Família

Repórteres mostram a insegurança nas portas das escolas

31 dez 1969 às 21:33

Em menos de uma semana, três crimes chocantes no Paraná: meninas, todas com menos de 10 anos, foram raptadas e mortas, de forma brutal, em regiões diferentes do Estado. Em pelo menos dois desses casos – o de Rachel Maria Lobo de Oliveira Genofre, 9 anos, cujo corpo foi encontrado, no dia 5, dentro de uma mala na Rodoferroviária de Curitiba; e o de Alessandra Betin, 8, morta em Castro (41 km a norte de Ponta Grossa) e encontrada no dia 10, em um matagal – há indícios de que o assassino tenha conquistado a confiança da criança antes de cometer o crime.

No entanto, mesmo depois das notícias dessas mortes, ainda é fácil abordar crianças nos portões das escolas de Londrina. Jornalistas da Folha foram esta semana a três regiões da cidade e conversaram com estudantes que aguardavam o início das aulas. Inocentemente, os pequenos contaram aos adultos desconhecidos detalhes da rotina, do caminho que fazem todos os dias e de como acessam a internet.


Na Zona Oeste, por volta das 13 horas, já era grande o volume de alunos, com idade entre seis e dez anos, aguardando a abertura dos portões de uma escola municipal, o que só aconteceu 15 minutos depois. Entre as crianças que conversaram com o jornalista, chamou a atenção o caso de uma menina, de oito anos. Ela contou que mora a duas quadras da escola e vai para a aula a pé e sozinha. Mesmo depois que os portões são abertos, a garota prefere aguardar a hora de ir para a sala de aula na calçada da escola.


Rapidamente, o repórter conquistou a confiança da menina e soube por que ela reluta em entrar. ‘Eu não gosto de estudar. Por mim eu não entrava. Preferia ficar em casa ou ir dar uma volta’, comentou a estudante, que não negou nenhuma informação ao adulto.


Celular como desculpa


‘Está calor, né?’. Esse simples puxar de conversa com uma menina de 10 anos foi a senha para o início de uma conversa em frente a uma escola municipal da Zona Leste, onde um repórter permaneceu por mais de uma hora. A garota, ao som de rap em seu celular, consentiu, respondendo que poderia chover. Quebrado o gelo, o jornalista resolveu usar uma artimanha para se aproximar, dizendo que não sabia mexer no próprio celular. Extremamente solícita, ela encostou ao lado do jornalista e pegou o celular do mesmo para demonstrar.


A conversa se estendeu, a estudante contou que estava esperando uma colega sair da escola. O repórter ofereceu chicletes, a menina aceitou, sem nenhuma cerimônia.


Mais audacioso, o jornalista ofereceu guaraná, num bar da esquina. A menina não aceitou, dizendo que não poderia sair dali, por estar esperando uma colega.


Durante o período em que a reportagem permaneceu nas cercanias da escola, nenhuma viatura policial apareceu. Em frente ao estabelecimento, mães e alunos estavam do lado de fora esperando o abrir dos portões, o que só acontece depois das 13h.


‘Já sei andar sozinho’


Numa outra escola, na Zona Sul, a Folha observou crianças de sete anos chegando sozinhas. Com extrema facilidade, foi possível abordar muitas delas e saber nome, idade e a rotina durante e após o horário escolar.


Com uma bola de futebol nos braços, um menino de 10 anos revelou em poucos minutos de conversa quais os locais que costumava freqüentar, se tinha ou não um adulto responsável, se ia e voltava desacompanhado. Ao ser questionado se não tinha medo, foi taxativo: ‘Não, já sei andar sozinho’.


Com as meninas não foi diferente. Uma estudante de 11 anos que vem e volta todos os dias sozinha revelou inclusive as comunidades virtuais que costuma acessar. Durante cerca de meia hora em que a reportagem permaneceu no local, nenhum adulto se incomodou com a presença de uma pessoa estranha em frente à escola. Viaturas policiais também não estiveram no início da tarde no endereço. Enquanto as aulas não começavam, muitos estudantes brincavam tranqüilamente nos arredores e numa praça em frente.


Em sala de aula, dicas de como se proteger


‘Além de cobrar políticas públicas, é necessário orientar. Cada vez mais a escola é um ponto de segurança que vai instruindo nossas crianças e jovens.’ A afirmação é da presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP-Sindicato), Marlei Fernandes. A partir desse contexto, as escolas devem orientar seus alunos sobre os cuidados com a segurança pessoal.


O conceito ‘ponto de segurança’ é observado na Escola Estadual Angelo Trevisan, em Curitiba. Lá, 410 alunos da pré-escola e ensino fundamental são alvo de uma estruturada rede de proteção. Além de equipamentos de segurança (portão eletrônico e câmera de vigilância na entrada), os estudantes aprendem em sala de aula como devem se proteger.


Trata-se do projeto ‘Atitudes que constroem o caráter’. ‘Trabalhamos para que boas atitudes se tornem hábito’, explica a diretora Antonia Maria Dezan Lobato. Os professores trabalham com os alunos temas como segurança nas proximidades da escola, no trânsito e nas brincadeiras com os colegas. Não é permitido às crianças saírem desacompanhadas, nem com pessoas (até mesmo parentes) que não estejam autorizadas pelos pais. Elas são orientadas a permanecerem dentro da escola enquanto aguardam a chegada dos responsáveis.


Os pais também estão na mira das práticas de segurança. Desde a primeira reunião com a direção, são avisados sobre o rigor em relação ao horário de levar e buscar seus filhos na escola. Eles são cobrados no caso de eventuais atrasos, com registro na agenda dos estudantes em cada ocorrência. Depois da quinta notificação, os responsáveis são chamados à escola para assinar um termo de compromisso. ‘Os pais devem vir aqui dentro buscar os filhos. Em hipótese nenhuma a criança deve sair daqui sozinhos. Somos extremamente radicais nesse ponto’, ressalta a diretora.


Para Rosângela de Fátima Silva Lopes, a prática garante a segurança de seus filhos quando estão na escola. Ela participa da Associação de Pais, Mestres e Funcionários (APMF) e, sempre que pode, acompanha os alunos em passeios fora da instituição. ‘Não é uma responsabilidade só com os nossos (filhos), mas com todos’, diz. Outro pai de aluno, Walmir Battu, acompanha de perto a ação na escola e também atua na APMF. Ele já teve uma filha desaparecida durante 20 anos e trabalhou na organização não-governamental Interbureau, que atua na busca de crianças desaparecidas em todo o mundo. Com a sua experiência, ele contribui com a orientação dos estudantes. ‘Tenho tranqüilidade quando meus filhos estão dentro da escola.’


A instituição tem conseguido sensibilizar as crianças. ‘Somos orientados a ficar dentro da escola’, conta a aluna da terceira série, Cecilia Maria Silva Lopes, 9 anos. ‘A gente não pode falar com estranhos. Eles podem nos pegar e nos maltratar’, complementa Gabriela Thais Munhoz, 10, aluna da quarta série.


Secretaria promete instruir professoras


A secretária de educação de Londrina, Carmem Sposti, declarou estar preocupada com a situação das crianças que frequentam a rede municipal de ensino da cidade depois dos casos de estudantes raptadas e mortas no Paraná.


Segundo ela, será elaborada uma ''instrução normativa'' para ser repassada às professoras, às quais caberá a missão de orientar as crianças. ''É importante que os nossos alunos saibam que não devem ficar sozinhos pelas ruas e, quando os pais não podem acompanhar até a escola, que procurem a companhia de vizinhos ou colegas'', explicou.


Sobre o fato de os portões das escolas visitadas pela Folha ficarem fechados até momentos antes do horário de entrada dos alunos, a secretária respondeu que cada estabelecimento de ensino tem as suas normas, definidas pelas respectivas associações de pais e mestres. ''Elas (as associações) é que devem pensar em uma revisão de horários'', respondeu.


Já o capitão Paulo Quinelato, comandante da 4ª Companhia do Batalhão de Patrulha Escolar Comunitária, destacou que a prioridade da patrulha escolar é trabalhar com estudantes que cursam da 5 série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, por isso as escolas estaduais têm sido o maior foco do trabalho policial.


No entanto, de acordo com o capitão, as escolas municipais não deixam de ser atendidas. ''Nós estamos atuando repressivamente em dois campos principais: o tráfico de drogas e a pedofilia. Por isso, cada vez mais estamos ampliando o nosso trabalho, contando também agora com o trabalho de inteligência, de policiamento reservado, que deve combater principalmente a pedofilia. Precisamos contar com o auxílio da população, pois fazemos o patrulhamento e também agimos quando somos acionados. Quem perceber atitudes suspeitas devem entrar em contato conosco''.


Serviço - O telefone da Patrulha Escolar em Londrina é 3343-1002. Denúncias também podem ser feitas por meio do telefone 181.

(Reportagem de Edson Pereira Filho, Luciano Augusto, Wilhan Santin)


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