Que esporte faz bem para a saúde ninguém discute. Toda criança deve praticar esportes para ajudar no seu desenvolvimento físico, psicológico e na interação social. Mas muitas dúvidas pairam na cabeça dos pais, como qual a melhor modalidade e com quantos anos o filho pode começar a praticá-la. Em entrevista à Folha, o mestre em Educação Física Marco Antonio Cabral Ferreira tira as dúvidas e alerta: presença muito incisiva dos pais nos eventos esportivos causa estresse e irritação nas crianças.
Com quantos anos a criança deve começar a praticar esportes?
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As pesquisas indicam que a idade ideal é a partir dos quatro anos, mas em países como os Estados Unidos a iniciação é aos três. No Brasil a entrada é mais tardia, a partir dos seis anos.
Qual são os esportes mais indicados?
Qualquer um, inclusive a corrida. Desde que respeite a individualidade do esportista mirim, que se adeque às suas necessidades, sua maturidade. Respeitando isso, não tem problemas.
Quais são os riscos de forçar uma entrada precoce da criança no esporte?
Precisamos deixar claro o seguinte: iniciação esportiva é uma coisa, e especialização é outra. Se você especializar precocemente, há um risco de lesão óssea e muscular. A criança que treina duas horas por dia, cinco vezes por semana, já está se especializando. Ela não está preparada para estes impactos. Tem ainda a parte psicológica, porque há muita cobrança tanto por parte dos professores quanto dos pais. Isso gera um clima de estresse, ansiedade, irritabilidade. Lidar com o resultado, tanto do sucesso quanto do fracasso, é o grande problema. Por outro lado, não podemos esquecer os benefícios do esporte, como o contato com o primeiro modelo de sociedade, em que ela pode se relacionar, criar habilidades de convívio social.
O fato do pai estar presente em todos os treinos, o tempo inteiro gritando com a criança, pode ser prejudicial?
Existem vários modelos de pai. Tem o pai desinteressado, que usa o esporte como babá e nem pergunta para a criança se ela está satisfeita. Tem o pai mal informado, que depois de uma simples conversa com o filho coloca ele no esporte, mas não acompanha, não vai aos jogos. Tem o pai excitado, que ajuda, acompanha, está na arquibancada, mas quando o jogo está mais empolgante ele perde o controle emocional e xinga árbitro, treinador, os pais das outras crianças. E tem ainda o pai fanático, aquele que tira treinador de clube, acha que o filho dele tem que jogar toda hora porque é um craque, e ainda cobra excessivamente a criança.
Qual é o perfil ideal dos pais que têm filhos praticando esportes?
Eles devem formar um clima motivacional para o ambiente esportivo da criança. O pai que influencia a criança no esporte tem as melhores intenções possíveis. Mas, na ânsia de querer que o filho dê resultado, o esporte pode ser prejudicial. Orientando, conversando, se colocando apenas na condição de torcedor, estará ajudando muito. Porque a criança vai aprender com o esporte a respeitar o próximo, a ter espírito de cooperação, disciplina, motivação e vai levar para fora, para o estudo, para a família que tiver no futuro.
Qual é a melhor forma do professor trabalhar com crianças?
Até os dez anos, o ideal é trabalhar da forma mais geral possível. Um bom exemplo é o atletismo. Se você passar as crianças por todas as modalidades do atletismo de forma lúdica, em que ela encare aquilo como brincadeira, vai aprender a correr, lançar, soltar. Em esportes coletivos, como o futebol de salão, o ideal é que todos passem por todas as posições. É uma forma de direcionar o crescimento e o desenvolvimento motor de forma global. Se for uma função específica, pode reduzir a capacidade motora da criança.