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2003: o ano dos emergentes

12 jan 2004 às 10:59
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O ano de 2003, muito provavelmente, ficará marcado na história da economia mundial como "o ano dos emergentes", ao menos no que diz respeito aos indicadores do mercado financeiro, como bolsa e títulos da dívida soberana.
Desde o início de 2003, tanto o Brasil como outros países emergentes foram inundados por uma grande onda de capital estrangeiro, perfazendo um quadro de grande liquidez internacional. Entretanto, essa onda de divisas tinha endereço certo: o mercado financeiro desses países. Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), por exemplo, houve ingresso recorde de capital estrangeiro da ordem de R$ 7,6 bilhões em investimentos em ações. Esse volume é tão significativo que fez com que a bolsa apresentasse um descasamento com relação à realidade econômica, ou seja, a alta dos papéis contrastava com o mau desempenho das empresas. No ano, a Bovespa subiu mais de 97% enquanto a produção industrial não deverá alcançar 1% de crescimento.
A liquidez internacional teve como fator propulsor as baixas taxas de juros nos países centrais, nas quais a política monetária foi relaxada com o objetivo de estimular as economias, que se encontravam com baixo crescimento. Nos EUA, por exemplo, os juros alcançaram os menores níveis em mais de quarenta anos (hoje a taxa está em 1% ao ano). Para se ter uma idéia, no Japão, em termos reais, a taxa de juros é negativa, o que significa que, para deixar dinheiro nas contas correntes em bancos, o consumidor deve pagar uma taxa, que corresponderia a um preço pela segurança que existe em deixar dinheiro nos bancos, ao invés de mantê-lo em casa.
Os fatos listados anteriormente motivaram os investidores estrangeiros a buscar outros mercados, que oferecessem melhores oportunidades de remuneração do capital. Já que os juros nos países centrais estão muito baixos, seria vantajoso aplicar em países emergentes, que, apesar de terem um maior risco de calote, têm maiores taxas de juros. A essa realocação de carteira deve-se todo o movimento das cotações dos ativos nos mercados emergentes, a começar pela bolsa de valores. Entre os emergentes, as bolsas em dólar subiram, em média em 2003 65%, com destaque para o Brasil (+141,8%), Venezuela (+139,8%) e Argentina (+137%). O risco país também caiu em vários países: Brasil (-67%), Nigéria (-66%) e Egito (-64%) foram as maiores quedas. Na média dos emergentes, o risco caiu 44,9%. Pela primeira vez na história o C-Bond, principal título da dívida externa do Brasil, ultrapassou os 100% de valor de face. Com relação às taxas de câmbio, houve um movimento generalizado de valorização nos emergentes. No Brasil, por exemplo, o real subiu mais de 18% em relação ao dólar.
O discurso do governo, no entanto, credita essa melhora de indicadores meramente financeiros a toda uma política fiscal (corte de gastos públicos) e política monetária (taxa de juros principalmente) batizadas, pelo próprio governo, de "responsáveis". Ou seja, a melhora em indicadores como bolsa de valores, risco país e títulos externos seria fruto de um entendimento, por parte do mercado financeiro, de que o governo está trabalhando para garantir condições para que o país cresça e que os fundamentos da economia teriam melhorado. Porém, uma economia que combina alta dependência do exterior com câmbio valorizado e alto endividamento com baixo crescimento não tem fundamentos sólidos, ao contrário, é muito frágil. Enquanto persistir a liquidez nos mercados, que financiam a dependência externa do país, essa fragilidade permanecerá escondida.
Da mesma forma que esses recursos para os emergentes são positivos, podem também causar danos imensuráveis para essas economias. Como o capital que entrou nesses países tem o objetivo de se capitalizar, tão logo esse objetivo seja alcançado, ou mesmo os países de plataformas mais sólidas iniciarem um processo de recuperação de rentabilidade de seus ativos, não há dúvidas de que haverá nova realocação desses capitais, porém em sentido inverso, ou seja, de emergentes para os desenvolvidos.
Como a maioria desses países não melhorou seus fundamentos econômicos, a saída do capital estrangeiro poderá causar distúrbios nas contas externas (redução abrupta das reservas cambias) que poderão ter efeitos maléficos à economia como, por exemplo, aumento da volatilidade da taxa de câmbio e, por conseguinte, aumento da inflação.
Essa segunda realocação de carteira terá início quando o processo de aumento dos juros nos países desenvolvidos for forte o suficiente para tornar a relação risco / retorno mais interessante nesses países em relação aos países emergentes.

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Créditos: Alexsandro Agostini Barbosa, economista da Global Invest


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