Mudanças, separações e perdas inesperadas. A vida é assim. Existem sonhos que não são concretizados e vontades que não são saciadas. Muitas vezes a alegria abre espaço para a tristeza e para a frustração. E lidar com esses sentimentos não é tarefa das mais fáceis. Para tanto, desde bem cedo o ser humano deve ser preparado para enfrentar os desafios e os problemas. É na infância que esse aprendizado começa. Diferente do que muitos pensam, o sofrimento da criança pode ser altamente benéfico. Levar um não dos pais, perder um jogo ou mudar de escola podem ser ''ensaios'' necessários para a vida adulta.
''Como queremos o melhor para as nossas crianças, é comum tentarmos protegê-las de qualquer forma de sofrimento. No entanto, por mais que os pais se esforcem, a frustração é parte da vida e de nossas experiências. Lidar adequadamente com ela é uma habilidade que deve ser aprendida'', afirma a psicóloga Juliana Barboza Caetano de Paula, mestre em Análise do Comportamento. Segundo ela, o enfrentamento de situações desagradáveis deve ocorrer de forma gradativa, sempre adequado à idade e com acompanhamento.
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A psicóloga ressalta que educar é preparar a criança para superar os problemas futuros. ''Em situações cotidianas, o adulto pode mostrar que também tem frustrações e que consegue conviver com isso'', diz, aconselhando que em caso de raiva ou agressão, o adulto deve ignorar o ''espetáculo'', não gritando nem tentando convencer a criança a parar. ''Quando ela se acalmar, é o momento de conversar sobre o ocorrido, ensinando outras formas de expressar o sentimento.''
Atitude muito importante é nunca ignorar ou desrespeitar a decepção da criança. ''É importante a compreensão. Para uma criança a perda de um animal de estimação ou do brinquedo favorito pode ser tão sofrida quanto a perda de um emprego para o adulto'', exemplifica.
Independente da causa do sofrimento, uma coisa é certa: ''Mais cedo ou mais tarde, os eventos que causam frustração vão afetar o indivíduo se ele não estiver preparado para enfrentá-los.'' De acordo com Juliana, ao aprender a lidar com a frustração, a criança consegue também resolver problemas, persistir diante de tentativas fracassadas, ter autonomia e desenvolver sentimentos de segurança e autoconfiança. Os pais devem estar atentos aos efeitos de uma frustração, pois em alguns casos é importante o acompanhamento de um profissional especializado.
'Tenho que ensiná-las a lidar com problemas'
''No dia a dia elas acabam se frustrando, pois muitas vezes não conseguem ter e fazer tudo o que querem'', afirma Josiane Tescaro Novi dos Santos, mãe de Júlia e Laura, de nove e quatro anos respectivamente. Segundo ela, as meninas aprenderam a lidar um pouco com a frustração por meio de jogos. ''Hoje elas aceitam perder com mais facilidade. A Laura ainda tenta ganhar as coisas pelo choro mas está percebendo que não é uma boa tática'', diz.
Josiane lembra de algumas situações de desapontamento. ''Há algum tempo, a Júlia fez aulas de balé durante todo o ano e ensaiou para o espetáculo final. A expectativa era grande, mas infelizmente ela não pôde se apresentar devido a imprevistos familiares. Ela ficou muito triste e eu precisei conversar bastante com ela'', conta.
Outro fato que frustrou Júlia aconteceu no início desse ano. ''Ela queria muito passar a estudar no período da manhã, mas ia mudar toda a rotina da família. Expliquei que não dava. Ela chorou e sofreu bastante'', recorda a mãe. ''Acho que a imposição de limites acaba frustrando as crianças, pois muitas vezes elas não entendem por que não podem certas coisas. Mas tenho que ensiná-las a lidar com problemas'', completa.
'Foi a primeira perda que ela sofreu'
A pequena Laura, de quatro anos, sofreu a primeira frustração de sua vida no ano passado. ''Ela queria muito ganhar um cachorrinho. Todos os dias pedia por isso. Eu dizia que estava procurando e que na hora certa daria o animal a ela'', conta a mãe Rossana Gontijo Lobo. Quando finalmente resolveu comprar o cachorrinho, Rossana lembra que ''foi uma alegria sem fim''.
No entanto, em menos de 15 dias, o filhote começou a ter fortes crises convulsivas. ''Levei o cachorro ao veterinário, cheguei a medicá-lo, mas a situação foi se agravando e eu precisei devolvê-lo ao pet shop. Foi uma tristeza'', diz Rossana, que não sabia como dar a notícia a filha. ''Precisei conversar muito com a Laura, explicar o que tinha acontecido. Procurei dizer a verdade. Ela precisava entender que na vida a gente se frustra e que todos nós precisamos estar preparados para os problemas'', diz a mãe
''Ela perguntava muito do cachorro. Para amenizar a situação, acabei pegando outro filhote, o Charlie, que é a grande paixão de Laura. Mas ela nunca esqueceu o outro. Foi a primeira perda que ela sofreu.''