Cena comum nas escolas brasileiras - crianças, muitas vezes menores de 7 anos, saem diariamente após as aulas com uma mochila enorme nas costas, carregada de livros e material escolar (agenda, estojo e cadernos). Às vésperas das férias e a três meses do próximo ano letivo, a história se repete e provavelmente vai se repetir em 2010, chamando a atenção de especialistas que reforçam os perigos desse excesso de peso para a saúde da criançada.
Mochilas pesadas podem causar danos graves à postura, como escoliose (desvio da coluna vertebral para a esquerda ou direita) ou cifose (aumento anormal da curva dorsal da coluna vertebral). ''O esqueleto de uma criança ainda está em formação, é maleável. Por isso, é preciso tomar cuidado para que o peso da mochila não exceda o recomendado'', diz o ortopedista Horst Wever, professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultor de ortopedia do Hospital Israelita Albert Einstein.
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Para facilitar a vida dos pais e dos pequenos, a fisioterapeuta Susi Mary de Souza Fernandes, mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da USP, elaborou orientações para uso da mochila escolar que podem reduzir problemas futuros na coluna. A dissertação de Susi mostrou que educação postural é bem aceita pelas crianças e tem adesão de pais e professores.
A pesquisa foi realizada com 99 crianças. ''Observei que as crianças transportam carga excessiva, ou seja, superior àquela considerada segura para que não aconteçam danos à coluna vertebral'', diz Susi, lembrando que o peso da mochila, com conteúdo, não deve ultrapassar 10% peso corporal das crianças. Susi também observou que, na hora de carregar a mochila, as crianças o faziam de modo errado, usando apenas um ombro para isto.
''Isso pode acentuar deformidades e causar problemas como a escoliose, caracterizada pelo formato de 'S' da coluna vertebral. Por isso, é importante carregar com os dois ombros'', aconselha Wever.
Mas, segundo Susi, seus achados já eram esperados. O que muda aqui, é a intervenção baseada em educação dos pais, professores e das crianças. ''Os pais, por questões econômicas, preferem materiais mais resistentes e, consequentemente, mais pesados (mochilas estruturadas, cadernos de capa dura e etc.). Muitos também não observam se as crianças carregam materiais além daqueles exigidos pela escola diariamente, ou seja, não fiscalizam as mochilas'', diz a fisioterapeuta. Eis aí mais uma tarefa para os pais, além de checar o caderno do filho: verificar o peso da mochila.
Susi ainda diz que as escolas devem colaborar, racionalizando os horários de modo que a criança não precise levar todo material diariamente. E, além disso, poderiam armazenar em armários os materiais de uso diário, evitando que os pequenos os transportassem todos os dias. Por último, a escola deve dar orientações quanto ao tipo de material a ser escolhido: cadernos com menor número de folhas, sem capa dura, etc.
As crianças, por sua vez, precisam entender as consequências à saúde do transporte inadequado do material. ''Não adianta ter todo material adequado e não saber usar'', diz Susi. Durante a pesquisa, tanto as crianças como os pais e professores receberam as orientações da fisioterapeuta e aderiram a elas.
Preserve a saúde da coluna
Segundo Susi, as pessoas devem tentar transportar a carga de modo simétrico, ou seja, usando as duas alças da mochila. Segundo a fisioterapeuta, esta atitude não forçaria mais um ou outro lado da coluna.
Quanto menos compartimentos a mochila tiver, melhor. Muitas divisões favorecem a criança a levar mais do que a escola exige.
Outra opção é o fichário (que é carregado junto ao corpo e portanto mantém o conceito de simetria) associado a uma mochila ou bolsa pequena para lápis e caneta.
A mochila de rodinhas, considerada por muitos a solução ideal, se torna problemática na hora em que a criança tem de levantá-la para descer de um veículo, subir ou descer escadas, principalmente se estiver acima do peso adequado.
Mas para manter um nível aceitável de segurança, o ideal seria que todo material de papelaria, mais livros, ficasse na escola, e que a criança apenas levasse o suficiente para realizar tarefas em casa.