Uma da mais constantes dúvidas dos pais é sobre como proceder ou como abordar o tema morte com as crianças. Poupá-los sobre a morte de um parente ou sobre o conceito de morte não é o ideal para que cresçam sem medo. O luto não trabalhado pode causar transtornos mentais em crianças e jovens, entre eles o estresse traumático e a depressão infantil. Esses e outros transtornos serão tratados pelo coordenador da Residência de Psiquiatria Infantil da Faculdade de Medicina da UFMG e diretor clínico do Centro Interdisciplinar de Orientação Psicopedagógica, José Raimundo Lippi, durante o segundo módulo do Curso de Atualização "A Psiquiatria no Ciclo da Vida", até o dia 2 de julho.
O psiquiatra explica que a morte, seja ela de uma pessoa querida ou de um animal de estimação, deve ser tratada pela família sempre que a criança perguntar. "Não que as crianças não compreendam o fato ocorrido em si, mas o conceito entendido depende da idade. Por isso, os adultos são fundamentais para explicar que a morte faz parte do ciclo natural da vida", conta Lippi.
Receba nossas notícias NO CELULAR
WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp.Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.
As crianças de até três anos não conseguem perceber claramente que a morte é definitiva e irreversível. As perguntas sobre o ocorrido iniciam-se, geralmente, por volta dos cinco anos de idade. Elas percebem que a morte é algo natural, mas precisam de explicações concretas para entender como a pessoa que morreu não vai mais se mexer, abrir os olhos, falar ou comer. Porém, é a partir dos 10 anos que todo o processo de morte pode ser entendido completamente pela criança.
Uma dica do especialista é de que uma oportunidade para começar a falar da perda e ajudar a criança a absorver o assunto como natural é a morte de uma planta, de uma flor ou até mesmo conversar sobre o animalzinho de estimação que ficou doente e faleceu. Explicar o processo de envelhecimento, principalmente se a criança tiver exemplos como os avós, e os motivos da morte também contribuem para o entendimento menos traumatizante.
Outra forma de expor de forma concreta o assunto é através de livros, que podem auxiliar os pais na hora de conversar com os filhos pequenos sobre a morte, contendo palavras simples e de fácil assimilação. "Falar que a pessoa dormiu para sempre ou descansou não é o adequado, pois a criança pode ficar com medo na hora de dormir ou achar que a pessoa irá acordar", conta o especialista. As expressões "foi fazer uma longa viagem" ou "foi embora" também podem confundir a criança e levá-la a acreditar que todos aqueles que farão uma viagem nunca mais voltarão ou que a pessoa poderá voltar um dia. O professor conta que o ideal é sempre dizer a verdade, "mentir para elas é provocar angustia e sofrimento, pois as perguntas continuarão", explica.
O melhor procedimento é deixar a criança perguntar o que quiser, encorajando-a a expressar o que sente. Responder a todas as perguntas com palavras simples e frases curtas para que ela possa entender perfeitamente o processo natural de falência humana.
Se alguém perto da criança como pais ou avós morrem, ela não deve ser excluída da experiência da perda como forma de poupá-la. Precisa saber da existência da morte e aceitá-la para, enfim, criar o seu processo de luto. Cada criança demonstra seu luto de forma diferente e esse processo é fundamental para conseguir superar o momento sem criar culpa, medo ou traumas.
No caso de morte na família, o psiquiatra indica que o funeral só deve ser assistido pela criança se ela quiser, além disso, é importante evitar que ela se sinta culpada se não desejar ir. O apoio das pessoas de confiança é fundamental. "Se a decisão for de ir ao enterro, responda as perguntas que forem surgindo sobre as cenas tristes que ela visualizará ao seu redor, como a existência do caixão e de pessoas chorando. Ele verá e poderá entender ou não. Às vezes fica correndo e brincando no velório e isto não é problema", detalha.
O papel da família é essencial para mostrar para a criança, com naturalidade, como é o ciclo da vida. Se os pais têm medo da morte e tentam poupar o filho, este reagirá da mesma forma. Quando a criança perde um membro da família é importante que ela saiba o que está acontecendo. "Quanto maior a perda, mais penosa será a elaboração do luto. Um luto não elaborado fica no inconsciente da pessoa para o resto da vida e pode transformar o estresse traumático em estresse pós-traumático, que exigirá elaboração ou mesmo a depressão infantil", explica. (Das agências)
Serviço
A Psiquiatria no Ciclo da Vida
Módulo II - Transtornos Mentais na Infância
Dia: a partir de 2 de julho
Local: Associação Médica de Minas Gerais
Informações e inscrições: www.consulteventos.com.br/psiquiatria ou (31) 3291-9899.