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Copom: a janela de oportunidade está se fechando

19 abr 2004 às 11:00
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Em sua 95ª reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu por unanimidade reduzir a taxa de juro básica Selic em 0,25 ponto percentual, estabelecendo o novo valor em 16% ao ano. Essa é a menor taxa desde abril de 2003, quando a taxa atingiu 16,25% ao ano. A decisão não deixa dúvida de que o BACEN está mirando o centro da meta de inflação (5,5%).
Mesmo sancionando as expectativas majoritárias do mercado, que estavam em 0,25 p.p., sabe-se que havia espaço para uma redução maior, uma necessidade preponderante para a economia doméstica. O comportamento da inflação tem se demonstrado dentro das expectativas, cumprindo à risca a esperada trajetória de queda apontada desde o início do ano, inclusive destacada na última Ata do Copom e no Relatório Trimestral de Inflação. Ademais, é consenso no mercado de que quanto mais evidente fica a elevação dos juros nos Estados Unidos mais o Brasil se aproxima do momento de cessar o processo de abrandamento da política monetária para manter a atratividade para os investidores estrangeiros, ou seja, a janela de oportunidade está se fechando.
Com a decisão de redução modesta dos juros nominais, o Copom comete o mesmo erro de 2003, ou seja, exagero na dose de política monetária. No ano passado houve excesso na elevação dos juros e na sua manutenção em patamares elevados por muito tempo. Neste ano, o Copom exacerba no conservadorismo e mantém a taxa ainda em patamar elevado. Certamente poderíamos ter hoje uma taxa Selic de 15,5% considerando reduções de 0,25 p.p. ao mês desde jan/04. Com isso, o país estaria mais próximo de romper o piso de 15% ao ano, que não ocorre desde março de 1975, quando a taxa foi de 13,6% a.a.
Apesar da modesta redução dos juros (0,25 p.p.), ainda é possível indicar dois fatores positivos nesta decisão: (i) o consenso entre os membros do Copom na decisão de reduzir os juros afastou qualquer incerteza quanto ao seu rumo, fato exatamente contrário ao que ocorreu na decisão conturbada de março, quando seis dos nove membros votaram a favor da redução e três membros indicaram que a melhor opção naquele momento era manter a taxa inalterada; (ii) a atual decisão mantém alinhadas e positivas as expectativas quanto à recuperação da economia.
Entretanto, ainda há alguns entraves que impedem a economia brasileira de entrar nos trilhos da recuperação de fato. Utilizando-se a nova taxa de juros básica de 16% ao ano e descontando-se a inflação esperada para os próximos 12 meses de 5,48% a.a. (pesquisa Focus-BC de 08/abr) chega-se a um juro real de 9,97% a.a.. Se considerarmos a taxa futura de juros de 15,45% (Swap pré 360 dias) e a mesma taxa de inflação (5,48%), o juro real fica em 9,45% a.a.. Ambos os indicadores de juro real fazem com que o Brasil deixe de ser o mercado mais rentável do mundo dando lugar para a Turquia, que tem uma taxa projetada de 10,1% a.a.. Para que esse quadro seja revertido é necessário que as reduções dos juros nominais sejam maiores nas próximas reuniões, visto que as projeções de inflação do BACEN ainda estão em 5,2% (abaixo da meta de 5,5%) e a estimativa do mercado, ligeiramente acima, em 6%.
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, apresentaram ontem aos demais ministros da Câmara de Política Econômica um cenário que indica juros nominais de 13% ao ano no final de 2004, e inflação de 5,6% (próximo ao centro da meta de inflação), o que resulta em um juro real de 7% a.a.
Nosso cenário de juros e inflação apontam para taxas de 15% a.a. e 5,3% a.a. para o final do ano, respectivamente. Com esses valores, os juros reais ficam em 9,2% a.a.. Ou seja, acreditamos que é pouco provável que o cenário de Palocci e Lisboa se realize, pois demandam que os juros nominais (Selic) sejam reduzidos de forma mais acentuada nos próximos meses ou ao menos continuem a cair gradualmente até o final do ano e, ainda, que haja quatro reduções de 0,5 p.p., fato que está fora de cogitação para o atual Copom.
Quanto à recuperação da economia, é certo que somente a redução dos juros não é suficiente para promover o crescimento econômico, mas certamente é um componente de peso para dar alento a sua revitalização. As medidas de taxa de juros reais projetadas para os próximos 12 meses indicam que o país ainda mantém elevado nível de rentabilidade no mercado financeiro (como constatado nos parágrafos anteriores), fato que continua direcionando possíveis investimentos do setor produtivo para o setor financeiro e, com isso, a geração de empregos e recuperação da renda são adiadas.
Dessa forma, é necessário que o processo de redução dos juros não seja apenas mantido, mas também acentuado.

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EXPECTATIVAS PARA O COPOM DE MAIO:
As expectativas em torno dos índices de preços para o mês de abril são de melhoria, principalmente no IPCA. O índice deverá ficar em torno de 0,4% e seu núcleo deverá se arrefecer. Para o resultado de maio do IPCA, nossas projeções apontam para um índice ainda menor: 0,35%.
Visto que a autoridade monetária declarou por diversas vezes que seu único objetivo é buscar a estabilidade dos preços – e, portanto, a recuperação da economia não lhe cabe - caso o cenário para a inflação nos próximos meses seja confirmado é injustificável uma redução menor que 0,5 p.p. na reunião que ocorrerá nos dias 18 e 19 de maio.

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Créditos: Alexsandro Agostini Barbosa é economista da Global Invest


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