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Vida bela!

13 out 2010 às 09:36
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VIDA BELA!

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Quero minha vida mais bela; não que não o seja, mas quero-a mais bela do que já é; quero-a belíssima! E para que isso se realize tenho de transformar as coisas velhas em peças antigas. Isso parece ter o mesmo sentido, não é mesmo? Mas não o tem, pois o que é velho ou se joga fora ou se deixa num armário, num quartinho, num canto qualquer, e lá fica esquecido por décadas, até que alguém resolva pôr em prática o Feng Shui, antiga arte chinesa de criar ambientes harmoniosos, e elimine tudo o que tão somente ocupa espaço.

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Já o que é antigo tem status de coisa importante; pode até ficar guardado sem que alguém o veja constantemente, como os dois relógios de bolso que herdei de meu tio Zeca, cada um com mais de cinquenta anos de existência: estão cuidadosa e carinhosamente guardados em uma caixa, envoltos em papel de seda, polidos, brilhantes, lindos. Não os uso, mas são especiais; ninguém os tira de lá, a não ser em momentos também especiais. Certamente meus netos os herdarão e os guardarão com o mesmo carinho. Vão transformar-se em relíquias! Isso é o que espero.

NÃO QUERO NADA VELHO; QUERO O QUE É ANTIGO.

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Não quero nada velho; quero o que é antigo. Quero fazer do velho antigo, como transformar um velho torrador de café que seria descartado numa bela obra de arte que enfeitará a sala de estar. Ao fazer o que é velho se tornar uma peça antiga, haverá não somente uma transformação material, mas também espiritual, pois o valor que passamos a dar ao objeto transcende o seu valor como objeto. Ele passa a ser um vínculo com o passado, e isso nos melhora como seres humanos.

Tenho várias dessas coisas velhas que se transformaram em objetos antigos. Há, por exemplo, em minha casa, um abridor de garrafas que imita uma garrafa de caracu, que pertenceu ao meu pai, datado de 1949. Ele o usou muito; abriu muitas garrafas de cerveja com ele, mas, agora, está guardado na cristaleira da nossa sala, como se estivesse num museu. Há também a binga de meu pai (binga é o nome dado a isqueiro antigamente), uma pedra que minha mãe usava de enfeite em sua sala, um livro em alemão sobre anatomia, também pertencente à minha mãe.

Uso para guardar os saquinhos de chá que tomo diariamente uma caixinha de madeira que foi pintada por Teté, minha esposa, quando ela tinha onze, doze anos. Por ela, essa caixinha já teria sido descartada, pois a pintura não é das melhores, afinal ela era uma criancinha quando a fez. Isso, ao meu ver, é que a torna interessante. Não é uma caixa velha qualquer; é a caixa que foi pintada, há quase quarenta anos, pela criança que se transformou no amor de minha vida! É uma relíquia!

HERANÇA.

Recentemente ganhei de uma de minhas filhas uma faca da marca Zacharov, denominada de picanheira. Ela disse que seria para eu usá-la nos churrascos de picanha que às vezes faço aqui em casa. Guardei-a na mesma cristaleira do abridor de meu pai, e lá ela ficará; de lá sairá somente em momentos especiais. Quero-a ainda luzindo daqui a trinta anos, quando eu contar com oitenta e um anos de idade. Quero deixá-la de herança a um neto.

Isso é a mais pura afetividade: transformar uma coisa velha num objeto antigo que representa alguém ou algo importante. São meu pai, minha mãe e meu tio que estão simbolicamente comigo, representados pelos relógios, pelo abridor, pela pedra e pelo livro. É Teté que está representada pela caixinha de guardar chá. Futuramente um de nossos descendentes a guardará com carinho para ter a lembrança de um antepassado importante em sua vida. Ensinar isso às crianças é ensinar a respeitar tradições, a se relacionar afetivamente com os demais; é ensinar a amar.

Se quisermos um futuro melhor à humanidade, precisamos criar mais vínculos com o passado. E esses vínculos não podem ser meramente históricos, como o ato de estudar a ciência denominada de História. É preciso criar vínculos fortíssimos com a nossa própria história; e na nossa história estão presentes aqueles que fazem parte de nossa vida afetiva. É preciso criar vínculos com nossos antepassados, que já não estão mais conosco, mas que são os que escreveram o nosso destino. Sem eles não seríamos o que somos. É preciso tê-los junto a nós por meio das relíquias que nos deixaram e que passam a representá-los simbolicamente.


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