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David Lean em meio às filmagens de The Ryan's Daughter - Divulgação
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A Filha de Ryan, por sir David Lean

05 fev 2006 às 11:00
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Em seus tempos de crítico, Godard gostava de diferenciar dois grandes diretores americanos dos anos 50: enquanto Nicholas Ray era o mestre das internas [cenas rodadas principalmente em estúdio], Anthony Mann era o gênio das externas [cenas rodadas em sua maior parte em locações reais].

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Há, no entanto, um inglês a superar Anthony Mann: sir David Lean [1908-1991]. Inicialmente um montador de renome no Reino Unido, mr. Lean adaptou clássicos de Dickens [Oliver Twist, The Great Expectations], peças de Noël Coward [In Wich We Serve, Thus Happy Breed, Blithe Spirit], realizou pequenos e notáveis romances [Brief Encounter], mas... imortalizou-se mesmo após grandiosos épicos [Lawrence of Arabia, Doctor Zhivago].

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Logo após o sucesso de Doctor Zhivago, Lean pensou em filmar a vida de Gandhi, mas desistiu do projeto, pedindo um roteiro a seu roteirista habitual Robert Bolt. Inspirado em Madame Bovary, de Flaubert, Bolt cria então The Ryan’s Daughter, um drama de costumes que se passa durante a Guerra Civil na Irlanda em 1916, estrelado por Sarah Miles e Robert Mitchum.


Ao lado do diretor de fotografia Freddie Young, Lean construiu novamente uma série de imagens grandiosas, de plasticidades tão comoventes como em harmonia com a trama. Em 194 minutos de poesia visual, temos inicialmente uma leve comédia, que nos apresenta os irlandeses como seres excêntricos, bem distantes do típico esnobismo britânico. Aos poucos, os personagens fluem como em um romance do século 19, em que o autor se concentra apenas em narrar a trama, e não comentá-la.


Em um primeiro contato, é impossível não imaginar como este filme pode ter influenciado outro gênio do cinema: Stanley Kubrick, que cinco anos depois faria um filme sob diversos aspectos próximos a The Ryan’s Daughter. Há atores neste filme que iriam figurar em Barry Lyndon, assim como paisagens rupestres que notavelmente tornariam o filme de Kubrick uma overdose plástica dificilmente recriada.

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Assim como Kubrick, Lean tem uma forma singular de apresentar a sua história. Desde Lawrence of Arabia, ele compreende que os diálogos em um filme são apenas um elemento secundário, que as imagens e sons de uma narrativa devem conduzir o espectador a um terreno incerto, no entanto, dinâmico, com um certo frescor natural.


Munido de uma câmera 65mm da Panavision, Young cria imagens que simbolizam o estado de espírito de seus personagens. Há vários exemplos disso em todo o filme: as nuvens ligeiras que acompanham Rose na praia; o nascimento de algumas plantas quando Rose conhece o amor; as luzes variáveis que entram em seu quarto na noite de núpcias, etc.


Mesmo com todo este rigor visual, Freddie Young ainda nos reserva uma seqüência mágica, de forte impacto emocional e cinematográfico: a cena da tempestade. Não se sabe ao certo como ele conseguiu extrair tanta autenticidade nesta seqüência, pois o que vemos no filme é um furor da natureza tentando irromper sobre os homens, algo que não pode ser criado artificialmente de forma alguma. Young capta em sua lente uma força natural, tão própria ao mundo como a paixão que envolve os personagens.


Diante de uma praia isolada, com maré altíssima, os poucos habitantes daquele vilarejo ajudam soldados refugiados a encontrar um armamento alemão que se dispersou pelo mar. O impacto visual e emotivo dessa seqüência é tão grandioso que por si só ela já resume o que é o cinema - o momento mágico em que um filme desvela o que é a vida, em que uma câmera capta, mesmo que de forma fragmentada, todas as pulsações orgânicas, metafísicas e dramáticas que podem haver na trajetória de um homem.


Com um final trágico, daqueles que conseguem conter suavemente o ódio pela trilha completamente inadequada de Maurice Jarre [não se trata de um exagero, mas estou convicto de que esta é a pior trilha sonora de todos os tempos], Lean reduz o espectador a um mero sobrevivente, a uma sensibilidade convalescente quando um grande contador de histórias está se aproximando de seu grand finale.


Tudo isto, e ainda mais, podem ser conferidos a partir desta segunda, dia 7, quando será lançada uma edição especial de The Ryan’s Daughter nos Estados Unidos. O DVD duplo, que contém os extras abaixo*, certamente irá restabelecer este filme como um marco na carreira de Lean e do cinema nos anos 70, proporcionando àqueles que nunca viram The Ryan's Daughter no cinema em 70mm uma rara chance de se ter contato com um filme tão grandioso quanto à vida.


*Special features include:

The Making of Ryan’s Daughter: A Three-Part 35th-Anniversary Documentary
Storm Rising
Storm Chaser
The Eye of the Storm
Two vintage documentaries
Ryan’s Daughter: A Story of Love
We’re the Last of the Traveling Circuses
Commentary by cast, crew, biographers, current directors as well as Lean’s and
Mitchum’s families
New digital transfer from restored 65mm picture and audio elements
Soundtrack remastered in Dolby Digital 5.1
Theatrical trailers
Languages: English & French
Subtitles: English, French & Spanish (Feature Film Only)


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