Família

Famílias estão vulneráveis ao "assédio consumista"

31 dez 1969 às 21:33

Mãe de dois meninos, um de 6 anos e outro de 13, a professora Márcia Regina Bonfim recomenda que os pais estabeleçam limites para os filhos. "Lá em casa ninguém faz como quer, a hora que quer", afirmou, enquanto os filhos lanchavam em um shopping de Brasília.

A mesma recomendação foi repetida por Domingos Lima de Brito, porteiro e pai de um menino de sete anos. "Se abrir tudo para a criança, ela vai tomar conta", alertou. Tia de um garoto de 11 anos, Simone Bontempo, auxiliar de enfermagem, também orientou: "às vezes, dá para quebrar a regra, mas às vezes é preciso dizer não".


Apesar de as famílias saberem que é preciso impor limites, a opinião de especialistas é de que o incentivo ao consumismo vai além dos poderes dos pais, tios e avós. "A família tem responsabilidade, mas também é vítima do assédio consumista", disse a coordenadora-geral do projeto Criança e Consumo do Instituto Alana, Isabela Henriques. Ela lembrou que o Estado e a sociedade têm obrigação de proteger as crianças, como está estabelecido na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código de Defesa do Consumidor.


Para o professor titular do Instituto de Psicologia, Yves de la Taille, "é um sofisma" (argumento que produz aparente verdade) atribuir à família a responsabilidade por filtrar toda a publicidade veiculada. "Como assim, cabe à família? Quando se trata da coisa pública, você não pode colocar a regulação de uma coisa pública no domínio privado", criticou. "Se os adultos são os primeiros a se entregar ao consumo, como eles poderão, como pais, regular o consumo dos filhos?", questionou.


Anvisa prepara regras sobre publicidade de alimentos

Os supostos efeitos da publicidade sobre o consumo infantil fizeram a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) elaborar uma resolução para restringir e regulamentar a propaganda de alimentos com quantidades elevadas de açúcar, gordura e sódio e de bebidas com baixo teor nutricional.


A agência está analisando mais de 250 sugestões que recebeu na consulta pública (nº 71/06) a que submeteu a norma por 140 dias. As sugestões serão sistematizadas, reapresentadas em audiência pública e, posteriormente, encaminhadas para a diretoria colegiada da agência.


Enquanto a Anvisa não conclui o processo iniciado em novembro de 2006, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e o Instituto Alana colocaram novamente o assunto em debate e promoveram nesta terça-feira (10), uma mesa-redonda, em São Paulo, para discutir as práticas de publicidade e marketing de alimentos e bebidas dirigidas a crianças.


Para o Idec e o Instituto Alana, é fundamental provocar o debate sobre propaganda de alimentos para crianças neste momento. "Tudo leva a crer que não há interesse nenhum dos anunciantes em discutir isso seriamente", afirmou o gerente de Informação do Idec, Carlos Tadeu de Oliveira.


Segundo, ele, "a propaganda não é um mal em si", no entanto, incentiva o consumo excessivo do chamado fast food, que pode causar diabetes, hipertensão e obesidade, daí a necessidade de regulamentar a publicidade para os alimentos. O Instituto Alana confirma que 15% das crianças no mundo têm problemas de obesidade. Além dos problemas de saúde, o incentivo ao consumo na infância pode antecipar a erotização, afetar a formação de valores, gerar estresse na família e até favorecer a violência.

Trinta e dois por cento das sugestões recebidas pela Anvisa na consulta pública foram propostas pelo setor em regulamentação, 25% da chamada sociedade organizada. Conforme a agência, houve também a participação de pessoas físicas (29%) e de instituições de combate ao câncer (14%).


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