Sono agitado, insônia, pesadelos frequentes, choro excessivo e crises fortes são sinais de que o medo e a ansiedade estão além do normal na infância. É quando a ansiedade passa a prejudicar a vida da criança em atividades normais, como ir à escola, que se diagnostica um transtorno.
Segundo um estudo sobre transtornos de ansiedade no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), cerca de 5% de crianças e jovens sofrem de algum transtorno do tipo, com sintomas de ansiedade e preocupações excessivas para a idade, que persistem por mais de seis meses. Sintomas que podem culminar em crises de choro e pânico ou se converter em efeitos físicos, como insônia, tremores, diarréia e taquicardia.
Receba nossas notícias NO CELULAR
WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp.Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.
''Tanto a ansiedade como o medo são emoções inerentes a nossa condição humana. Porém algumas situações, quando o medo ou a ansiedade são exacerbados, indicam que algo não vai bem'', alerta a psicóloga Myrna Chagas Coelho, também professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
No caso do TAG (transtorno de ansiedade generalizada), um dos mais comuns, ''a criança é incapaz de relaxar um segundo'' e tem reações desproporcionais de medo e ansiedade no convívio social. ''Se não for tratado, pode se tornar crônico e prejudicar o desempenho escolar e a vida social'', diz Fernando Asbarh, psiquiatra e coordenador do grupo de estudos sobre transtornos de ansiedade no HC da USP.
Mas há uma série de outros transtornos com sintomas semelhantes, como o transtorno de ansiedade de separação; a fobia social; as fobias específicas, como medo de elevador, de inseto, de prova escolar; e o transtorno do pânico, menos comum em crianças e adolescentes que em jovens, mas que também traz sintomas de ansiedade e pode vir junto das fobias específicas.
''Qualquer situação onde a criança se sinta mais desprotegida ela tentará evitar, como dormir sozinha ou na casa de parentes, ficar no escuro, permanecer na escola longe dos pais. Para se analisar um problema clínico infantil usa-se alguns parâmetros, a intensidade, duração, frequência e somatória dos comportamentos apresentados'', explica Myrna.
''O que importa não é o nome que se dá, mas como podemos mitigar esses sintomas prejudiciais'', afirma Asbarh. Ele diz que é comum que os traços de ansiedade se desenvolvam na infância ou adolescência. Por isso os pais devem estar atentos ao que é uma personalidade difícil ou ''birra'' e o que pode ser um problema clínico. ''Na dúvida, melhor ter a avaliação psiquiátrica'', afirma.
A psicóloga chama a atenção também para o que causou o problema. ''Situações de estresse, como perda de um ente querido, separação dos pais, brigas frequentes no lar, podem levar a criança a transtornos de ansiedade'', ressalta. O importante, segundo ela, é não achar que o medo vai passar com o tempo, conforme a criança cresce. ''Uma vez instalado um medo patológico é preciso tratá-lo porque ele tende a se intensificar e a aumentar com o tempo, tornando o problema mais complexo, assim como o tratamento''.
Tratamento com medicamentos pede cautela
Especialistas relativizam o tratamento da ansiedade em crianças e jovens de 7 a 17 anos com medicamentos. Segundo a professora de psicologia da PUC e supervisora da clínica psicológica da universidade, Camila Sampaio, a medicação deve servir para ajudar a criança a ter consciência de sua condição e adquirir segurança para vencer a ansiedade e o medo. ''Mas medo e ansiedade devem, sempre, ser tratados de forma psicológica.''
''O medicamento deve ser colocado com muita cautela'', concorda a psicanalista Ana Maria Trinca, para quem a avaliação do transtorno deve partir de uma relação de proximidade dos pais com os filhos. ''Os pais têm que conhecer bem os filhos, um pai distante não consegue avaliar, acha que a criança é mal-educada, sente-se impotente'', afirma.
Por isso, Ana Maria defende que os pais também participem de uma eventual psicoterapia. ''Eles não podem jogar a culpa em cima da criança, pois a relação é sempre dinâmica.''
''Na maioria dos casos não se faz uso da medicação e o atendimento é apenas psicológico. Este comumente envolve um trabalho de orientação a família, a escola, quando necessário, e de atendimento com a criança com procedimentos psicoterápicos específicos. Em alguns casos a avaliação psiquiátrica é indicada e o médico julgará se a medicação pode ou não beneficiar a criança'', finaliza a psicóloga Myrna Chagas Coelho, professora da UEL. (C.P. com Folhapress)