Não é fácil constatar que seu filho, ainda tão pequeno, já é capaz de inventar histórias e desculpas para se safar de algumas situações ou colocar a culpa em outra pessoa. Mas o fato é que, para os pequenos, a mentira só passa a ter sentido de verdade a partir dos 5 anos. Antes disso, elas não conseguem separar a fantasia do real. Até esta idade a imaginação faz parte do desenvolvimento da criança e é base para o pensamento lógico na fase adulta. Com o passar dos anos, a fantasia dá lugar à noção de realidade.
Apesar dessas características do desenvolvimento infantil, a primeira reação da maioria dos pais é ameaçar ou punir a criança quando ela mente. A frase "se você mentir, seu nariz vai crescer", "se mentir novamente não vai vai passear no parque", e por aí vai.
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Mas será que isso realmente funciona? Segundo pesquisadores da McGill University, do Canadá, a resposta é não. Eles chegaram a esta conclusão a partir de um experimento realizado com 372 crianças de 4 a 8 anos que foram encaminhados para uma sala com um adulto, que ficaria ausente durante apenas um minuto. Antes de sair, ele pedia aos pequenos para não espiar o que havia atrás deles. Enquanto ficavam sozinhos no ambiente, câmeras registravam sua reação. Cerca de 2/3 das crianças (251 no total) infringiram a solicitação (sendo que, a cada mês que a idade das crianças aumentava, menor era a chance de desobedecer). Entre as transgressoras, 2/3 (167 no total) mentiram quando os especialistas perguntaram se elas haviam espiado ou não.
Mas as principais conclusões do estudo são outras. Os pesquisadores constataram que a possibilidade de a criança dizer a verdade é menor se ela sentir medo de ser punida. "Na verdade, a ameaça de punição pode ter o efeito reverso, reduzindo a probabilidade de ela contar a verdade. Essa informação é útil a todos os pais de crianças pequenas e profissionais como os professores, que querem encorajar a honestidade", explica a pesquisadora líder do estudo, Victoria Talwar.
Em entrevista à revista Crescer, a psicóloga Juliana Fazolaro, do Hospital São Camilo, em São Paulo, diz que as punições apenas indicam à criança como não agir e nada mais. "Os efeitos das punições são temporários, funcionam somente na presença de quem pune e não atingem o motivo que leva ao comportamento indesejado", explica.
De acordo com o estudo, as crianças pequenas tendem a dizer a verdade quando percebem que isso deixaria o adulto feliz, enquanto as crianças maiores fazem o mesmo porque já entendem que é o certo a fazer.
Quando a fantasia passa a ser mentira
Segundo a psicóloga, a partir dos 2 anos, em especial entre os 3 e 4, começa a transformação de bebê em criança. "Nesta fase, eles começam a distinguir o "certo" do "errado", não só pelas atitudes em si, mas também pelo olhar dos adultos, pela mudança de postura deles ou por sinais, como o tom de voz, a expressão facial ou a pele ruborizada", explica. É nesta fase que os pequenos começam a entender (e a experimentar) que todas as suas ações trazem consequências. A partir dos 6 anos a criança ainda brinca com sua imaginação e cria situações que não são reais, mas as invenções já são bem menores.
"Até que esta fase termine, não adianta punir ou dar sermões na criança", orienta a psicóloga. Segundo ela, o melhor é mostrar que cedo ou tarde as mentiras serão descobertas e que será preciso lidar com o erro cometido. Por outro lado, é importante valorizar a coragem da criança que conta a verdade. O fato de ser elogiada ou sentir que agradou os pais, estimula a criança a ser honesta em outras ocasiões.
A mentira torna-se intencional a partir dos 7 anos, quando a criança já adquiriu noções de valores sociais e sabe exatamente a diferença entre o certo e o errado, e pode usar a mentira para manipular uma situação. Juliana alerta que nesta fase o diálogo é essencial. "Os pais devem mostrar a importância do erro e dar à criança a oportunidade de reparação. Caso isso não ocorra, há o risco de ela entender que não houve reação relacionada à sua ação e ainda sentir que levou vantagem, pois conseguiu atingir seu objetivo".
Vale lembrar que mentir em uma ou outra situação isolada não é de fato um problema que não possa ser resolvido pelos próprios pais, no entanto se as mentiras se tornarem frequentes é importante procurar ajuda de um psicólogo ou pedagogo. (Fonte: Revista Crescer)