Há poucas décadas, a média do número de filhos por família no país era, no mínimo, duas vezes maior. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontava, no início dos anos 80, um índice de 4,4 crianças por mulher. Porém, na década seguinte, esse valor cairia para 2,9. Já no século 21, aumenta a frequência de famílias com apenas um rebento. De acordo com os números preliminares do IBGE para 2007, a taxa de fecundidade é pouco menor que dois no Sudeste do Brasil, chegando a 1,7 no Sul.
Apesar de já ser uma realidade no Brasil, pais de um único filho ainda são muito criticados por sua escolha. Pessoas de fora acreditam que eles recebam atenção excessiva e, pela ausência de irmãos, se tornarão mimados, egoístas, dependentes e até mesmo solitários. De fato, essa situação pode influenciar de algum modo na personalidade da criança, contudo, especialistas afirmam que o que vai determinar será, principalmente, a educação recebida.
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Não mimar demais foi uma das principais preocupações da funcionária pública Fátima Zemuner, mãe de Ana Cláudia, 18 anos. ''Sempre fui muito rígida na educação dela. Cobrava notas boas na escola e bom comportamento em casa. Tenho certeza que hoje ela é uma boa filha devido aos limites que coloquei. Nunca dei regalias por ser filha única.''. Ela conta que nunca teve grandes preocupações com a filha e orgulha-se ao dizer que ela entrou no primeiro vestibular em uma universidade estadual.
Quando se tem irmãos, a socialização começa no ambiente familiar. Por isso, a importância em incentivar filhos únicos na convivência com outras crianças e assim, aumentar as possibilidades de integração. Segundo Fátima, desde a infância, sua filha participou de atividades em grupo. ''Ela poderia ser uma criança solitária, mas sempre fiz de tudo para incluí-la em várias atividades. Tudo que estava ao meu alcance e que não sobrecarregasse o tempo dela, eu incentivava. Ela participava de colônia de férias, acampamentos e vários cursos como teatro, dança e música'', lembra.
Muitos são os motivos que levam casais a não terem mais filhos. Dentre eles, os principais estão a profissão e as longas jornadas de trabalho, maternidade tardia e a questão financeira. Mestre em psicologia pelo Núcleo de Família e Comunidade da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e diretora da Associação Paulista de Terapia Familiar (APTF), Liz Vercillo Luisi acredita que a redução dos lares no Brasil também está relacionada com o ingresso da mulher no mercado de trabalho. ''Especialmente na classe média, em que se pode optar por ter mais filhos, o casamento tem sido mais tarde e a maternidade é postergada em função do trabalho'', diz.
Foi assim com a psicóloga Patrícia Raboni, mãe de Rafael, 8 anos. ''Para ter um filho queria ter uma vida profissional estabilizada. Esperei me formar na universidade, arrumar um emprego e depois ainda arrumar um emprego melhor. Queria ter possibilidades de pagar uma boa escola, babá, um plano de saúde. Quando engravidei já estava com 30 anos''.
O fato de ter engravidado mais tarde e a falta de experiência com crianças fez que ela e o marido Paulo Henrique decidissem não ter mais filhos. ''Na época, eu chegava em casa cansada do trabalho e tinha que brincar com meu filho. Com mais uma criança, acho que não conseguiria dar atenção suficiente'', admite.
No entanto, hoje, Patrícia tem dúvidas se seria mesmo tão difícil ter mais filhos. ''Se tivesse engravidado logo em seguida, vejo que os gastos não aumentariam tanto. Além disso, acredito que ele (Rafael) seja um pouco solitário, pois além de ser filho único, é a única criança da família. Para isso, tentamos minimizar essa situação, incentivando-o a fazer mais amizades, ir a casa de amiguinhos.'' (Colaborou Giuliana Reginatto, da Agência Estado).