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Wilhan Santin
Wilhan Santin
13/06/2016 - 11:04
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Foto: Wilhan Santin
Foto: Wilhan Santin

Wilson Barbosa Silva, 55 anos, é um ensacador aposentado. É casado há 24 anos com dona Ana, pai de três filhos e avô de três netos. Estudou apenas até a quarta série porque teve que começar a trabalhar aos doze, como engraxate, para ajudar na renda familiar. Depois, foi vendedor de jornais até ingressar, aos dezoito, na profissão pela qual se aposentaria. É um pacato cidadão.

Mas tal qual os heróis de revistas em quadrinhos, tudo o que está descrito acima é a identidade secreta de um personagem que aparece nos dias em que o Londrina Esporte Clube entra em campo no Estádio do Café. Silva veste paletó e gravata para se transformar no Luxemburgo londrinense. É uma atração à parte.

Vamos a campo.

Está para começar o jogo contra o Vila Nova, em uma gelada tarde de um sábado junino. É a oitava rodada da Série B do Campeonato Brasileiro e Silva, ops!, Luxa já se posicionou no espaço entre as cadeiras da arquibancada coberta e o muro que impede os mais afoitos de invadirem o gramado.

Os jogadores do Londrina estão entrando em campo e ele solta o verbo. "Quero que joguem por vocês, pelas famílias de vocês. E se alguém tiver sem vontade, pode avisar. Eu tenho opções no banco". Fala sempre como se ele e não Cláudio Tencati, treinador do LEC há cinco anos, fosse o responsável por escolher os onze titulares que começam a partida.

Até 2010, Silva era um torcedor "comum". Apaixonado pelo Londrina desde garoto, quando as arquibancadas do velho Vitorino Gonçalves Dias ainda eram de madeira, sempre acompanhou o time.

Por isso, quando nasceu a neta dele, Carolaine, em 2011, decidiu que daria uma roupinha de bebê com o distintivo do Tubarão para a menina. Procurou em diversas lojas da cidade e nada. Nem camisa para adulto do clube ele encontrava. Em um estabelecimento de artigos esportivos, o vendedor o atendeu debochando: "Londrina? Esse time nem existe mais. Acabou".

O avô entusiasmado que queria dar um presente para a neta voltou para casa abatido. "Fui discriminado", ele diz cinco anos depois, ainda magoado.

Naquela ocasião, o Londrina estava na Segunda Divisão do Campeonato Paranaense e não tinha vaga nem para a Série D do Campeonato Brasileiro. Era o primeiro ano da parceria com a SM Sports.

"Cheguei triste de volta a minha casa. Abri o guarda-roupa e vi meu terno. Foi ali que pensei: se não tem camisa do Londrina para vender, vou ver o time de paletó e gravata, elegante, igual o Vanderlei Luxemburgo", rememora.

Silva vestiu a roupa e mergulhou no personagem. Durante as partidas, corre de um lado para o outro, acompanhando o vai e vem da bola. Grita. Dá instruções. Desde aquelas bem vagas, tipo, "vamos, vamos", até algumas mais elaboradas. "Os meus laterais têm que agredir mais. Tem espaços pelas pontas".

De 2011 para cá, o Londrina voltou à elite do Paranaense, foi campeão em 2014, e subiu degraus no cenário nacional. Está na Série B. A popularidade do Luxa cresceu na mesma proporção. Durante o jogo, ele é cumprimentado por torcedores e festejado pelas crianças que, mais interessadas em aproveitar a infância, disputam o espaço com ele para jogar uma pelada improvisada enquanto o jogo oficial acontece no gramado.

O investimento do ensacador aposentado também aumentou. Desembolsou uma grana em uma camisa oficial, que usa por baixo do paletó, sem um colarinho para oferecer à gravata. E todo mês, desfalca em R$ 100,00 o orçamento familiar para pagar a parcela do sócio-torcedor ouro, que lhe garante acesso a todos os jogos com mando do Tubarão.

Quando dá uma pausa em seu trabalho, no intervalo do jogo, para conceder entrevista, é convidado a responder se gostaria de ser o verdadeiro treinador da equipe. Ele surpreende na resposta. "Não. O que eu queria mesmo é, só uma vez, durante um jogo, ficar ali, em frente ao banco de reservas, no espaço reservado para o técnico, só para sentir a emoção. Para ver como é."

Fácil não deve ser. Quando tirou o atacante Keirrison para dar lugar a Itamar, no segundo tempo do jogo que seguia zero a zero, Cláudio Tencati ouviu o coro de "burro, burro, burro."

Keirrison é o artilheiro da equipe no Campeonato. Na primeira vez que tocou na bola, Itamar fez o gol da vitória do LEC. Tencati virou-se para a torcida e bateu três vezes no peito.

Quando o árbitro decretou o fim do jogo, Luxa estava feliz, mas não satisfeito. Antes de voltar para casa, gritou pela última vez enquanto os atletas iam para o vestiário. "Presta atenção. Não é porque ganhou que está tudo bem. Sempre com humildade. O time tem que acertar mais."

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Wilhan Santin
 
Wilhan Santin é jornalista. No blog, publica textos sobre bastidores de reportagens das quais participou (ou ainda participa), algumas matérias jornalísticas e tenta escrever crônicas. Nem sempre consegue. Aceita críticas, sugestões e elogios, desde que sinceros. Boa leitura.



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