa leitura.



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