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Deixe que minha história conto eu - por Fla Quintanilha

13 abr 2020 às 09:06
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Deixe que minha história conto eu
Crônica de Fla Quintanilha


Sempre quando chega o início do mês sou chamada a entregar meu texto para a coluna "dedo de moça”, espaço no qual tenho apresentado minhas reflexões mais vivas. Esse ano a coluna completará 10 anos e fiquei surpresa quando parei para pensar nisso. Como o tempo é algo indescritível. Lembro-me quando a querida Marcia Mendonça me fez o convite e eu logo retruquei: mas sobre o que vou escrever? E ela disse: fale sobre o tempo! Isso me faz sorrir agora, o tempo. Ah, esse maroto que tanto subestimamos. Vou escrevendo sem pensar no próximo texto, mas ele sempre vem. E isso sempre me surpreende.

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Nesses dez anos fui mudando, deixando de fazer algumas coisas e outras ficaram tão presentes que se tornaram minha assinatura. Percebi que ano passado retomei meu prazer pelo cinema e voltei a ser uma cinéfila atuante. E quero falar um pouquinho de um filme que vi mês passado, "história de um casamento”. Se aqui fosse o espaço para colocar meus gostos diria: não gostei! Uma história vazia, com muita referência (para não dizer cópia) de "Kramer vs Kramer”. Fiquei mesmo irritada com o desperdício de talentos, mas o filme caiu nas graças do público. E eu me perguntei muitas vezes: por quê?? O filme não oferece nada novo. Parece que não há mais criação que possamos falar de relacionamentos sem cair nos clichês. Em 79 quando foi lançado "Kramer vs Kramer” o tema era relevante, pois havia a luta nos tribunais sobre a guarda dos filhos. O que não foi o problema de "Marriage Story” que não mostrou nada além do grande egoísmo humano e da mesquinharia que deixamos aparecer quando estamos feridos pela separação. Pensei por dias sobre isso, até que percebi o que estava tentando esconder. Não há mesmo um grande tema, esse é o tema. É o individualismo bem representado nesse filme, em que a melhor cena é uma cena violenta de gritos, insultos e acusações. O que acontece em todo relacionamento que acaba. Daí me pergunto: é mesmo tão difícil assim viver e compartilhar um espaço de vida com alguém? O quanto estamos sendo inteiros em nossas relações? O quanto somos sinceros e nos entregamos? Preciso de uma relação para ser plena em minha vida? São tantos problemas que enfrentamos dia a dia que me pergunto: por que ainda perdemos tempo com essa bobagem de casamento?

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Saí realmente irritada desse filme, rs. Mas agora consigo entender a fragilidade de tudo isso. Da luta que ainda travamos para manter o modelo ilusório de vida feliz que criamos e que já não faz mais sentido algum. E mesmo assim não podemos fazer com que ele desapareça. Quem sabe sem o modelo tudo mais ruiria. É mesmo preciso se observar profundamente para saber qual a transformação necessária a se fazer e qual eu conseguirei realizar sem que toda a minha vida se destrua. Como se o muro corresse risco de cair se for arrancado a hera que nele cresceu por anos. Então, após olhar para tudo isso e para a minha falta de paciência com a história do filme resolvi olhar para o que mesmo interessa, a minha vida e minhas ações. Pois é somente sobre ela que posso ter a clareza nas decisões a serem tomadas.

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Interessa pouco o que o outro quer, como ele quer, o que escolheu para realizar e ser feliz nessa vida. São escolhas particulares, o que for particular. Não sobre a natureza, não sobre a política, não sobre a guerra e outras maneiras de oprimir. Temos responsabilidade conjunta na vida em comum, mas a vida na intimidade é de nossa total liberdade. Espero que seja sempre vivida plenamente, sem apegos, sem dependência, sem submissão. Mas não temos muito o que fazer quando alguém escolhe esse ou aquele para casar ou se divertir. Podemos, e temos esse compromisso, de olharmos profundamente para o que somos e que as escolhas nunca fira nossa origem. O que verdadeiramente somos.



Texto de Fla Quintanilha

Flavia Quintanilha é poeta, filósofa e terapeuta pelo Instituto Bach da Inglaterra. Membro colaborador no Instituto de Estudos Filosóficos na Universidade de Coimbra, editora associada na revista Philosophy International Journal e conselheira de cultura na área de literatura no município de Londrina. Pesquisa sobre hermenêutica filosófica principalmente nos temas metaética, metapoesia e deep ecology. Publicou os livros Aporias da Justiça (2015) e A mulher que contou a minha história (2018). É idealizadora do quintall.eco.br


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