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Mercadores de Ilusão

21 jun 2004 às 11:00
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Nos últimos meses um tema vem ganhando espaço gradual nas análises de observadores da situação brasileira e cujo entendimento considero de extrema importância para a visualização de nosso cenário futuro. Trata-se da existência de um certo torpor nos ares do Brasil de hoje, que atinge uma sociedade que se apresenta ao mesmo tempo pasma e impotente diante de um país que vive uma lenta e progressiva deterioração de seu tecido social (e porque não dizer, econômico) traduzida em elevação dos níveis de desigualdade, violência, desemprego, etc.
A pergunta que se segue é sempre a mesma: O que explica a passividade de nossa população, em especial suas camadas menos favorecidas, que assistem caladas ao insistente prolongamento do próprio sofrimento? Sempre que penso nisso, me vem a lembrança do levante popular (lembram dos panelaços?) que tomou conta da Argentina entre os anos de 2000 e 2002. Vários são os motivos que podem explicar as diferenças entre o comportamento do argentino e do brasileiro.
Em primeiro lugar, não podemos esquecer que a crise lá foi mais intensa e aguda, o que não explica tudo, pois a crise brasileira tomou um caráter de "morte lenta", vale lembrar que em 10 anos passamos de 8ª para 15ª maior economia do mundo! Uma outra possível explicação pode estar no fato de o brasileiro ser mais "pacífico", o que inevitavelmente leva a uma pergunta: "pacífico" ou "passivo"? Também se pode argumentar que já está ocorrendo uma certa movimentação popular, visível pelo aumento da violência urbana, o que também não parece ser uma boa explicação dada que essa violência tem caráter individual e não coletivo. Por fim, existe a velha fama do brasileiro de se "satisfazer com pouco", afinal o Brasil sempre foi um país pobre, portanto a população menos favorecida não sabe o que é abrir mão de um padrão de vida elevado, já que nunca o conheceu. Por outro lado, voltando ao caso argentino, a situação é bastante diferente dado que o nosso vizinho portenho chegou a ser, em meados do século passado, um dos países mais ricos do mundo, com a exibição de indicadores de desenvolvimento humano de primeiro mundo. De fato esse é um assunto bastante polêmico e que certamente encontrará uma exploração mais digna de sua importância pela análise de um bom Cientista político, Sociólogo ou Antropólogo. O que mais me interessa explorar vem a seguir.
Infelizmente, décadas de passividade levaram o brasileiro a se especializar em "vender o almoço para comprar o jantar". Obviamente, a classe política adora, pois percebe e explora o campo aberto deixado pela resignação popular, dando demonstrações diárias de que já perdeu o pudor na defesa explícita de seus interesses, estejam eles alinhados aos interesses da população ou não.
De fato, a resposta dos políticos a um possível aumento da insatisfação popular tem sido a utilização de um triste artifício que funciona aqui como em poucos lugares do mundo: manter viva a esperança da população. Descobriu-se que, no Brasil, essa é uma arma poderosa de exercício de poder, utilizada após cada crise, em cada mudança de governo e a cada virada de ano. Governantes são ágeis em justificar o sofrimento atual como o custo a ser pago por um futuro melhor, que nunca chega. Lembram do "crescer para distribuir", muito usado pelo ex-Ministro Delfim Neto nos anos 70 e 80? E o "estabilizar para crescer", mantra do ex-ministro Pedro Malan no Pós-Real? E já se vão cinco décadas desde que o General de Gaulle declarou: "O Brasil é um país de muito futuro, e sempre será!".
Mas talvez estes exemplos sejam pequenos quando comparados com os atualmente utilizados pelo Presidente Lula e sua equipe econômica. O Presidente por si só já pode ser classificado como um verdadeiro "mercador de ilusões", dado o rosário de frases de efeito que oscilam perigosamente entre a simples pretensão e a pura megalomania, sempre em descompasso com o mundo real. Em junho de 2003, Lula disse: "... o mês de julho (de 2003) será o mês do início do espetáculo de crescimento". Pouco depois ao final de 2003 declarou: "estamos criando no Brasil o maior programa social da Terra", e em abril saiu-se com "Fiz mais em 15 meses do que muita gente em 500 anos". Ciente de que, em política, a palavra é poder, Lula segue em frente com seu discurso peregrino. Recentemente, no México, disse: "Tenho que falar da fome em todo lugar, porque se eu não falar, ninguém tem a obrigação de falar".
Fiel ao estilo do presidente, o Ministro da Fazenda também faz sua parte na tentativa de manter a esperança da população em alta. No último dia 4 de junho, Antonio Palocci declarou que o país está "blindado em relação à crise" e vive uma situação de "céu de brigadeiro". Segundo ele, a expectativa agora é de "crescimento, crescimento, crescimento". Mas a cartola do ilusionista Palocci tem outros recursos, dentre os quais o mais utilizado é o da meia-verdade, que encontra terreno fértil no desconhecimento do público e de boa parte da mídia. Assim, a cada notícia de aumento da taxa de desemprego, lá está o ministro para nos alertar sobre o "número de novas vagas criadas". Ao mesmo tempo, louva-se o superávit primário da contas públicas sem esclarecer que ele não inclui o enorme custo com o pagamento de juros sobre a dívida. Chama-se de "Responsabilidade fiscal" uma conta feita pela metade, e cujo resultado decorre de aumento da tributação e não de corte nos gastos. Exalta-se o superávit da balança comercial, mas se "esquece" de mencionar o déficit na balança de serviços e rendas, de igual magnitude. E, por fim, a cada número decepcionante do PIB divulgado, rapidamente algum membro da equipe econômica dispara "anualizações" do crescimento, que via de regra apontam novamente para uma falsa sinalização, a de um vigor econômico que não existe.
Por último, não podemos esquecer do Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Não bastasse a tentativa de auto-engano traduzida pela repetição diária e à exaustão da expressão "O
Brasil tem fundamentos sólidos", há sinais de que Meirelles está se distanciando do mundo real (e tenta nos levar junto). De novo, o episódio de divulgação do PIB no primeiro trimestre é um caso típico. O crescimento de 2,7% a.a. da economia brasileira em relação a 2003 gerou ondas injustificadas de euforia na equipe econômica, além de manifestações ufanistas em boa parte da mídia e em setores do mercado financeiro. Mas o que tanto se comemorou? Talvez o fato de que, por ora podemos manter a esperança (de novo ela) de crescer algo entre 3% e 3,5% em 2004. Todavia, isso apenas confirmará que completaremos o 10º ano consecutivo de crescimento econômico abaixo da média mundial, além da manutenção do título de país com a menor taxa de crescimento entre os emergentes. Na verdade, mais do que um resultado positivo, a comemoração mostra o nível de pressão a que a equipe econômica estava submetida, o que talvez explique a reutilização pelo 2º trimestre consecutivo de um artifício estatístico discutível, e que permitiu à autoridade monetária brasileira sair propagando que "o Brasil cresce a taxas anualizadas acima de 6%aa há 2 trimestres" (!!!). Seguindo a mesma lógica, de agora em diante os mais críticos poderão pegar um mês de inflação mais alta, anualizar seu resultado e sair propagandeando que a inflação está totalmente fora da meta.
Para finalizar (e como se não bastasse), tomado por um clima de total empolgação, o Presidente do BC nos premiou no último dia 20 de maio com aquela que já pode ser considerada a "Pérola do ano": "O PIB brasileiro cresce a níveis asiáticos".
Sem comentários!

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Créditos: Fernando Ferreira é sócio-diretor da Global Invest.


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