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about satori

02 mar 2006 às 11:00
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neste domingo, dia 5, começamos a rodar um curta sobre aquele poeta que, aos poucos, desaparece. satori uso. serão sete dias de filmagem, concentração, mergulho em um sentimento de abandono. cada vez me convenço mais da minha fragilidade. e fico feliz com uma fala do tarkovski que aparece em stalker: "o mundo é das pessoas frágeis e flexíveis, não dos que são fortes e brutos. deveríamos ser como uma criança frágil e indefesa, sempre mudando". algo mais ou menos assim...

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esses dias revi o espelho, stalker, dois bergman [persona e vergonha], trinta anos esta noite, oito e meio... cada vez mais quero me expressar unicamente por imagens, ou injetar nas palavras uma dimensão sentimental que existe na língua japonesa, por exemplo. meu cérebro está uma pilha: irrito-me constantemente com coisas que fogem do planejado, imprevistos que exigem novas direções ao filme. nessa fase parece que tudo está conspirando contra, ou que, a cada conquista, um sinal dos céus nos alerta que teremos sorte. tudo ganha peso redobrado, adquire um aspecto quase místico.

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ontem, conversando com o zé nietzsche, após muitas discussões, falei: "zé, vc percebeu que a gente fica nessa pira, que tudo tem de funcionar, e nosso trabalho, no entanto, não passa de uma imaginação? não vai mudar o mundo em nada. a bolsa não vai cair. meo, poucas pessoas vão saber do filme. e a gente tá nessa pira há mais de um mês!". ele disse simplesmente: "caralho, é verdade". mas para mim isso não é um problema. porque ou a gente se importa, ou não. as coisas são simples mesmo. e nada disso garante que o filme ficará bom, que será no mínimo legal de se ver. nada.


mas isto também não me preocupa. pois para mim tudo isso tem um aspecto mágico, ritualístico, religioso. por muito tempo, eu fui obrigado a criar uma dimensão particular, um universo paralelo em que eu pudesse fazer tudo com o que sempre sonhava. até os seis anos, eu não falava nada, e meus pais achavam que tinham um filho autista. quando eu tinha uns 14, 15 anos, percebi que não poderia falar de alguns assuntos com meus amigos, as pessoas mais próximas. simplesmente eu não sabia o que dizer, nem eles. mas vendo alguns filmes percebia que surgia um diálogo, mesmo que unilateral no início. assistia a um filme do fellini e sentia aquela mesma dor de ser incompreendido, de não saber o que irá acontecer. assistia a taxi driver e compartilhava daquela raiva, daquela incapacidade de se ajustar. assim também com juventude transviada, laranja mecânica. sonhava em ser o michael corleone, o mickey rourke em coração satânico, humphrey bogart em casablanca. essas coisas.


nesta semana, no entanto, o diálogo deixa de ser unilateral. uma voz baixinha e imperceptível irá se erguer e dizer algo com o filme satori uso. estou seguro em relação a como fazer esse filme. pois, na verdade, trata-se unicamente de filmar um sentimento, capturar a sensação de abandono, fragilidade, a vontade de se ficar recluso, isolado. enfim, o desejo perpétuo de desaparecer.

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será como fazer o londrina em três movimentos contando uma historinha. em o quinto postulado, foi diferente. fui mesmo um diretor do filme, aquele que dá as coordenadas para cada membro da equipe criar uma visualidade adequada para o que pede a história. em satori uso, não há continuidade, lógica que une as partes, nada... trata-se de fragmentos em volta do mesmo sentimento: a vontade de se auto-anular no mundo, de se comprimir ao estado máximo, de se isolar e atingir uma energia própria de cada um, de encontrar uma chave para um mistério chamado "estar só".


bem, a nossa satine, aquilo que representa o belo e a finitude no filme, chega hoje. daqui a pouco irei buscá-la no aeroporto. durante os testes, estávamos o bruno, o zé, o anderson e eu a conduzir os atores, e pensei uma coisa tola e singela: "aqui estamos. quatro amigos vivendo de imaginar coisas. a melhor profissão do mundo". esse sentimento me deixa tão vivo como nos momentos em que ouço os pássaros, poesia seminal do amarante.

há muito tempo, estou certo de que o mundo real é o dos nossos sonhos, aquilo que imaginamos. tudo o mais não passa de "vaidade e aflições de ânimo", rá!


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