Família

Como agir com as crianças quando o assunto é a morte

31 dez 1969 às 21:33

Uma da mais constantes dúvidas dos pais é sobre como proceder ou como abordar o tema morte com as crianças. Poupá-los sobre a morte de um parente ou sobre o conceito de morte não é o ideal para que cresçam sem medo. O luto não trabalhado pode causar transtornos mentais em crianças e jovens, entre eles o estresse traumático e a depressão infantil. Esses e outros transtornos serão tratados pelo coordenador da Residência de Psiquiatria Infantil da Faculdade de Medicina da UFMG e diretor clínico do Centro Interdisciplinar de Orientação Psicopedagógica, José Raimundo Lippi, durante o segundo módulo do Curso de Atualização "A Psiquiatria no Ciclo da Vida", até o dia 2 de julho.

O psiquiatra explica que a morte, seja ela de uma pessoa querida ou de um animal de estimação, deve ser tratada pela família sempre que a criança perguntar. "Não que as crianças não compreendam o fato ocorrido em si, mas o conceito entendido depende da idade. Por isso, os adultos são fundamentais para explicar que a morte faz parte do ciclo natural da vida", conta Lippi.


As crianças de até três anos não conseguem perceber claramente que a morte é definitiva e irreversível. As perguntas sobre o ocorrido iniciam-se, geralmente, por volta dos cinco anos de idade. Elas percebem que a morte é algo natural, mas precisam de explicações concretas para entender como a pessoa que morreu não vai mais se mexer, abrir os olhos, falar ou comer. Porém, é a partir dos 10 anos que todo o processo de morte pode ser entendido completamente pela criança.


Uma dica do especialista é de que uma oportunidade para começar a falar da perda e ajudar a criança a absorver o assunto como natural é a morte de uma planta, de uma flor ou até mesmo conversar sobre o animalzinho de estimação que ficou doente e faleceu. Explicar o processo de envelhecimento, principalmente se a criança tiver exemplos como os avós, e os motivos da morte também contribuem para o entendimento menos traumatizante.


Outra forma de expor de forma concreta o assunto é através de livros, que podem auxiliar os pais na hora de conversar com os filhos pequenos sobre a morte, contendo palavras simples e de fácil assimilação. "Falar que a pessoa dormiu para sempre ou descansou não é o adequado, pois a criança pode ficar com medo na hora de dormir ou achar que a pessoa irá acordar", conta o especialista. As expressões "foi fazer uma longa viagem" ou "foi embora" também podem confundir a criança e levá-la a acreditar que todos aqueles que farão uma viagem nunca mais voltarão ou que a pessoa poderá voltar um dia. O professor conta que o ideal é sempre dizer a verdade, "mentir para elas é provocar angustia e sofrimento, pois as perguntas continuarão", explica.


O melhor procedimento é deixar a criança perguntar o que quiser, encorajando-a a expressar o que sente. Responder a todas as perguntas com palavras simples e frases curtas para que ela possa entender perfeitamente o processo natural de falência humana.


Se alguém perto da criança como pais ou avós morrem, ela não deve ser excluída da experiência da perda como forma de poupá-la. Precisa saber da existência da morte e aceitá-la para, enfim, criar o seu processo de luto. Cada criança demonstra seu luto de forma diferente e esse processo é fundamental para conseguir superar o momento sem criar culpa, medo ou traumas.


No caso de morte na família, o psiquiatra indica que o funeral só deve ser assistido pela criança se ela quiser, além disso, é importante evitar que ela se sinta culpada se não desejar ir. O apoio das pessoas de confiança é fundamental. "Se a decisão for de ir ao enterro, responda as perguntas que forem surgindo sobre as cenas tristes que ela visualizará ao seu redor, como a existência do caixão e de pessoas chorando. Ele verá e poderá entender ou não. Às vezes fica correndo e brincando no velório e isto não é problema", detalha.


O papel da família é essencial para mostrar para a criança, com naturalidade, como é o ciclo da vida. Se os pais têm medo da morte e tentam poupar o filho, este reagirá da mesma forma. Quando a criança perde um membro da família é importante que ela saiba o que está acontecendo. "Quanto maior a perda, mais penosa será a elaboração do luto. Um luto não elaborado fica no inconsciente da pessoa para o resto da vida e pode transformar o estresse traumático em estresse pós-traumático, que exigirá elaboração ou mesmo a depressão infantil", explica. (Das agências)

Serviço
A Psiquiatria no Ciclo da Vida
Módulo II - Transtornos Mentais na Infância
Dia: a partir de 2 de julho
Local: Associação Médica de Minas Gerais
Informações e inscrições: www.consulteventos.com.br/psiquiatria ou (31) 3291-9899.


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